Como a família Luís conquistou Obama

Em setembro, Cidália e Natália Luís foram à Casa Branca. Semanas depois, o Presidente dos Estados Unidos disse que a história desta família portuguesa que tem uma empresa de construção nos EUA representa o sonho americano.

Havia três dias que o governo federal norte-americano não funcionava. Foi no chamado shutdown. Dezenas de programas de investigação suspensos, centenas de parques e instituições de portas fechadas, quase 800 mil funcionários federais sem receber ordenado. O país ficou paralisado. Foi nessa altura que uma limusine negra entrou no portão da fábrica de asfalto da M. Luís Construction, em Rockville, no estado do Maryland.

No interior do edifício, Cidália Luís-Akbar, de 45 anos, e Natália Luís, 41, aguardavam. O Presidente dos Estados Unidos entrou e cumprimentou as irmãs. Falou com Sofia, a filha de 3 anos de Cidália: "Olá, querida". Perguntou a António e Gabriel, os filhos de 6 e 9 anos de Natália, como ia a escola. E, por fim, garantiu a Manuel e Albertina, os pais das irmãs, que a sua história é um exemplo. "É um prazer ter famílias como a vossa neste país", disse Barack Obama. "Devem estar muito orgulhosos do que conquistaram."

Obama abandonou depois o edifício através da sala de comandos. Subiu uma rampa de cimento e colocou-se atrás do púlpito que a sua equipa montou no exato local onde horas antes existia uma montanha de brita - e, horas depois, voltaria a existir. À sua frente, cerca de 250 funcionários da empresa envergando camisas da companhia. Uma única equipa de reportagem da Casa Branca preparava-se para filmar o discurso que seria depois transmitido em todo o mundo.

O Presidente contou o percurso da família. Para Obama, "a história é sobre o que a América representa." É a materialização do sonho americano, garante. "Começas. Se calhar não tens muito, mas estás disponível para trabalhar arduamente e para esperar. As oportunidades existem e és capaz de dar uma vida melhor à tua família, aos teus filhos, aos teus netos."

De França aos EUA

Manuel e Albertina emigraram para a França nos anos 60. Viveram em Saint-Cyr, nos arredores de Paris, onde nasceram as duas filhas, mas assim que ouviram as noticias da revolução decidiram regressar ao país.

Cidália diz que o pai "vive muito Portugal, tem sempre o desejo de regresso a pátria" e, em 1975, não quis desperdiçar a oportunidade. Em Matos da Ranha, no Pombal, as irmãs foram para a escola, Albertina montou um negócio com galinhas e Manuel voltou à construção. "Mas o pai percebeu rapidamente que as coisas não iriam mudar tanto como ele esperava. Em Portugal, continuava a não conseguir dar-nos a vida com que sonhava."

Manuel tinha familiares a viver nos Estados Unidos e começou de imediato a resolver as questões legais da mudança. Quatro anos depois, a família abandonou Portugal e instalou-se no Maryland.

Chegaram a 17 de marco de 1979, sem falar uma palavra de inglês. Cidália, que na altura tinha 11 anos, lembra-se de descobrir os lápis com borracha na ponta e de achar que eram uma "ideia mágica".

"Estava habituada aos lápis de carpinteiro, que borravam tudo, e de repente tinha aqueles lápis tão finos... e com uma borracha! Achei maravilhoso", diz.

Outras coisas magoaram-na, como quando os colegas lhe chamavam apenas "Luís", porque não conseguiam pronunciar o seu nome.

Para a irmã mais nova, que tinha seis anos, o mais difícil foi a língua. "Não percebia porque as outras crianças não me entendiam", diz. "Falava e elas não me entendiam."

Manuel começou a trabalhar numa empresa de construção de infraestruturas, que fazia estradas, passeios e canalizações. Albertina fazia limpezas e, à noite, tinha aulas de inglês e contabilidade. Seis meses depois de chegar, o casal comprou a casa onde viveria mais de 20 anos.

