A fé que marca as eleições

Com a corrida às presidenciais já polarizada entre Obama e Romney, um olhar sobre uma questão que está sempre presente na política americana: a religião.

«Deus vos abençoe. E Deus abençoe os Estados Unidos da América.» É assim que os presidentes norte-americanos costumam terminar os seus discursos, sejam eles de pequena escala, na inauguração solene dos mandatos ou nos mediáticos «Estados da União». Para a generalidade, a América é um lugar abençoado pelo Criador e é preciso cumprir uma missão: conduzir esse excecionalismo ao patamar mais alto da divindade política. Os políticos americanos têm tanto de pugilistas como de pastores: não enjeitam uma boa luta, mas jamais renegam as vestes missionárias. Nos Estados Unidos, pode separar-se o Estado e a Igreja, mas é muito mais difícil expurgar a religião da política.

A fé balcanizou o GOP

A história dos EUA assenta no pilar da liberdade religiosa. Como notou Tocqueville no seminal A Democracia na América, as ideias de cristandade e liberdade não se compreendem uma sem a outra, embora tenha apontado, na sociedade americana, uma enorme virtude: saber separar uma qualquer profissão de fé do exercício do poder. De certa forma, os últimos trinta anos têm desvirtuado esta caraterística

Para além de George W. Bush, talvez nenhum outro político na última década tenha feito da narrativa religiosa e moral um compêndio eleitoral como o republicano Rick Santorum. Fervoroso evangélico, com um casamento imaculado e sete filhos, venceu 11 eleições primárias encaixando três milhões de votos. Na linha de partida republicana, Santorum estava condenado à irrelevância e a passar ao lado dos nomes mais sonantes das primárias. Cinco meses depois, fez tremer o superfavorito Mitt Romney, esvaziou por completo o experiente e concorrente Newt Gingrich e viu desistir sem mácula Rick Perry, Herman Cain, Tim Pawlenty e Michele Bachman. Santorum atirou entretanto a toalha ao chão, mas mostrou como está clara a divisão entre o voto social-conservador e o conservadorismo moderado. No primeiro, a agenda é consumida por matérias de costumes e fé. No segundo, impera o pragmatismo da realidade americana: economia e desemprego.

Os sociais-conservadores desprezam a moderação de Romney, acusado de ser um liberal disfarçado de republicano. Para a América conservadora, liberal e Obama são sinónimos de demónio. Nos EUA, um liberal está para um conservador como na Europa uma comunista está para um democrata-cristão. Santorum foi por isto um anjo na campanha republicana. Alguém que subitamente fez crer ao eleitorado evangélico que havia maneira de derrotar Obama sem ter de recorrer a Romney. Este, com uma inabilidade muito própria, conseguiu até agora fazer o pleno, não ganhando uma única primária em que pelo menos metade dos eleitores se assumissem como evangélicos. Parte do seu sucesso vai residir nas pontes que construirá com essa base evitando que um estilhaçado Partido Republicano seja o seu maior adversário em novembro.

É evidente que este eleitorado não apareceu do nada nem é o único a ter peso na balança entre religião e política. O voto católico, judeu e muçulmano conta. O que é interessante perceber é o peso que tem o eleitor que assumidamente não valoriza uma determinada fé ou professa uma certa religião. Numa sondagem levada a cabo no ano passado pelo Public Religion Research Institute, 67 por cento dos inquiridos disseram sentir-se desconfortáveis com um ateu na Casa Branca. Tudo é mais evidente quando 80 por cento dos republicanos o confirmam, 70 por cento dos democratas o assumem e 56 por cento de independentes não o escondem. O temor do ateísmo ultrapassa mesmo o número dos que dizem estar desconfortáveis com um muçulmano na presidência (64%), um mórmon, como Romney (42%), ou um evangélico (28%). No caso deste último grupo, o seu peso é extremamente importante à direita: nas últimas três presidenciais, entre 68 e 78 por cento votaram no candidato republicano. Estima-se que 25 a 30 por cento da população americana seja evangélica. Os EUA são muito mais do que a liberal Nova Iorque.

Profissão de fé

Parece que se tornou imperativo aos atores políticos assumirem um credo se quiserem ter ambição política. O próprio Obama, visto na generalidade como um moderado em matéria religiosa e alguém que não fez deste discurso uma alavanca política, tem promovido variadas iniciativas que invertem essa perceção. No início de fevereiro, discursou para três mil pessoas no Washington Hilton, afirmando que o seu programa fiscal sobre os mais ricos era inspirado na Bíblia e na sua fé cristã. Foi até mais longe: afirmou que as suas opções políticas espelhavam a crença islâmica quando incita os afortunados a ajudarem quem mais sofre, ou a doutrina judaica sobre moderação e consideração pelos outros. A homilia tinha o singelo nome de National Prayer Breakfast.

