Encantadores de cães

Se tem um cão em casa, é provável que já tenha visto este rosto. O programa televisivo de Cesar Millan mostrou que até os animais problemáticos têm solução. Por cá também temos alguns socializadores de cães, e há cada vez mais donos a recorrer aos seus serviços.

Rosnam aos donos, marcam território em casa, comem a mobília e atemorizam os vizinhos. No entanto, nenhum cão difícil é um caso perdido. A esperança é dada pelos socializadores portugueses - menos mediáticos, mas tão eficientes como o encantador de cães Cesar Millan, estrela nos EUA -, revelando que a confiança é o idioma universal entre as espécies. «Energia é aquilo de que um dono precisa de projetar para mostrar ao seu cão que é ele o líder da matilha, calmo e assertivo», explica Cesar Millan, fundador do Centro de Psicologia Canina em Los Angeles e apresentador da série televisiva da National Geographic Dog Whisperer - O Encantador de Cães (SIC e SIC Mulher). «E assertivo não quer dizer zangado nem agressivo: significa ser compassivo, estando tranquilamente no controlo.» O consultor de problemas comportamentais caninos considera que todos os animais nascem fluentes nessa linguagem universal da energia. Incluindo os humanos, que tendem a esquecê-la por serem educados a usar apenas as palavras como meio de comunicação. «A ironia é que, apesar de pensar que já não sabemos essa língua, a falamos todos os dias», diz Cesar em vários programas, garantindo que os cães nos leem mesmo quando desconhecemos estar a comunicar. Um exemplo: o dono chega a casa e vê o animal aos saltos. Segundo o apresentador, que defende a tese de uma hierarquia estabelecida com as pessoas, o cão saúda o companheiro no seu regresso à matilha, da qual se julga o guardião, do mesmo modo que os lobos procedem a um ritual de cumprimento ao macho alfa em cada reencontro. Se o dono o afagar de imediato, estará a reconhecer-lhe a liderança da matilha. «Eu reabilito cães e treino pessoas», resume o encantador, que acredita serem os donos os responsáveis pela maior parte dos comportamentos inadequados dos seus animais.

Miguel de Sousa, 41 anos, concorda com a estrela de TV. O responsável pelo Centro de Instrução Canina da Margem Sul confirma a necessidade de uma aprendizagem conjunta quando se chega ao ponto de procurar a ajuda de um socializador. «Os animais são sempre um reflexo dos donos, por vezes até nas parecenças físicas e na forma de andar, a não ser que tenham sido adotados já com alguns problemas comportamentais», sustenta. Miguel lida com casos problemáticos desde que começou a treinar cães militares na Polícia Aérea, aos 17 anos. «Nem todas as pessoas são naturalmente líderes e nem todos os cães gostam de ser submissos. Existe esta relação de matilha com os humanos. O modelo social em que os cães julgam viver é a comunidade de lobos. Mas se houver ausência de referências na liderança, o cão assume essa posição, muitas vezes com consequências complicadas.»

Aos poucos, com aquela base sólida da Força Aérea e umas quantas experiências feitas por sua iniciativa - como ter tirado o primeiro nível de reiki para acalmar cães nervosos -, Miguel começou a deslocar-se a casa dos clientes, além de abrir a sua própria escola na Verdizela, Seixal, há dois anos, para treino, terapia e reabilitação canina, usando o sistema de reforço positivo.

Foi aí que a família Vieira o encontrou. Estavam quase a enlouquecer com a exuberância da sua cachorra negra arraçada de pastora-alemã. Kali era hábil a fugir à hora de os donos saírem para o trabalho e a fintá-los nas estradas de Vale Figueira, Corroios, sempre que corriam atrás dela. «Uma vez esteve fora um dia inteiro, amuada por o meu marido a ter repreendido. Ia aparecendo perto de casa, mas não se deixava apanhar», diz Maria José Vieira, bancária sem tempo para perseguições matinais, rindo a contragosto do final desse episódio: algures no bairro de vivendas, alguém assou um porco ao início da noite e Kali aproximou-se ao cheiro das febras, quando um vizinho a agarrou pela coleira. «Ela é meiga, esperta e brincalhona, mas também grande e muito bruta.» À tarde, as fugas repetiam-se. Diana Vieira e Miguel Mousinho, a filha do casal e o namorado, levavam Kali a passear, e eram eles que desesperavam. «A Kali costumava ir a correr contra os portões das casas onde houvesse cães, curiosa, e as pessoas tinham medo quando ela lhes punha as patas nos ombros. Nós zangávamo-nos, mas não servia de nada», diz Diana.

Depois de dois anos de diabruras, Diana convenceu os pais a levarem Kali ao Centro de Instrução de Miguel de Sousa, que lhe avaliou a personalidade. Era «estouvada, simpática, rápida a aprender» e 15 aulas bastariam para ensiná-la a comportar-se em sociedade. «É uma cadela que precisa de atenção e começa agora a refrear-se com regras que não eram habituais», diz o socializador, suave no falar e na postura. Miguel partilha com Cesar Millan apenas a ideia da família como matilha e o uso da estranguladora e da coleira de picos em casos extremos, «quando o cão é violento com outros e precisa de um puxão leve para ser controlado». No dia a dia, porém, condiciona os animais com comida, elogios e festas. Cães que entrem na escola, por mais que mordam na rua, correm a saudá-lo como amigos. Com a Kali, a diferença foi notória ao fim de seis aulas.

