"A igualdade de género é a estratégia inteligente para o desenvolvimento"

Era uma vez um reino onde as mulheres eram muitas vezes primeiros-ministros. Tantas e por tão longos períodos, que um dia o menino perguntou à mãe: «Mãe, neste país é possível um homem ser primeiro-ministro?» Não se trata de uma história de encantar mas de uma conversa na Noruega e foi contada por Gry Larsen, secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros noruegueses, num seminário sobre igualdade de género promovido pela Embaixada no Chapitô, em Lisboa. Licenciada em história e política internacional, iniciou o seu percurso na juventude do Partido Trabalhista (AUF). Tem 37 anos e está grávida, o que não é notícia nesse reino.

Licenciou-se na Universidade de Oslo. Foi secretária do Partido Trabalhista aos 17 anos e líder da organização entre 2002 e 2006. Foi desde 2005 membro do comité internacional do Partido Trabalhista, ano em que foi assessora política do ministro dos Negócios Estrangeiros, Jonas Gahr Store, até 2009, quando assumiu a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros. É casada e tem um filho.

Como é ser mulher na Noruega?

_Em geral, é bom. Penso que muitas mulheres na Noruega diriam que vivem numa sociedade onde há igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, mas onde o equilíbrio entre ambos os sexos não é total. Temos algumas metas a alcançar, nomeadamente no que toca a salários iguais, à violência doméstica e ao assédio sexual, embora já tenhamos percorrido um longo caminho. A Noruega está no topo da igualdade de género a nível internacional.

Homens e mulheres não têm salários iguais na Noruega?

_Têm salários iguais quando estamos a comparar o mesmo tipo de trabalho e a mesma qualificação, mas na Noruega temos discriminação de género a nível do mercado laboral. Em geral, as mulheres são menos bem pagas do que os homens e temos discutido muito essa questão.

Como imagina que é a situação em Portugal?

_Penso que é um pouco diferente. Têm alguns indicadores bons quando comparados com outros países da Europa, em especial no que diz respeito à participação da mulher na vida ativa e ao nível da educação. E há outros domínios em que são precisas mudanças, como a questão salarial, as atitudes discriminatórias face à mulher, o assédio sexual, a conciliação da vida familiar e profissional.

O que é que o governo português pode aprender com o norueguês?

_A área onde tem mais a aprender diz respeito ao equilíbrio entre a vida profissional e familiar, isso é um problema em Portugal. Exerço as minhas funções enquanto secretária de Estado mas às cinco horas já saí do gabinete e tenho falado com portuguesas que não conseguem fazer isso, que me dizem que é muito difícil conciliar a carreira com a vida familiar.

Essa necessidade de sair cedo do trabalho é apresentada como sendo um problema do sexo feminino ou dos cidadãos em geral?

_Já se pensou nessa questão como sendo um problema que dizia respeito às mulheres, mas a situação está a mudar. O pai e a mãe têm ambos responsabilidades em relação às crianças. Não é a mãe que sai a correr do trabalho para ir buscar os filhos, mas isso também depende do tipo de trabalho que se tem. A minha experiência no Ministério [dos Negócios Estrangeiros] é que as pessoas saem às quatro da tarde. Têm de ir buscar as crianças ao jardim de infância ou à escola e quando chegam a casa têm a vida familiar, cuidar dos filhos, deitá-los. E depois de os deitar podem sentar-se em frente ao computador e voltar a trabalhar, mas em casa.

Nunca marca reuniões de trabalho depois das 16h00?

_Nunca tive reuniões depois das 16h00, nem quando era dirigente política. Não quero que as pessoas fiquem no Ministério depois dessa hora e tenho de dar o exemplo, nem que depois, em casa, se for necessário, tenha de voltar ao meu computador pessoal, o que acontece muitas vezes.

E isso tanto acontece com os homens como com as mulheres?

_Os homens também têm filhos, basta falar com o meu assessor, os pais têm os mesmos problemas. Homens e mulheres têm as mesmas dificuldades quando estão a trabalhar.

Há alguma cooperação entre os dois países tendo em vista a igualdade de género?

_Estamos a trabalhar em programas com outros países nórdicos no sentido de promover o equilíbrio entre ambos os sexos. Estamos a trabalhar nas relações bilaterais e há programas específicos que poderão ser alargados a Portugal no quadro da cooperação política e cultural.

Num seminário precisamente com os cinco países nórdicos, disse que a violência de género era um obstáculo à realização dos direitos humanos, também na Noruega?

_Sim. A violência doméstica é um problema. Se olharmos para os números, a maioria dos agressores são maridos, namorados, companheiros ou ex-maridos... Acredito que a violência doméstica é o maior problema quando se fala em igualdade de género, também na Noruega. Temos casas de abrigo para acolher essas mulheres, têm todo o apoio, mas o problema não deixa de existir.

