A liga das bestas

De junho a agosto, em Montalegre, domingo é dia de ir às chegas. Centenas de barrosões passam a tarde à torreira do sol para ver os bois de cada aldeia lutarem pelo primeiro lugar no campeonato. A glória e o fracasso transmontano explicados num combate entre bovinos.

O termómetro não anda longe dos quarenta graus à sombra, mas estão trezentas pessoas a comprar bilhetes para o torneio - e cada um custa dez euros. Nos dias em que o recinto enche, cabem ali duas mil almas, e nem todas conseguem abrigar-se do sol. É uma arena de terra batida, ladeada por abetos densos. Aqui, cumpre-se todos os domingos um espetáculo que convoca muito mais público do que as partidas de futebol do Clube Desportivo e Cultural de Montalegre, que milita na divisão de honra da Associação de Futebol de Vila Real. Entre junho e agosto, há torneio de Chegas de Bois.

«Fazem-se chegas todo o ano, mas isto é a Liga dos Campeões», diz Nuno Duarte, presidente da associação Boi do Povo, que organiza o campeonato. Há duas competições, uma para o gado barrosão, outra para as demais raças. Os prémios vão de 750 a 2500 euros e um boi que some vitórias valoriza o preço no mercado, pode chegar aos trinta mil euros. O derrotado, pelo contrário, tem o matadouro como destino certo, e por mais possante que seja o animal, raramente a carne de uma cabeça ultrapassa os dois mil euros. «Às vezes os donos dos animais combinam que o prémio maior vai para o boi derrotado, já que o vencedor é que passa a valer dinheiro.»

Gancho veio nas traseiras de um camião desde a aldeia de Outeiro. Deve pesar uns bons 1300 quilos e, enquanto espera pela hora de entrar no chegódromo, vai urrando e chocalhando o atrelado. Assim que entra em campo, começa a levantar terra com os pés ou com os cornos e a atirá-la para cima do lombo. Dois minutos depois entra o Antigo, da aldeia de Antigo de Sarraquinhos. Os animais aproximam-se, observam-se obliquamente. Raspam o chão, resfolegam. E, de repente, o Antigo ataca.

O público vai incentivando as bestas - «dá-lhe bem», «ei-ah, ei-ah» - e os proprietários nunca se afastam demasiado. Gancho tenta desviar-se das cornadas do Antigo, mas já uma lhe rasgou a pálpebra. De vez em quando os animais ficam a olhar-se de frente, testa contra testa, cada um a puxar por toda a força que tem para não ceder à pressão. Um minuto, dois, três e o Antigo começa a empurrar o outro para o chão. Gancho cai, o adversário aproveita para lhe chifrar o peito. A multidão que assiste ao combate levanta cajados, aplaude. Gancho desiste e retira-se, submisso. Daí a pouco, junto a um bar improvisado onde se serve vinho, cerveja e água fresca, os homens haverão de concordar que, sim senhor, foi uma boa chega.

As chegas de bois de Montalegre são filmadas pela câmara de João Xavier, diretor da TV Barroso, e daí seguem para o mundo inteiro por internet. O repórter e comentador de serviço é Fernando Moura, que relata as chegas como se de um jogo de futebol se tratasse, cada cornada um hino à emoção. Pelo meio, mesmo de microfone em riste, atende telefonemas, conversa com o público. Moura tem estado doente, e por isso afastado do campeonato de 2013. Mas, como toda a gente confirma, ninguém entende tanto do assunto quanto ele.

Ter um boi campeão é uma glória. Quando Acácio Santos Lopes, 80 anos, era menino, as gentes da aldeia enfeitavam com flores os chifres do boi que tinha ganho o combate, levavam-no a passear vaidosamente por toda a povoação e ainda se fazia uma festa com toda a gente. O boi representava a garra da comunidade e, nesses tempos, não era raro os combates entre bovinos terminarem com zaragatas entre humanos. «Até mortes havia, por causa das rivalidades. Uma vez houve uma barafunda tão grande no chegódromo que até a polícia levou umas poucas.»

Acácio é dono do Couto, um barrosão de 7 anos que é tricampeão incontestado nas chegas. «Isto é o meu orgulho», diz. «Tento exercitá-lo todos os dias e alimentá-lo bem. Já me ofereceram um balúrdio pelo animal, mas não me desfaço dele.» Jaime Ribeiro, a quem os conterrâneos tratam por Mourinho das chegas, diz que «já se nasce com isto no sangue, não há como fugir». O homem tem olho para comprar bois campeões. «Pode ganhar-se bom dinheiro, porque um boi com currículo chega a receber 25 mil euros para fazer uma luta. Por mês, a despesa é de 250 euros, só em comida. E o risco é elevado, «um animal que perca um combate desvaloriza logo».

O Estudante também é um boi de monta, pesa 1140 quilos e nunca perdeu um combate. O dono, António Duarte, é mestre na arte de afiar as galhas. «Tem de se limar os cornos do animal do nascedouro para as pontas, senão estraga-se o corno e as veias. Primeiro usa-se uma grosa, depois parte-se uma garrafa e puxa-se-lhe a ponta com o vidro», explica. Os vizinhos pedem-lhe que afie os cornos aos seus bois, trabalho bem feito multiplica as hipóteses de sucesso. O Estudante, por exemplo, tem-nas tão aguçadas que precisa de usar proteções, não vá aleijar alguma vaca no pasto.

O verão do Barroso guarda um ritual de sangue para as tardes de domingo. «É a nossa tourada, mas é uma tradição mais antiga», diz Nuno Duarte, o organizador do torneio. A autarquia, que patrocina o concurso de raça barrosã, tem recebido algumas queixas de associações de defesa dos direitos dos animais. «Mas nós nunca tivemos reclamações. Os únicos protestos que ouvimos é se a chega for má. Ou os bois mansos.»

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