«Já não se atira aos cães que estão noutras casas, não anda à nossa frente a puxar a trela, só salta se a chamarem para brincar», diz Diana. O namorado concorda, orgulhoso dos progressos da cadela a que se dedica como se fosse sua, desde que Diana a recebeu de presente há dois anos. «A Kali respondeu bem aos treinos de obediência e comportamento, apesar de continuar vivaça como sempre», diz Miguel. «Recompensamo-la quando faz os obstáculos ao nosso lado, a ligação com ela está mais forte.» Miguel de Sousa afiança que ter regras é fundamental para donos e cães usufruírem da presença uns dos outros. «Há pessoas que no emprego são líderes, anda tudo na linha com elas, mas depois submetem-se ao cão. Custa-lhes perceber que liderar não significa deixar de gostar, simplesmente têm de guardar os afetos para os momentos em que o animal se porta bem. Ceder com os cães é um risco muito grande», aponta.

Não são novos os treinos que desenvolvem a cumplicidade entre donos e cães e que os habilitam, enquanto dupla, a competir em provas de mondioring (exercícios de flexibilidade, defesa e saltos que mostram as aptidões do cão, o seu património genético e o domínio do condutor), de RCI (Regulamento de Concurso Internacional, composto por exercícios de obediência, defesa e pistagem) e de agility (desporto canino criado para diversão do público nos intervalos das exposições caninas do Reino Unido, em que o cão cumpre um percurso de obstáculos em tempo recorde). Bastante mais recente, todavia, é esta consciência de que treinar um cão é uma necessidade, não um luxo, e que compete aos donos tornarem os seus cães socialmente responsáveis.

Com Concha, uma serra-da-estrela de 5 meses que ladra de noite e escava o jardim, Alexandra Melo e Castro sentiu que precisava de agir antes que a cadela crescesse e ficasse potencialmente indomável. «Já tive boxers, pastores-alemães, dobermanns, rottweilers, perdigueiros às dúzias (o meu pai é caçador), outros serras-da-estrela, um yorkshire terrier, mas a Conchita é o maior cão que alguma vez tive dentro de casa», diz Alexandra. «Terá a força de três homens em adulta, tem de estar bem treinada para não dar asneira», justifica, enquanto guarda as salsichas cortadas e o clicker com que ensina a cadela a andar junto a si, a vir quando a chama, a sentar, a deitar, a ficar. Cada ordem cumprida é sinalizada com o som do clicker, o pequeno objeto que emite um som caraterístico, e Concha é automaticamente recompensada.

«Confesso que a estrago um bocado com mimos. Ela é tão amorosa que não resisto. Vale-me ter alguém por perto que lhe mostra que nem nós somos matilha nem eles pessoas.» É aí que entra a treinadora Alexandra Santos, que ensina ambas a passear numa rua sem carros da Cruz Quebrada, em Oeiras. «É a primeira vez que faço isto com ajuda e digo-lhe uma coisa: ter alguém em quem se confia assim é um investimento muito positivo.»

Com 51 anos, Alexandra Santos não sabe ao certo quando chegou à conclusão de que podia treinar cães como se treina golfinhos, mas o facto é que acertou em cheio na profissão. E no método. «Comecei com 19 anos, em part time, quando levei o boxer que tinha na altura a uma escola. Passados uns meses, o treinador convidou-me para ser sua assistente.» A consultora de comportamento canino trabalha nesta área a tempo inteiro desde 2005. Aos 6 anos, os pais ofereceram-lhe o primeiro boxer, que preferia de longe às brincadeiras com os amigos. Mais tarde partiram para a África do Sul, ela cresceu, teve o segundo boxer e estreou-se a ensinar. «Apercebi-me de que não estava muito satisfeita com aquela metodologia, com as estranguladoras e os puxões de trela.» Questionava se as coisas não poderiam ser feitas de outra forma.

Regressou a Portugal com 27 anos e continuou o trabalho. Lia compulsivamente o que encontrava sobre o tema, ao mesmo tempo que procurava em fóruns internacionais cursos que a habilitassem a treinar cães. «Acabei credenciada pelo Animal Care College, no Reino Unido, e pelo Companion Animal Sciences Institute no Canadá, além de ser endossada pela Association of Animal Behavior Professionals.» Mais importante, encontrou o seu método de treino positivo, rejeitando a aplicação de castigos e meios causadores de medo, dor ou desconforto no animal. Hoje tem 27 domicílios como clientes nas zonas de Lisboa, Odivelas, Sintra e Cascais.