"Nunca percebemos que vivíamos de forma muito humilde, só quando fomos para a faculdade", explica Natália. "Os nossos pais nunca nos deixaram perceber que talvez vivêssemos de maneira diferente das outras famílias."

O sonho da educação

Manuel nunca foi à escola, mas um dia contaram-lhe de um lugar onde se formam os grandes homens e mulheres, onde estudam aqueles que mudam o mundo, e essa descrição foi o combustível que lhe alimentou os sonhos. O português imaginou este local sagrado, onde se concentra todo o conhecimento do universo, onde o mundo avança, e desde logo decidiu que seria o destino das suas duas filhas. Universidade, saída da boca de Manuel, a palavra parecia mágica.

"O único sonho do meu pai foi sempre que fossemos para a universidade", explica Cidália. "O que é extraordinário para alguém que nunca entrou numa escola. Ele começou a trabalhar aos 7 anos. Só aprendeu a ler e a escrever depois dos 20 anos, quando a minha mãe, que fez a escola primária, lhe ensinou."

Quando regressavam a Portugal nas férias de Verão, a família visitava uma livraria em Coimbra, onde Manuel comprava todos os livros que as filhas pediam, lembra Cidália. "Nunca percebi que, se calhar, ele estava a gastar o salário de um mês inteiro para me comprar aqueles livros."

A luso-americana diz que o pai nunca quis que as filhas fossem médicas, advogadas ou arquitetas. Apenas pediu que estudassem. "Foi sempre muito homem, no sentido de que, apesar de não ter ido à escola, como a mulher tinha ido, e como as filhas estavam a ir, nunca se sentiu ameaçado e sempre deu poder às mulheres da casa. Dizia-nos sempre: "Não interessa se serão ricas, aprendam o máximo que puderem. E nunca dependam do dinheiro de um homem, dependam apenas do seu amor." Ele é extraordinário. É um homem à frente do seu tempo."

Natália diz que "o salto gigante" que o pai conseguiu na sua vida, "no tempo e no espaço, da pobreza para a prosperidade", é algo que ela e a irmã nunca vão igualar. "Por mais coisas que alcancemos, proporcionalmente, nunca será comparado ao que ele e a minha mãe conseguiram. A única coisa que podemos fazer é dar aos nossos filhos a melhor educação possível e, assim, homenagear o sonho que eles tiveram."

Seis anos depois de chegarem ao país, com uma carrinha e um carro de mão, o casal abriu uma empresa. Foi assim que nasceu a M. Luís Construction Co. Inc, que hoje fatura mais de 60 milhões de dólares todos os anos (cerca de 45 milhões de euros).

Nos primeiros anos, Albertina continuou nas limpezas. "Foi isso que nos permitiu sobreviver e investir na empresa. Nos fim-de-semana, aproveitava para fazer a contabilidade", explica a portuguesa, que nasceu no seio de uma família com posses, e deixou tudo para casar com Manuel, o homem que conheceu com 10 anos e com quem casou oito anos depois. No tempo livre, ainda se juntava ao marido nas obras. "Muitas das minhas amigas não compreendiam. Perguntavam se não tinha vergonha, diziam que não era trabalho para uma mulher." A portuguesa garante que nunca se importou. "Trabalho é trabalho", diz.

Com 14 anos, as filhas começaram a trabalhar na empresa. Primeiro, lavavam as ferramentas, depois entregavam orçamentos e, passado algum tempo, já ajudavam na contabilidade e a traduzir documentos. "Os nossos amigos iam para os campos de férias e nos íamos apara a empresa", lembra Natália.

Elder Flores foi o primeiro funcionário contratado. O emigrante português, que ainda trabalha na M. Luís, estava junto à família quando Barack Obama recordou uma história durante o discurso.

