Agora ficas aqui sossegada dentro desta gaveta, ok?

Quantas vezes já mudaram de emprego? E, dentro da mesma empresa, quantas vezes já mudaram de funções? Ou de chefe? Ou de sala? Ou de secretária? E de casa, quantas vezes já mudaram? E quantos carros já tiveram? Em quantas cidades já viveram?

Goste-se ou não delas, provocadas por nós ou pelas voltas da vida, as mudanças existem porque o mundo não para - um cliché foleiro por dia nem sabe o bem que lhe fazia; pronto, este já está. Seja para melhor (espera-se) ou para pior (por vezes só descobrimos mais tarde), o mundo é mesmo composto de mudança. E de tudo o que levamos connosco de um sítio para outro. De uma fase para outra. Nomeadamente as pessoas que marcaram a diferença nas nossas vidas nesses períodos.

Vamos ao que interessa: lembram-se do que estava a acontecer na vossa vida pessoal no meio dessas reviravoltas todas? Entre um momento de mudança e o outro, lembram-se do que era mais importante na altura? Lembram-se de quem era mais importante na altura? Ou, vá lá, lembram-se de quem era assim-assim importante, não porque estavam caídos de amor, mas porque tinha umas longas pernas ou uma conversa fascinante?

Chamemos os bois (e as vacas!) pelos nomes. Salvo seja. Durante os tempos em que trabalhou naquela empresa, lembra-se bem do namorado ou namorada que tinha na altura, não lembra? E quando alugou a sua segunda casa, recorda-se de quem é que dormiu consigo na primeira noite, quando só tinha um colchão, um copo e uma caixa de piza. Certo?

Nessa ânsia de arrumar e catalogar tudo na nossa vida, temos tendência para arrumar também pessoas. Sobretudo as de quem gostamos. Mas também as de quem já gostámos. Algumas são resistentes e insistem em não se deixar etiquetar, por muito que queiramos que façam parte do passado. Essas são a irritante exceção. Mas as outras todas estão, habitualmente, associadas a um período qualquer, num sítio qualquer, com uma banda sonora qualquer, e até um cheiro qualquer. Podia-se chamar «geografia emocional de memória». Caramba, soa bem, isto. Vou repetir: «geografia emocional da memória». [Tenho de registar esta expressão. Dentro de uns anos pode ser o nome de um curso de coaching para sacar dinheiro a quem quer mesmo acreditar que a chave para a felicidade se serve em forma de palestras.]

Adiante: esta «geografia emocional da memória» funciona de forma automática para cada pessoa. O Henrique está associado ao período em que a Ana viveu em Vila Nova de Gaia e trabalhava naquele gabinete de contabilidade na Foz. A Rita estará para sempre ligada a Madrid e ao ano de Erasmus que o Carlos fez na capital espanhola. E sempre que vir um Ford Fiesta passar, o Pedro vai lembrar-se da Cláudia e daquela viagem pela Galiza, aquela noite em que dormiram no carro e daquela manhã em que deixaram o capot amolgado. Da próxima vez que mudar de emprego, a Carla vai olhar para trás e pensar que, nos últimos nove anos, enquanto esteve naquela empresa, conheceu o Ricardo, casou com ele, teve um filho, divorciou-se, conheceu o Afonso, casou outra vez. Cada pessoa, cada gaveta...

Quando eu entrei para a faculdade, tinha uma namorada que trazia do liceu. Namorámos dois anos. Quando saí da faculdade, tinha outra pessoa, com quem comecei a namorar no último ano do curso. Namorámos cinco anos. Pelo meio, houve a S. Só namorámos um ano e poucas semanas. Para todos os efeitos, ela foi a namorada da faculdade. Não pelo tempo da relação. Mas pela gaveta onde a arrumei. É mais prático assim.

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