A minha roupa favorita é...

O que vestimos fala por nós. A Notícias Magazine quis ouvir o que dizem as peças favoritas de Joana Vasconcelos, Rui Reininho, Miguel Frasquilho, Nuno Melo, Nuno Gama, Guta Moura Guedes e dos irmãos Rosado.

Há quem considere o ato de comprar roupa uma perda de tempo, quem se vista naturalmente bem equilibrando dinheiro e dilemas existenciais, e até quem se esforce por ter boa figura sem, no entanto, conseguir ser feliz nas escolhas. Esta semana, numa edição dedicada à moda, a Notícias Magazine decidiu perguntar a várias pessoas qual a sua peça de roupa favorita. E todas elas revelam um grande realismo. Todas, sendo figuras públicas, e portanto dependentes da imagem que os outros delas têm, percebem que a roupa que vestem, mais do que proteger o corpo das agressões exteriores e as vergonhas dos olhares alheios, a roupa assume um caráter simbólico desde que o homem vestia as peles dos animais que caçava.

«Temos uma necessidade intrínseca de nos revelarmos ou escondermos através da roupa que usamos. É claramente um meio de comunicação para o exterior», diz o estilista Nuno Gama, tão habituado a pensar as tendências da moda como a psicologia que lhe está subjacente. «Também pode ser um bloqueio, caso a pessoa se vista sempre de preto da cabeça aos pés. Nesse caso, trata-se de um estilo condicionado por algo que não quer revelar», afirma Nuno, seguro de ser capaz de traçar o perfil de alguém com base no rosto e numa dezena de fotos retratando a maneira como habitualmente se veste.

Desconhece-se o momento exato em que o homem sentiu necessidade de começar a usar roupa, mas registos históricos indicam que os caçadores pré-históricos envergavam peles para se protegerem dos elementos e como um sinal de bravura entre os seus pares. Estudos genéticos realizados por investigadores numa espécie específica de piolhos, surgida há bastante mais de cem mil anos e dependente da pelagem animal para sobreviver, comprovaram a existência de roupa já nessa altura. Na Rússia, no fim da década de 1980, arqueólogos russos descobriram agulhas primitivas feitas de ossos e marfim há mais de trinta mil anos. Os especialistas apontam o final da Idade da Pedra como o momento em que a técnica de produção de fios foi dominada e o uso de vestuário se tornou corrente. Desde então, as roupas têm distinguido classes sociais, culturas, estilos, materiais, desenhos, processos de fabrico e tendências, com o acesso às peças a tornar-se progressivamente mais democrático a partir do Antigo Egito, quando o uso de vestuário era parco e reservado a um grupo restrito de gente rica, enquanto muitas crianças e escravos andavam despidos.

«A roupa fala por quem a veste, como se fosse uma imagem de marca. E nessa medida deve falar bem de quem a usa», explica Nuno Gama. De resto, a mesma lógica está na base dos códigos de vestuário das empresas, em que os funcionários carregam a imagem da entidade (e uma dada reputação que se lhe associa), tendo por isso que gerir as suas preferências pessoais em função da regra empresarial aplicada a todos. Se o que se pretende é formalidade, convém assegurar uma certa formatação para evitar que alguém apareça de jeans. Sem esquecer, no entanto, que da moda também faz parte a contradição dessa formalidade, como o casual day, em que os empregados aligeiram a postura, ou a ida a uma festa de ténis e fato.

Ana Couto, especialista em marketing de moda e docente na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, confirma que o que vestimos nos define tanto como a maneira de falar, as expressões, os gestos. «Quando vejo um daqueles programas em que mudam a imagem de uma pessoa, pergunto-me sempre se ela realmente ficou mais gira depois. Porque a forma como nos vestimos tem que ver connosco. E o que acontece sempre é que os intervenientes passam a vestir roupa melhor (o que faz toda a diferença, por uma questão de corte), mas depois ficam todos iguais». As diferenças fazem parte da personalidade de cada um, dos seus gostos e estilos de vida.