Num livro fundamental para percebermos a narrativa religiosa no discurso político norte-americano do último século, David Domke e Kevin Coe (The God Strategy: How Religion Became a Political Weapon in America) concluíram que entre Franklin Roosevelt e Jimmy Carter (1933-1981) o discurso presidencial fazia referência a Deus de uma forma, digamos, peticionária, como auxílio às exigências políticas que as administrações enfrentavam. Tudo muda com Reagan. Com uma plataforma eleitoral capaz de estabelecer pontes entre católicos e evangélicos, redimensionou o discurso político para um patamar profético. A partir daí, com uma ou outra nuance, a «vontade de Deus» na política passou a estar muito mais presente. A investigação de Domke e Coe concluiu que, entre 1933 e 2004, termos como «missão» ou «cruzada» foram bastante mais usados nos discursos de tomada de posse dos presidentes a partir de 1981 (77%), naquilo que os autores chamaram de «estratégia de Deus». A identidade religiosa na práxis política ficou também espelhada no número de visitas oficiais que os presidentes norte-americanos fizeram ao Vaticano a partir de então. Até Reagan, só Nixon e Carter tinham estado com o papa em Roma. A partir de Reagan, os presidentes norte-americanos deslocaram-se 17 vezes ao Vaticano.

Radicalismo e excecionalismo

Mas estarão os políticos, nas últimas décadas, a seguir uma maior religiosidade dos eleitores para fins eleitorais, tornando-se eles próprios mais sintonizados com um discurso político litúrgico, ou existe mesmo um caráter genuíno na opção por essa narrativa? É provável que ambas as questões se aproximem da verdade.

A desconfiança com o governo federal e a classe política em Washington levou a que muito do discurso político se extremasse. O Tea Party, longe de ser um movimento homogéneo, trouxe para o mainstream muitas das preocupações latentes nas comunidades locais que não se reveem na política feita nos corredores do Congresso ou nas opções da Administração Obama: a primeira é vista como hermética, as segundas como catastróficas para a classe média, o emprego e a economia real. Este sentimento de frustração e desconfiança com Washington, aliado ao que consideram ser uma imoralidade do sistema político e económico (espelhado na crise de 2008), leva a que o discurso radical se cruze com a profissão de fé. O dogma moral passa a liderar a agenda política e com ele emerge a força eleitoral dos votantes cuja maior preocupação é a identificação religiosa com o candidato. Esta dimensão teve já um peso significativo nas intercalares de novembro de 2010 e voltará à carga em novembro de 2012, mesmo que o Tea Party não tenha hoje a mesma dinâmica de palco.

Se há genuinidade religiosa numa imensa fatia de políticos norte-americanos isso deve-se à própria natureza política dos EUA e ao papel que lhe está destinado no último meio século. A fundação constitucional norte-americana é, para além de politicamente iluminada pelos pais fundadores, por estes interpretada como ilustração divina dos fundamentos da boa governação entre os homens. É na virtude dos limites do poder inscritos na Constituição que reside o fundamento bíblico do excecionalismo americano sentido pelos seus políticos. Claro que há outros países que sentem um excecionalismo político e que ainda hoje marca a sua conduta (França, Reino Unido, China, Rússia). A diferença é que a evolução histórica norte-americana acabou por elevar essa natureza a uma missão terrena internacionalista a partir do momento em que um mal maior foi derrotado em 1945 e outro foi anulado em 1989. A unipolaridade exacerbou a missão dos EUA no mundo. Clinton e Bush convergem largamente nesta interpretação salvífica dos povos oprimidos pelas ditaduras: a América é indispensável ao mundo e este precisa da América para prosperar e viver em paz. Deste ponto de vista, as teses politicamente ativas do intervencionismo humanitário dos anos 1990 e do neoconservadorismo da última década formam um fio condutor lógico e coerente. Não é possível compreender muitas das opções geopolíticas de Bush sem olhar para os anos do triunfalismo liberal (na economia, na guerra, na diplomacia) de Clinton.

O que Obama tem feito é assumir um papel ligeiramente distinto nesta matéria: o de «retirada imperial», como lhe chamou Niall Fergusson. Para esta Administração, a América tem uma missão benévola no mundo, mas o seu poder também tem limites. Pegando na tipologia trabalhada por Walter Russell Mead em Special Providence, a política externa de Obama é bem mais herdeira da tradição hamiltoniana do que da wilsoniana: procura mais um equilíbrio entre governação e economia como fator de estabilidade interna e de ação credível no exterior - focado essencialmente na integração do país na economia global - e menos um missionarismo externo motivado por uma obrigação moral em expandir os valores e preceitos da democracia americana.

A espargata militar de Bush - mesmo tendo o 11 de setembro como justificação - não traz benefícios à missão americana no mundo se não for acompanhada de um sentido diplomático apurado e de uma América economicamente forte. Por isso Clinton é visto como um bom presidente, mesmo contando o número de guerras em que se envolveu, e Bush como uma mancha negra na Casa Branca. Entre os dois balanços, fica provado que a política da fé tem muito menos sucesso do que a fé na boa política. Seria bom que assim continuasse.

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