"Há dois anos, um fogo deflagrou numa fábrica perto da M. Luís e grande parte do equipamento da empresa foi destruído, causando milhões de dólares em prejuízos. Mas, mesmo quando o fogo ardia, dúzias de funcionários correram para a fabrica e tentaram salvar o máximo que puderam. E, quando terminaram, foram ajudar os seus vizinhos", lembrou Obama. "E depois, mesmo estando todos os funcionários da M. Luís com um salário fixo, mesmo depois da empresa ter recebido um forte embaque financeiro, Cidália e Natália pagaram horas extra a todos, e com cada cheque vinha uma nota personalizada, dizendo o quão agradecidas estavam pelos esforços dos seus funcionários."

Cidália garante que "é comum dizer-se que os funcionários são a maior riqueza de uma empresa", mas na M. Luís é diferente. "Não dizemos apenas. Acreditamos mesmo."

Cidália e Natália cumprimentam todos os funcionários pelo nome, trocam piadas, perguntam pela família. A portuguesa explica que, "apesar de a empresa ser de construção, o pai incutiu sempre nos trabalhadores uma ideia de artesão; de fazer tudo muito bem feito, com orgulho em si e no trabalho" e isso tem resultados: "Fazemos as coisas como se faz na aldeia, mas a outra escala. Esse é um dos nossos segredos."

Depois de contratar o primeiro funcionário, a empresa continuou a crescer, a empregar mais pessoal e a conquistar novos clientes. "Passados alguns anos, a família estava confortável", recorda Albertina.

Cidália e Natália foram para a faculdade, onde foram sempre excelentes alunas. Natália licenciou-se em Gestão e Marketing Internacional na Universidade do Maryland, com formação adicional na Universidade da Pensilvânia e Dartmouth. Cidália estudou na mesma universidade, onde tirou uma licenciatura dupla em Economia e Português e Espanhol, e fez depois um mestrado na universidade da Califórnia. As duas cumpriram o sonho dos pais.

O regresso a casa

Quando Natália terminou a licenciatura, teve várias oportunidades de emprego. Reduziu a escolha a três ofertas e, durante um jantar com os pais, detalhou as três opções. No final, disse que queria aceitar a oportunidade em Nova Iorque.

"Agora também temos uma proposta para ti", respondeu-lhe o pai. Cidália podia ficar encarregue da unidade de orçamentos da empresa, com o dobro do salário do emprego de Nova Iorque, durante um ano. "Se passado esse tempo percebermos que não resulta, nós próprios fazemos-te as malas e levamos-te a Nova Iorque."

Para Natália, a oferta "foi uma surpresa total."

A portuguesa garante que trabalhar na empresa nunca foi uma opção. "Os nossos pais nunca falaram disso. Sempre incentivaram que estudássemos e seguíssemos a carreira que quiséssemos."

Natália refletiu durante duas semanas. "Tinha a paixão de viajar o mundo, por isso tinha estudado marketing internacional. Mas depois pensei no que queria que fossem as minhas memórias quando estivesse a envelhecer. E só conseguia pensar que tudo o que tinha significado era ter estado junto da minha família, com os meus pais e a minha irmã." A decisão estava tomada.

O ano acordado terminou. Natália decidiu continuar mais algum tempo. Dois anos depois, ligou para a irmã, que estava na Califórnia a seguir uma carreira académica. "Acho que vou fazer a minha vida disto", disse. "E gostava que estivesses do meu lado."

Cidália já tinha vivido em Portugal e no Brasil, estudando línguas e literatura com uma bolsa Fulbright-Hayes, e agora ensinava na universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, mas "estava numa fase complicada, a decidir o tema do doutoramento."

Dias depois do telefonema, empacotou tudo o que tinha, colocou os caixotes dentro do carro e conduziu durante dias, através do país, até bater à porta dos pais.

Juntas as irmãs revelaram-se imbatíveis. A empresa continuou no mesmo ramo de construção de infraestruturas para o estado, mas numa dúzia de anos passou de 30 funcionários para 400. "Tudo se encaixou", diz Cidália. "Tudo fez sentido", acrescenta Natália.