«É claro que quem olha vai fazer uma leitura: se eu vejo uma mulher de preto numa festa, por exemplo, posso pensar que ela é formal e não se quis comprometer, ou que tem falta de imaginação para conjugar cores, ou que leva o vestido de que mais gosta, ou que gosta simplesmente de preto», diz Ana Couto. A interpretação que uns fazem do que os outros usam depende da cultura em que se vive, da educação recebida, do ambiente em que se é criado, dos livros e filmes vistos ao longo da vida, da sensibilidade, e portanto sujeita a inúmeros significados. «Depois também há coisas que aproximam os seres humanos em relação ao vestuário, o que explica que haja peças que não passem de moda e tenham uma aceitação global», sublinha Ana Couto, referindo-se aos clássicos e básicos. «Nunca passam de moda e toda a gente os usa, ainda que combinados de um modo que tenha que ver com o gosto, o dinheiro e o estatuto de cada um.» A individualidade e o bom senso são os limites.

Joana Vasconcelos

40 anos, artista plástica

Brevemente esta será a primeira mulher e a mais jovem artista a expor no Palácio de Versalhes e, claro, a única artista portuguesa a alcançar esse feito. Joana está completamente rendida ao vestido que a estilista Ana Salazar desenhou para ela e com que viria a desfilar na ModaLisboa. O vestido, que está longe de ser escultural, segundo os cânones habituais, sempre lhe pareceu uma escultura. Joana é, aliás, desde muito nova, fã da estilista e foi um momento muito intenso desfilar para ela. «Nos anos 1980, Ana Salazar era um dos poucos exemplos de modernidade em Portugal e não era fácil termos acesso às suas peças. Apesar de ser amiga e admiradora do trabalho de outros criadores - mais próximos da minha geração - a Ana continua a ser para mim uma referência muito forte de contemporaneidade.» Adepta da portugalidade que tem ajudado a divulgar pelo mundo com as suas peças de inspiração tradicional - diz que Portugal é a sua marca favorita -, Joana assume-se como uma influenciadora de tendências: e segue esse mesmo critério em tudo o que concebe para o mundo e veste ela própria.

Rui Reininho

57 anos, músico

A Rui Reininho são conhecidos os seus gostos arrojados, a sua loucura divertida e um estilo sempre impecável, estilizado, quase à lá Bowie. Ele próprio, qual poeta, tem um nome para este seu estilo: «Anarco/AristoGato». Fã incondicional de sapatos e botas, Rui vê nestas últimas «a peça de vestuário mais humana que existe» e a única que o faz sentir-se de facto vestido. Estas são as suas preferidas - comprou-as na Sapataria Pessoa do Porto. «Pessoa, como o Poeta. Já não existe, como grande parte das boas lojas da Baixa do Porto.» Feitas à medida há mais de vinte anos, na altura achou-as caras, mas hoje já as consegue ver como um investimento para a vida. Custaram-lhe quarenta contos... com desconto. Fashion Victim assumido, Reininho consome assiduamente as marcas da sua preferência, de que destaca as portuguesas Don Colletto e Prassa - que usa em palco - e também os estilistas Manuel Alves, Nuno Gama, Miguel Vieira «e outros amigos». Para o dia a dia, as suas preferências recaem nas não menos portuguesas Fashion Clinic, My God e Por Vocação (onde gosta de comprar lenços), mas também nas internacionais Et Vous, Ray-Ban, Tom Ford, Nike, Supra e Calvin Klein. Mas que ninguém se espante se o encontrar a fazer shopping na Feira da Ladra, ou em lojas de roupa em segunda mão. Reininho aceita tudo em termos de indumentária, menos atuar em tronco nu. De resto, o céu é o limite e as mulheres uma inspiração. «Passei meio ano a ver a Catarina Furtado a despir e a vestir (salvo seja) e não me cansei. E gosto de ver a minha moça à volta das suas oitocentas botas. Parece uma centopeia!»

