Ainda sobre a Europa (histórias e comentários)

1.

O naufrágio

Apenas o hipopótamo e o seu dono escaparam ao naufrágio, saltando para cima de um pequeno bote.

O hipopótamo era o ganha-pão do homem e por isso quando o pequeno bote começou a inclinar-se para o lado onde estava o animal, o homem ficou preocupado com a possibilidade de este se afogar. Para evitar que a pequena embarcação se desequilibrasse completamente, o homem cortou um pedaço do hipopótamo e comeu-o, o que também era oportuno, pois começava a estar com fome. O pequeno pedaço tirado ao hipopótamo permitiu que o bote recuperasse o equilíbrio entre os dois lados, como uma balança. Mas por pouco tempo. Novamente o bote começava a ir ao fundo do lado do hipopótamo. Este, apesar do bocado que lhe fora retirado, ainda era mais pesado. O homem decidiu então comer mais um pedaço do hipopótamo. Depois de o fazer, olhou para o barco e viu que ainda não era suficiente: tirou mais um bom bocado do animal e comeu-o. O barco recuperou o equilíbrio.

A viagem durou ainda algumas semanas e o homem, de seis em seis horas, via-se obrigado a cortar mais um bocado do animal.

Talvez não fosse a solução perfeita, mas não poderia correr o risco de perder o hipopótamo.

(histórias do livro O Senhor Brecht )

A imagem que se tem hoje nos países que estão violentamente em crise é a de que se está a comer as sementes, em vez de lhes dar tempo de crescerem. Comer as sementes significa destruir o que se tem hoje e destruir ainda a hipótese de vir a ter-se algo no futuro.

E há dois tipos de pobreza - a pobreza de hoje e a pobreza de hoje que sente não poder vir a sair desse estado. A pobreza desesperada é, de longe, a mais violenta. Pobreza sem dia seguinte. Perder o tempo: nada há de mais desumano.

2.

Liberdade de escolha

Era uma livraria que vendia um único livro. Havia cem mil exemplares numerados do mesmo livro. Como em qualquer outra livraria, os compradores demoravam-se, hesitando no número a escolher.

Não é possível, nos tempos que correm, pensar de duas maneiras, apenas de uma. O espaço público parece que foi invadido por um exército de uma única teoria, da ideia de que não há opções políticas e económicas diferentes e alternativas.

Nunca houve tanta opinião e debate, mas a sensação que se tem é de que ouvimos variações dessa Única Teoria. Uma teoria que nem sequer é verbal, mas sim numérica.

3.

O amigo

Era um rapaz passivo. Aceitava tudo o que vinha dos chefes. Porém, como era um bajulador, incomodava.

Cortaram-lhe a língua: deixou de elogiar.

Depois cortaram-lhe os dedos. Deixou de escrever textos laudatórios.

Foi num desses dias que, com a cabeça a bater numa mesa - em código morse - ele disse, para os seus chefes:

Mais uma como esta e perdem um amigo.

Nos países periféricos, muitas vezes há a sensação de que nos comportamos em relação à Europa mais central como aquele homem que se esforça por ser amigo dos fortes e sacrifica tudo por isso.

fim

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