As irmãs moram a cinco casas de distância, num bairro de Washington, e todas as manhãs vão no mesmo carro para o escritório. É no meio do trânsito que começam o dia. É lá que, depois de discutirem a agenda do dia, fazem os telefonemas mais urgentes. "Vamos colocar a situação nestes termos", dizem, quando encontram alguma resistência no outro lado da linha, e, sem subir o tom, recordam valores, ligações, conversas anteriores, artigos de legislação e alíneas de contratos. "Estou certa de que o assunto pode ser resolvido. Não é? Falamos em breve." Chamada terminada.

Depois de terem começado uma empresa própria para provar que conseguiam fazê-lo, as irmãs ficaram responsáveis pela M. Luís quando os pais se retiraram em 2008. Cidália é Presidente, por ser a mais velha, e Natália vice-Presidente, mas as duas gerem igualmente a empresa. Natália é responsável pelos orçamentos e operações, Cidália cuida dos aspetos administrativos e financeiros.

Na sede da empresa, têm escritórios em lados opostos de um longo corredor. O escritório de Cidália - onde até há pouco tempo havia um recanto com desenhos da Barbie e o berço onde cuidou da filha até aos oito meses - está impecavelmente organizado e cada objeto tem significado: o sapo na parede foi comprado em Cancun, no México, depois de descobrir que tinha medo de alturas; o buda foi comprado na China, quando descobriu que estava grávida depois de ter sobrevivido a sete abortos espontâneos e a um cancro; a coruja, símbolo da sabedoria, e a águia, em representação da liberdade, foram compradas quando tinha 16 e 18 anos; a figura de porcelana de Don Quixote está lá para a lembrar do passado, bem como o mapa antigo de Portugal, que comprou numa feira de antiguidades em Georgetown. No escritório de Natália, a irmã mais nova tem fotografias dos dois filhos, para onde olha sempre que tem de tomar uma decisão importante, e pousados sob uma mesa três objetos: umas luvas de boxe cor-de-rosa, um botão "easy" (fácil) e um pacote de lenços. "É uma piada", explica. "Quando entras neste escritório, tens três opções: vais tornar tudo fácil, vais chorar, ou vais levar." De vez em quando, Natália leva as luvas de boxe consigo para as salas de reuniões.

As duas preferem não falar dos obstáculos causados por serem mulheres numa indústria de homens, mas Cidália garante que o seu livro de cabeceira é "Arte da Guerra", de Sun Tzu, e Natália diz que não havia mulheres na sua área quando começaram. "Fomos como uns touros. Partimos tudo. Like a bull in a china store [Como um touro numa loja de porcelana]."

Há poucos meses, a luso-americana participava numa reunião acompanhada por um funcionário. A outra empresa estava representada pelo diretor e um trabalhador, de quem Natália discordava num aspeto do negócio. Passados alguns minutos, o americano ignorou-a, olhou para seu o funcionário - mais novo, homem e branco - e disse: "Será que ela entende o que estou a dizer?"

Ali estava Natália - uma gestora que há menos de dois meses tinha recebido com a irmã o prestigiado prémio "Empresário do Ano" da Ernst & Young no estado do Maryland - a ser desrespeitada por um funcionário muito abaixo da sua hierarquia, e o patrão permaneceu em silêncio. "Nem pestanejou. Autorizou aquela atitude do seu funcionário", lembra. "Nunca teria feito isso se eu fosse um homem. Os disparates continuam. E a um alto nível, onde já não deviam acontecer. Já nos tentaram ensinar o que é asfalto."

Seria fácil calçar umas botas e vestir umas calças de ganga. Mas as irmãs fazem questão de não tirar os saltos altos - mesmo quando Natália, que sabe operar todas as maquinas da empresa, conduz um dos gigantes amarelos. "Somos meninas e gostamos de o ser", diz. "Queremos representar o nosso género e a mulher portuguesa. Nunca sequer pensámos fazer tudo de outra forma." Mesmo quando isso obriga a terem consigo, pelo menos, dois pares de sapatos; mesmo quando têm de esquecer os Jimmy Choo de camurça e optar por uns de acabamento envernizado, fáceis de limpar com um toalhete depois de visitar um estaleiro e antes de ir assinar um contrato de milhões de dólares.