Miguel Frasquilho

46 anos, economista e deputado

O vice presidente do grupo parlamentar do PSD escolhe uma gravata como a sua peça de roupa favorita. Na verdade uma gravata não é exatamente roupa... mas, pensando bem, para um deputado, é. Camisas, levam-nas os dias, os casacos são todos pardos. É nas gravatas que estes homens de indumentária formal se podem distinguir. E é o que acontece com Miguel Frasquilho. O ex-secretário de Estado do Tesouro e das Finanças encontra nas gravatas de cores fortes uma maneira de ser diferente. De mostrar um pouco o seu bom humor. E de aliviar as agruras do tempo complexo que estamos viver, e que mais aflige quem disso sabe. Frasquilho gosta de todo o tipo de gravatas - lisas, às riscas ou temáticas (com animais, objetos, formas...) Esta amarela, a sua favorita, tem pequenos barcos à vela e uma história curiosa. «Vi pela primeira vez uma igual numa viagem que fiz a Taiwan, mas não a comprei. No regresso, mal entrei no avião, já estava arrependido!... Felizmente, daí a pouco tempo, noutra viagem, encontrei esta, igual à que tinha visto. E pronto, nem hesitei!» Indiferente a marcas no que toca à moda, Frasquilho prefere a qualidade. E a elegância. E o conforto. É pedir de mais? Se Frasquilho gostar muito de uma peça, como uns sapatos, pode ficar a usá-la anos e anos sem se cansar. «Esta gravata, por exemplo, já tem seis anos e creio que durará muito mais. Muitas vezes, o que pode ser considerado caro afinal pode sair barato e o que pode ser considerado barato pode não o vir a ser.» No fundo, tudo se resume, sempre, à economia.

Nuno Melo

52 anos, ator

São cinquenta peças de teatro, 37 filmes, nove novelas e 18 séries de televisão, fora mais uns quantos telefilmes... São muitos guarda-roupas para vestir, na pele de muitas personagens muito diferentes. E há aquelas que se colam à pele, como foi o caso de Caniço, de Chuva na Areia, uma das primeiras novelas portuguesas e a primeira de Nuno Melo. «Ao princípio eu considerava uma perseguição, mas hoje é com muito orgulho e carinho que ouço as pessoas falar dessa personagem que interpretei vai para mais de 28 anos.» A imagem dura de Caniço e de outras personagens interpretadas por Nuno fizeram que essa dureza se colasse à sua imagem. Nada mais longe da verdade. Nuno é ameno de cavaqueira, homem sincero e de sorriso fácil e, pasme-se, até gosta de roupa e de falar dela. Como o casaco que um dia - há já muitos anos - descobriu em Londres e que lhe custou «umas boas libras» e que é hoje a sua peça de roupa referida. Essa viagem foi feita por más razões, que o casaco infelizmente lhe faz recordar: viajou para Londres e passou o Natal sozinho porque «estava com uma valente depressão.» Tinham-lhe acabado de roubar o carro dos seus sonhos e por isso fugiu para Londres para ver se conseguia esquecer o assunto. «Esta teria sido uma viagem para esquecer, não fosse ter encontrado lá este casaco de fazenda castanho aos quadrados.» Com capuz incrustado, da marca Scoth & Soda, que apesar de já estar meio velhinho e apertado, Nuno não se cansa de usar.

Nuno Gama

46 anos, estilista

Nuno Gama é moda. De dentro para fora e de fora para dentro. É a sua vida e o seu destino. Ex-manequim profissional, aos 25 anos já se estreava na criação da sua marca. Vive e sempre viveu rodeado de roupa, roupa, roupa por todos os lados. Talvez por isso, Nuno escolheu como peças preferidas dois anéis que para ele se assumem como peças de vestuário. Sem elas, garante, sente-se despido. Um antigo, de prata, do avô, e a cruz céltica deram a Nuno Gama o mote para a criação destes anéis. O primeiro tinha um grande valor sentimental. O segundo, resume todo o seu esforço e empenho profissional. «Estes anéis são parte de mim ou do meu corpo. São dois, mas para mim são uma peça única.» Como estilista, Nuno não nega a atenção aos pormenores e diz que o seu carácter «revela-se nestas pequenas coisas». Para ele a moda é isso mesmo, «uma maneira de nos revelarmos e de dar força àquilo que somos, ou àquilo que gostaríamos de ser, pois todos nós somos muito mais próximos daquilo que imaginamos do que na realidade somos às vezes.» É essa dualidade entre o ser e o querer ser que a moda traz a descoberto. Fã também de sapatos, Nuno tem alguma dificuldade em encontrá-los, porque calça o 45/46. Fiel ao uso da sua marca, Nuno define o seu estilo como «em constante mutação». «Se as pessoas inteligentes mudam, evoluem, crescem, eu procuro acompanhar essa evolução.» A sua aposta é, agora, depois do mercado do Porto, apostar no de Lisboa, onde acaba de abrir uma loja junto ao Príncipe Real.

