Açores: antes e depois da autonomia

Agora há mais uma razão para ir aos Açores. Quem nada sabe da história da sua autonomia tem agora a oportunidade de a conhecer com A Viagem Autonómica , um documentário do jovem realizador de 31 anos Filipe Tavares que, através dos jornais da época, de registos audiovisuais em arquivo e de vários testemunhos, põe a nu anos e anos de uma história que muitos portugueses, continentais e açorianos, em especial os mais novos, desconhecem.

Filipe tem uma relação umbilical com o arquipélago. Apesar de viver em Lisboa há mais de uma década, nasceu e criou-se em São Miguel, pelo que não podia deixar de dedicar a sua primeira-longa metragem a esse caminho longo e atribulado que os açorianos, desde a primeira geração à última de autonomistas, tiveram de percorrer, conseguindo sintetizá-lo em noventa minutos. Parece muito, mas tem-se a sensação de que assim que o projetor incide no ecrã o tempo passa num piscar de olhos, tanta é a informação para digerir.

Para suavizar o «peso» de um documentário desta natureza, Filipe criou uma personagem (de resto, o único elemento de ficção), protagonizada pelo ator Frederico Amaral, também natural dos Açores, através da qual vai introduzindo testemunhos e depoimentos de mais de cinquenta personalidades especialistas no assunto, que pesquisaram e alguns até protagonizaram vários momentos dessa conquista. No filme, Frederico faz de Gonçalo e este, de mochila às costas, inicia uma viagem pelas nove ilhas à procura de informação e, dessa forma, identificando os principais acontecimentos que conduziram ao processo iniciado no final do século xix pela primeira geração autonomista - fala com os historiadores Medeiros Ferreira, Avelino Menezes, Carlos Cordeiro e Susana Goulart da Costa, com os investigadores Carlos Enes e Machado Pires, com a historiadora de arte Isabel Soares de Albergaria, com o poeta, escritor, ensaísta e crítico literário Victor Rui Dores, com o professor e especialista em imigração Onésimo Teotónio de Almeida, com o advogado e ativista político Melo Bento, com o político e líder do PCP/Açores, de 1979 a 2005, José Decq Mota, com o primeiro presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, Álvaro Monjardino, com o primeiro e segundo presidentes do governo regional Mota Amaral (1976-1995) e Carlos César (1996-2012), entre muitos outros. Pelo meio, Gonçalo entra em bibliotecas à procura de livros sobre o tema e lê jornais da época.

Com esta abordagem simples e dinâmica, o realizador e também produtor e coargumentista espera cativar, sobretudo, as gerações mais novas: «Já me dava por satisfeito se este filme incentivasse uma reflexão sobre a importância que a autonomia político-administrativa tem no futuro dos Açores e na forma de estar do seu povo.» Mas não só. Filipe Tavares, que se estreia na produção e realização com A Viagem Autonómica - até aqui a sua experiência no cinema era como assistente e diretor de som -, propõe-se igualmente partilhar com os portugueses que vivem no continente a realidade atual insular e, com isso, desmistificar algumas ideias preconcebidas e estereotipadas: «Devemos encarar a insularidade como uma força e uma oportunidade, não como uma prisão que nos impede de fazer coisas.»

O filme será apresentado num registo itinerante. Depois da estreia no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, no dia 2 de março (este dia tem um significado especial: o Decreto-Lei de 2 de março de 1895 representa o início da autonomia administrativa dos Açores e, apesar de estar longe dos objetivos dos seus patriarcas, abriu caminho para o projeto autonómico concretizado logo após o 25 de Abril de 1974, depois de implantado o regime democrático em Portugal), AViagem Autonómica será exibida no Teatro Angrense, na Terceira, no Teatro Faialense (no Faial), nos auditórios municipais e nas escolas da região. Mais tarde, espera Filipe, «será apresentado em festivais de cinema e chegará às comunidades açorianas residentes no Canadá e nos Estados Unidos.»

Depois deste, Filipe prepara-se para mais três trabalhos - um sobre a toxicodependência, outro sobre a rádio e outro sobre os movimentos independentistas. Todos têm um denominador comum: os Açores.

Ficha Técnica

Produção: Vento Encanado Produções

Realizador: Filipe Tavares

Elenco: Frederico Amaral, Carlos Eduardo Ferreira, David Medeiros

Argumento: Nuno Costa Santos e Filipe Tavares

Pesquisa: Bárbara Almeida

Produtor: Filipe Tavares

Fotografia: Pedro Emauz

Som: Ricardo Leal

Edição: Renata Sancho e Filipe Tavares

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