O caminho para a Casa Branca

Cidália e Natália ficaram à frente da empresa meses antes do banco americano Lehman Brothers ir à falência e atirar os Estados Unidos para a pior recessão das últimas décadas.

"Foi a pior altura possível", lembra Cidália. "De um momento para o outro, deixámos de ter clientes. Os bancos deixaram de nos conceder crédito. Em 2008 tínhamos 400 trabalhadores e dois anos depois estávamos com 150. Despedir trabalhadores foi o mais difícil." As irmãs chegaram a pensar que a empresa não iria sobreviver. "A crise atingiu, sobretudo, as pequenas e medias empresas. Conhecemos empresas de amigos, negócios que estavam na família há várias gerações, há quase 100 anos, e que fecharam as portas."

Em Setembro de 2010, no entanto, Obama assinou o Small Business Jobs Act, uma legislação que criou o State Small Business Credit Initiative (SSBCI) e atribuiu 1.5 mil milhões de dólares (1.1 mil milhões de euros) a pequenas e médias empresas.

As empresárias recorreram a este mecanismo e conseguiram um empréstimo de 2.5 milhões de dólares (cerca de 1.8 milhões de euros) para expandir o negócio para novas áreas e comprar uma fábrica de asfalto.

"É um espaço dominado por multinacionais, onde não são atribuídas licenças há muitos anos e raramente há oportunidades para quem já não esteja na indústria", explica Cidália. "Depois de seis anos a tentar, conseguimos entrar. Hoje, somos a única empresa familiar gerida por mulheres dona de uma fábrica de asfalto no país." A empresária diz que o investimento só foi possível graças aos apoios dados pelo Estado: "As garantias que deu junto dos bancos foram fundamentais."

Hoje, a M. Luís Construction já tem 250 funcionários (contrataram muitos dos que tiveram de despedir em 2008) e calculam que, indiretamente, criem quatro vezes mais postos de trabalho. "Todo o ambiente económico é diferente", garante Natália. "Vamos continuar a crescer." Agora, querem comprar uma pedreira; dominar cada fase do processo.

A administração norte-americana começou a interessar-se pela empresa no início do ano. A equipa de Obama sabe identificar uma boa história, ilustração perfeita das vantagens das suas políticas, e tem-no feito desde que o Presidente foi eleito. Logo no mês de junho, o secretário do Tesouro, Jacob J. Lew, escolheu a M. Luís Construction para iniciar a semana que dedicou às pequenas e medias empresas. "Desde essa altura que ficámos em contato com a Secretaria do Tesouro", explica Cidália. "E a nossa história acabou por chegar à Casa Branca."

No dia 16 de setembro, Obama assinalou os cinco anos da falência do Lehman Brothers. Quatro dias antes, a Casa Branca ligou às irmãs e convidou-as a estar junto do Presidente durante o discurso. Os pais, que estavam de férias em Portugal até outubro, embarcaram de imediato para os Estados Unidos.

"Eles tinham de estar presentes. Não é todos os dias que conhecemos o Presidente. É o reconhecimento de todo o trabalho que tiveram e da decisão que tomaram há mais de 30 anos", diz Cidália.

Além das irmãs, também tinham sido convidados um empresário de restauração, um bancário, um professor e um aluno e um empresário de hotelaria. Estavam todos num corredor da West Wing quando uma porta se abriu e entrou o Presidente.

"Não estávamos à espera", lembra Cidália. "Íamos caindo."