O governo norueguês é constituído por quantos ministros e quantas ministras?

_Metade, metade: dez homens e dez mulheres.

Está grávida do segundo filho, como é que os cidadãos noruegueses reagem à gravidez de um governante?

_É tão normal isso acontecer que não é um problema ou tema de discussão. Tem havido muitos casos de governantes grávidas, incluindo ministras. E também tivemos ministros que foram pais e gozaram a licença parental.

Vai parar um ano após o nascimento da criança, que é o período da licença parental na Noruega?

_Vou tirar licença parental, o meu marido e eu ainda não decidimos como vamos dividir esse período. (A partir de 1 de julho, a licença parental passa a 49 semanas com cem por cento do salário pago ou 59 com oitenta por cento, sendo que 14 semanas têm de ser usadas obrigatoriamente por um dos pais).

É substituída durante a licença?

_Sim, as pessoas são substituídas durante o período de licença. Quando deixar de estar em casa com a criança volto à posição em que estava. Estas situações já estão previstas e é sempre feita uma substituição temporária.

A Noruega é um país rico. São ricos e, por isso, são mais igualitários. Ou são ricos porque são mais igualitários?

_Coloquemos a questão neste sentido: se quer que um país cresça tem de envolver toda a sociedade, não pode deixar uma parte da sociedade de fora. Se quer ter desenvolvimento económico, se quer ter uma economia forte tem de haver igualdade de género. A igualdade de género é a estratégia inteligente para o desenvolvimento de um país. Têm de contar com todos os homens e com todas as mulheres. Há quem pense que somos ricos porque temos petróleo. Não, somos ricos porque contamos com todos.

Isso não terá, também, que ver com a religião maioritária na Noruega, a protestante, e que será menos conservadora do que a católica?

_As pessoas costumam apresentar o argumento da religião como sendo um fator decisivo no desenvolvimento. Não o vejo assim. A cultura e as mentalidades são mais importantes, além de que são precisas medidas políticas. É um conjunto de circunstâncias, não há apenas um fator decisivo.

As quotas são um mal necessário?

_Temos quotas na vida pública, no parlamento, nos partidos, nas administrações das empresas públicas. Nem todos os países estão de acordo com esse tipo de medidas, mas entendo que as quotas são precisas nos países onde efetivamente os homens e as mulheres não são tratados de forma igual, onde as mulheres são discriminadas. Não entendo que seja um mal necessário, é uma forma de atingir a igualdade de género em determinadas áreas.

Cresceu nas juventudes partidárias e fez da atividade política profissão, exercendo vários cargos no Partido Trabalhista. Militar num partido é uma condição para se chegar ao governo na Noruega?

_Não. Temos ambas as situações no governo, pessoas que vêm da política e outras que vêm do mundo laboral. Uma coisa não tem que ver com a outra, depende do lugar onde se está em determinada altura e o que se pretende fazer. O mais importante não é pertencer a um partido, o mais importante é o que se faz, o que se pretende fazer e a responsabilidade que se pretende ter.

Vai continuar no mundo da política?

Até determinado sentido, espero fazer coisas fora da política. Tornei-me dirigente da juventude do Partido Trabalhista em 1993 [tinha 18 anos] e toda a minha vida profissional tem sido desenvolvida ao nível da política, mas não sei o que farei no futuro. Por um lado, penso fazer coisas fora da política, mas por outro estou muito envolvida politicamente.

Qual foi o seu pior dia na política?

_É difícil de dizer, porque pretendo contribuir para a mudança e penso que tenho feito coisas nesse sentido, entrei para a política porque tinha a possibilidade de fazer coisas. O pior dia é quando quero realmente alguma coisa e não consigo obter a maioria para a levar para a frente [ ri-se ], mas não acontece muitas vezes.

Pensei que fosse falar do atentado de há dois anos em Oslo, uma vez que ocorreu num encontro da juventude partidária que dirigiu.

_Efetivamente, estive no centro dessa organização em anos anteriores. O dia do atentado foi terrível, uma situação muito difícil de ultrapassar. Todos foram afetados e não apenas as pessoas ligadas ao Partido Trabalhista, toda a gente tinha alguém conhecido naquela ilha, todos se sentiram atacados. Mas isso também uniu os noruegueses em torno dos valores da democracia.

E o melhor dia?

_Tenho muitos dias bons. Um bom dia ocorreu em 2006, quando a Noruega dinamizou a convenção contra as minas antipessoais [ficou conhecido pelo processo de Oslo]. Outro dia bom foi quando fui ao Uganda, em 1998, no âmbito da organização Save the Children.

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