Alice Munro, música e dimensões da morte

1. Alice Munro

Alice Munro, uma grande escritora, ganhou o Nobel.

Em Portugal, estão de parabéns a editora Relógio d' Água, uma referência, e o notável poeta e tradutor de Alice Munro, José Miguel Silva.

«Andrew tinha dez anos quando visitou pela primeira vez Edimburgo. Acompanhado pelo pai e por alguns outros homens, subiu uma ruela escorregadia. (...) Ficou surpreendido com a quantidade de pessoas que o seu pai parecia conhecer na cidade de Edimburgo. (...) Por entre as vozes acaloradas, em plena discussão, a do seu pai era a que se ouvia melhor.» (A Vista de Castle Rock)

2. Ainda a escutar o disco "Amália" de Júlio Resende. Fado e piano. Escrevendo em cima das músicas.

A casa da Mariquinhas (Familiar e estranho)

Uma forma de acelerar a memória. Começamos assim: o desejo de cantar por cima do que é mais ou menos familiar. E acabamos a ficar a ouvir debaixo do mais ou menos estranho.

Estranha forma de vida

A vida tem uma forma, um desenho, um modo de ir daqui para ali. E tudo é estranho quando se está vivo porque o desenho do percurso é, em parte, feito por ti, mas há algo que não; algo que resiste, que não entendes - e é essa segunda parte que é estranha e, sim, manda em ti; bem mais forte que a tua maior força.

Uma casa portuguesa

Todas as casas falam uma língua; um edifício é uma forma de falar baixinho, de falar sem som. Um edifício fala em altura, largura e profundidade. É uma outra forma de canto: a arquitectura.

Tudo isto é fado (A causa dos terramotos)

Os animais têm patas lentas porque não querem perturbar o chão; animais com patas pesadas são egoístas, fazem barulho de cima para baixo, acordam as toupeiras; introduzem assim ruído mau que, com o tempo, se transformará em movimentos malignos: a terra treme porque certos animais, tempos antes, não tiveram a modéstia de andar em bicos de pés. Eis pois, uma explicação.

Foi Deus

Todos sabemos que foi Deus, mas há muito mundo que chegou depois; nenhum antes, mas muito mundo chegou depois. E esse segundo mundo aí está, a mandar construir, deitar abaixo, acertando medidas, afinando até os sons. Trata-se de uma forma de fingir que se é imortal e largo e alto e comprido, mas não há medidas suficientes nem peso capaz de evitar aquilo que foi talvez Deus que fez logo no início: esta pressa das coisas que ainda não existem mas que querem existir e para isso exigem já o teu espaço: vai adoecendo, meu caro, ou morre de repente, pois Deus quis muitas coisas no mundo, variadas e sucessivas; e tu, que és grande e tens boa voz, mesmo tu, estás já, de certa forma, atrasado em relação à pontualidade com que deus exige o teu desaparecimento.

Gaivota (Crueldade)

Em todo o lado, de resto, há uma medida que não consegues medir - ela sim olha para ti como se tu fosses não um mortal mas um móvel que tem de ser mudado; mudado daqui, dos vivos, para o sítio onde os mortos finalmente conseguem encontrar o pouso onde já não têm culpa.

3. Ainda sobre a morte e o tamanho do corpo (two maybe more)

De resto, de vez em quando, um mortal toca noutro e quem está de fora chama a isso, salvação, desejo ou agressão. Mas o corpo, de facto, não ocupa muito espaço quando morto - e quando vivo tem a ilusão de que pode correr e até saltar e até ficar por ali nesse estado mais ou menos inquieto, mas não. Tudo o que é essencial acontece no exacto comprimento e largura de um corpo. No fundo, insistir: tudo o que é importante acontece em pouco espaço. O corpo abre os braços e depois fecha-os. Abre e fecha olhos. As pernas podem andar, muito ou pouco, mas depois param. Nunca se morre em grandes espaços, por exemplo. A morte é uma coisa minúscula. Mesmo quem morre no grande deserto morre no corpo e este é sempre o oposto do largo e complicado mundo, é simples, modesto e pequeno; uma coisa que respira e come e fala e, depois, a partir de um certo momento, já não respira e já não come e já não fala. No fundo, temos medo e está escuro, e nunca nos aproximaríamos dos outros se o ponto de partida não fosse já esta derrota.