De Ana Moura a Woody Allen

Quando se põe Ana Moura na capa de uma revista não se põe apenas Ana Moura na capa de uma revista. Sim, não é apenas o dedicar da parte mais nobre de uma publicação a uma rapariga, por sinal bonita, que canta. Porque a rapariga em questão canta fado. E o fado é, para nós portugueses, muito mais do que uma canção. Nele está vertida parte da nossa identidade nacional. E porque esta fadista em particular já cantou com Prince e com os Rolling Stones e é considerada uma estrela da world music, que é o caldeirão onde os críticos do mundo colocam o nosso fado. Em suma: quando se põe Ana Moura na capa de uma revista como a Notícias Magazine isso dá sempre assunto de crónica.

Antes da crise que nos assolou nos últimos tempos - e que esta semana teve mais uma convulsão - o fado estava numa curva ascendente imparável. E não era apenas porque nós, cá dentro, o tínhamos redescoberto, com uma geração de jovens cantores de que faz parte Ana Moura. Era também porque a nossa música nacional - se tivéssemos de escolher uma seria esta, não, ó céticos que já estão aí com um esgar de dúvida? - era, como eu dizia, porque a nossa música nacional se tinha transformado num bem transacionável. Desses que andamos a tentar vender ao estrangeiro para nos equilibrar a balança de pagamentos, aumentando as exportações em detrimento das importações.

Nesse movimento, Ana Moura é uma das nossas principais embaixadoras. Uma das mais modernas, diga-se e explique-se: daquelas que professam aquilo a que se convencionou chamar agora diplomacia económica. Quando canta no mesmo palco de Prince, Ana Moura está a fazer muito pela imagem de Portugal lá fora. E, eventualmente, até cá dentro. Foi isso que os Estados Unidos, mesmo que involuntariamente, ensinaram ao mundo: se o caminho mais curto até à cabeça de um povo é através do seu coração, então conquiste-se esse coração com músicas, filmes, enfim, cultura. Aquilo com que habitualmente se conquistam corações.

É por isso que venho aqui fazer um apelo: povo do meu país, vamos fazer uma vaquinha para trazer o Woody Allen a Portugal? Já viram o seu último filme, aquele que Roma pagou para ser a personagem principal - e a única, diga-se, com alguma consistência, no meio de uma história trôpega? Pois vamos fazer o mesmo no Porto ou em Lisboa. Só falta o orçamento. O resto já o realizador americano tem, como disse numa entrevista recente. Até a história - que, sabe-se, pouco importa nos seus filmes: será à volta de espiões e romance. O homem já se ofereceu: «Vou se me pagarem», disse. De que estamos então à espera? Paguemos-lhe. Num país normal, ou, antes, num país que não estivesse completamente deprimido e autocentrado com a crise, este teria sido um repto lançado há muito, e por gente com muito mais poder do que esta simples escriba.

Por estes dias, Portugal já anda nas bocas do mundo. Pelas más razões, com meninas bonitas agarradas a polícias em manifestações que, de tão estranhas que parecem ao mundo, acabam por ser difundidas pelas agências internacionais de fotografia; ou em editoriais como o do Financial Times que desancam a nossa falta de energia para dar a volta à crise. Mas também pelas boas, como na edição do último fim de semana da Folha de São Paulo, onde uma grande reportagem mostrava a «Lisboa que se reinventa como novo polo artístico», ou no número de outubro da cosmopolita Monocle, cuja capa e a fatia de leão dos artigos eram dedicados à «Geração Lusofonia» de que fazemos, muito orgulhosamente, parte. Woody Allen a filmar à beira-Tejo ou à beira-Douro faria mais por nós do que centenas de campanhas publicitárias do AICEP.

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