Guta Moura Guedes

46 anos, designer

Uma pessoa com o sentido estético e o estilo de Guta Moura Guedes surpreende ao escolher como peça favorita uma camisa branca. Ah, mas vá lá, não é uma simples camisa branca, é uma camisa branca transparente, às bolinhas. «É simples, de uma marca global, Sisley, mas tem a particularidade de ter um tecido especial e de ir ficando mais bonita conforme o tempo passa.» A peça, já com 18 anos, tem as bolas em relevo e um curioso ar vintage sem o ser. A cofundadora e presidente da ExperimentaDesign adora essa ambiguidade da sua camisa. «Tem várias leituras possíveis: a de que se pode comprar peças especiais a preços muito baixos, mas que duram muito e que, por terem qualquer coisa que as distingue, se tornam intemporais.» Assim também se explica a sua predileção por acessórios cheios de pormenores que pessoas atentas como Guta descodificam. O ideal para ela é misturá-los com um conjunto minimal ou quase neutro que dê aos acessórios o papel preponderante e quase conceptual do conjunto. E, no cômputo geral, a sua máxima de vida: tudo em prol do fim do «excesso de mimetismo e monotonia» que atribui aos portugueses, até na sua maneira de vestir. «Pouca gente se destaca.» Para Guta, a moda ocupa hoje o mesmo lugar que sempre ocupou na sua vida. A sua imagem e aquilo que veste fazem parte do seu vocabulário. São formas de expressão que utiliza desde sempre e que lhe dão imenso prazer explorar. «Interessa-me perceber como é que as pessoas se expressam através da roupa. Há sempre boas surpresas!"

Nélson e Sérgio Rosado

36 e 32 anos, cantores

Foram os Anjos que lançaram a moda de usar um Swatch em cada pulso. Não é por isso estranho que Nélson Rosado eleja o relógio como a sua peça favorita. É um luxuoso Perrelet - relógio suíço avaliado em 4500 euros. «Este relógio foi-me oferecido há sete meses e desde aí nunca mais o larguei.» E o que é que agrada a Nélson neste modelo: adapta-se à versatilidade do seu estilo, que tanto pode ser clássico, desportivo ou casual. As marcas estão sempre presentes em figuras públicas como os Anjos. Sérgio, irmão de Nelson, adora ténis e escolhe posar ao lado de uns Asics Tiger brancos com riscas cor de laranja, os seus preferidos. «Este modelo faz parte de uma linha exclusiva Anjos, de edição limitada. Tenho centenas de pares Asics, todos de cores e modelos diferentes. São a minha imagem de marca.» À parte esta, Sérgio não se assume fiel a nenhuma marca já que compra «pela peça e pelo design», mas não dispensa «o conforto aliado à moda». Nélson é fã confesso de camisas, sendo as italianas Di Prego as suas preferidas. Para ele, conjugar uma camisa estilizada, um blazer cintado e de bom corte, uns jeans e uns ténis, é o seu look preferido. Empenhados ambos na Anjos Academia de Música, recentemente inaugurada, e também no projeto desportivo/solidário da Meo Team e na gravação do novo disco da banda, os Anjos admitem: «Temos uma imagem a defender e esta é, sem dúvida alguma, um complemento importante para desempenhar a nossa profissão.»

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