Obama convidou-os a entrar na Sala Oval e comentou que a sala é mais pequena do que se espera. "Mas o meu contrato acaba dentro de três anos. Estou à procura de um espaço maior", brincou. Natália olhou à sua volta, pousou o olhar na secretária "Resolute" (que já foi usada pelos presidentes John Fitzgerald Kennedy, Jimmy Carter, Ronald Reagan, Bill Clinton e George Bush filho) e ousou tocar-lhe. Foi surpreendida pelo Presidente: "É algo especial, não é?"

Naquela manhã de segunda-feira, 13 pessoas tinham sido mortas num tiroteio num prédio da marinha norte-americana em Washington. Os detalhes eram ainda nebulosos, mas Obama parecia calmo. "No caminho para o discurso, foi sempre a falar connosco", lembra Cidália. "Fez-nos acreditar que, naquele momento, éramos o mais importante que tinha para resolver."

As irmãs estavam atrás do Presidente, uma de cada lado, vestidas de preto, impecavelmente penteadas, quando Obama enviou condolências às famílias das vítimas e começou a falar do tema do discurso: a economia americana.

"Estas pessoas atrás de mim... estas pessoas são donas de pequenos negócios, são pessoas que quase perderam as suas casas, são pessoas jovens que tentam ter acesso a uma educação universitária e, todos elas, atravessaram tempos difíceis durante a recessão", disse. "E em parte devido ao que fizemos, e sobretudo devido à sua coragem, determinação e trabalho árduo, estão hoje num lugar melhor." Obama referiu-se depois à eminente crise orçamental. "A missão fundamental do Congresso é aprovar um orçamento", disse. "E o Congresso deve fazê-lo sem provocar uma nova crise e sem forçar o encerramento do nosso governo."

Mais do que empresárias

Os congressistas não cumpriram, no entanto, o pedido do Presidente e, semanas depois, Barack Obama entrava de limusine na sede da M. Luís Construction, em pleno fecho do governo, para apelar a um entendimento entre Republicanos e Democratas.

Cidália e Natália não estão registadas em nenhum partido, são independentes, como os seus pais, mas admitem que votam tradicionalmente no partido Democrata. São cidadãs ativas, envolvem-se nas eleições como voluntárias, fazem telefonemas, organizam sessões de esclarecimento. Agora, serviram de exemplo na economia. Mas Obama também se referiu ao seu estatuto de emigrantes e elas estão disponíveis para dar a cara nesse debate, quando o Congresso começar a discutir uma reforma, ainda antes do final do ano.

As irmãs colecionam prémios de empreendedorismo (no ano passado, Cidália foi considerada "Mulher do Ano", pela National Association of Women Business Owners, em 2011 fez parte da lista de 100 Líderes do Daily Record e, em 2010, recebeu o "Latina Powerhouse Award", junto com a irmã, que no mesmo ano foi escolhida como uma das líderes com menos de 40 anos do Daily Record), mas também estão envolvidas em múltiplas obras de beneficência. Cidália ajudou a angariar 400 mil dólares para construir uma escola para crianças em Bamyian, no Afeganistão, e foi convidada por Michele Obama para falar do projeto na Casa Branca. A causa que as une, no entanto, é o Children National Medical Center, um hospital de crianças para o qual calculam já ter angariado mais de um milhão de dólares. Em julho do próximo ano, vão escalar o monte Kilimanjaro, com o patrocínio de vários empresas e amigos, angariando fundos para um projeto de investigação de diagnóstico intrauterino. Quando chegarem ao cume, vão colocar uma bandeira do hospital.

Descerão, eventualmente, os 5895 metros da montanha mais alta de África, voarão sobre o oceano, e regressarão a casa. Ao seu bairro em Washington, onde os filhos de Natália fogem para casa da tia quando a mãe se zanga com eles, e onde a pequena Sofia chora quando bate à porta da tia e ninguém responde; e a Matos da Ranha, que será sempre a casa da família, e onde os vizinhos foram apanhados de surpresa por saber que os Luís, que conhecem há décadas e voltam todos os verões, para trabalhar a terra, vestidos como toda a gente, são afinal milionários que conhecem o Presidente dos Estados Unidos.

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