«Se é na rua que o cão salta para as pessoas, as aulas são na rua. Se é em casa que não deixa ninguém aproximar-se enquanto come, então é em casa que o treinamos.» A socializadora aponta como mais frequentes os problemas de agressividade com pessoas, com outros cães, a ansiedade por separação do dono, os medos e fobias, os animais que puxam ao andar à trela, que mordiscam, saltam e pedincham à mesa, que destroem objetos e fazem as necessidades no sítio errado. E se se trata de problemas agressivos, encaminha-os primeiro para o veterinário comportamentalista Gonçalo Pereira, que faz uma avaliação clínica do animal e assegura que ninguém tenha de passar pela situação que mais a marcou na vida: um cão que atacava sem avisar, e ao qual foi mais tarde diagnosticado um tumor incurável no cérebro. O animal teve de ser eutanasiado.

«Muitas vezes as pessoas partem do princípio de que a agressividade é comportamental, ligada à dominância, e esse é um paradigma que eu rejeito», informa Alexandra Santos, refutando igualmente a tese - por não ter base científica - de que os cães estabelecem hierarquia com os humanos. «Uma matilha forma-se entre membros da mesma espécie, não entre crocodilos e leões. Um cão sabe perfeitamente que eu não sou cão, não comunico como um cão, não cheiro a cão, não me comporto como um cão, não como comida de cão.» Para ela, o mito de o dono ter de ser o líder da matilha resulta em muitos castigos mal dados e num agravar da agressividade do animal, caso exista.

«O cão sobe para o sofá e tem comportamentos agressivos porque não quer que mais ninguém se sente ali, por exemplo: não existe aquela coisa de ele pensar que está a desafiar a autoridade do dono. Ele acha, sim, que o sofá é dele; e tem de aprender que não é dele, é meu.» Se o cão for pequeno, o dono facilmente o põe no chão. Se for grande e estiver a mostrar os dentes, ninguém deve tirá-lo à força e o cão aprende que rosnar funciona. «Não digo que temos de deixar em paz um cão de grande porte com tendências agressivas, pelo contrário: tem mesmo de ser educado. Mas a bem, porque agressividade gera agressividade.» A solução passará por dar a entender ao animal que ir para o chão é mais interessante do que ficar no sofá, e recompensar o cão quando desce. «A metodologia da força - e aqui não critico o Cesar Millan como pessoa, só o método que usa - não se justifica», defende a treinadora, alertando para o facto de o programa O Encantador de Cães poder induzir em erro: «Aquilo é editado. Independentemente da metodologia, nenhum cão fica treinado em dez minutos. As pessoas deixam-se deslumbrar e julgam que com dois esticões brutais na trela ele resolveu o problema, mas depois não têm conhecimento dos casos de donos que tentaram fazer o mesmo em casa e levaram uma dentada.»

Rui Castro também rejeita a teoria das dominâncias e o uso de técnicas aversivas como coleiras elétricas, estranguladoras e de picos. «Podemos sufocar o cão para ele deixar de ladrar, ensinando-o a silenciar-se sem resolver o problema. Ou podemos dar-lhe algumas escolhas e cativá-lo para que opte pela correta.» O treinador e responsável da escola COMtakto, a funcionar no Centro de Instrução Canina do Norte, em Matosinhos, tem 41 anos, é especializado em agricultura biológica e divide o gosto pela terra com o gosto pelos cães, que começou a treinar há oito anos depois de ele próprio sentir a necessidade de educar Rasa, um cão turbulento que tirou das ruas de Ponte de Lima e levou para casa. «Comecei com o método tradicional antes de descobrir que havia alternativas. Estive nos dois mundos e sei qual é o melhor.»

A melhor forma de exercer autoridade sobre o animal, revela, é recompensando-o apenas quando faz o que queremos. «É parar todas as vezes que ele puxa e avançar só quando se acalma. É esperar que sossegue antes de abrir a porta da rua. É ser justo e consistente no dia a dia, fazendo valer a minha vontade com recompensas e não com castigos. Nós é que determinamos quando o cão vai à rua; quando come, o quê e quanto; que divisões da casa se abrem para ele. Há um mundo de recompensas para ensiná-lo», sublinha, com uma calma de samurai, o treinador, que sabe o nome dos cerca de quarenta clientes que o procuram, cães e donos.

Fernando Marques é dos poucos clientes que o treinador elogia pelo rigor. Militar, aplicado, arranjou um cão-de-fila-de-são-miguel quando passou uma temporada nos Açores e percebeu que tinha medo dos cães que via nos pastos. «Conan revelou-se um companheiro difícil, enérgico, que fica cego e surdo com outros cães. É preciso ter muita força para controlá-lo», lamenta o dono, afagando a cabeça do animal. Logo que regressou ao Porto inscreveu-o na COMtakto - aulas de meia hora três vezes por semana, há dez meses - e as diferenças surgiram. «Ainda não consigo evitar que ele reaja a outros cães fora deste grupo, mas antes manifestava-se a trinta metros de distância e agora só se enerva se o outro se aproxima demasiado.» Rui Castro aplaude: «O treino positivo é uma forma eficaz de ensinar, mas apenas funciona seguindo as regras.» Constatar a mudança, no final do processo, compensa o esforço.

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