A imortalidade na era da globalização

Como dar sentido às nossas vidas no século XXI? É a esta questão a que o filósofo e psicólogo israelita Carlo Strenger tenta responder no seu último livro, O Medo da Insignificância. Um ensaio esclarecedor, acessível e profundo.

Até que ponto as pessoas se sentem hoje tão em crise interior que se justifique dar como título ao seu último livro O Medo da Insignificância?

_O que pretendo não é fazer-lhes companhia ao dizer «Oh meu Deus, que tempo este em que vivemos!» O medo da insignificância sempre existiu nos seres humanos e nem a globalização alterou as condições de vida de cada um para melhor ou pior ao nível da realização pessoal e no modo de se destacarem dos outros.

Uma das críticas que faz é ao domínio do «politicamente correto» nos dias que correm. É contra?

_O politicamente correto faz parte de uma ideologia que corrói as relações. Se no passado não havia problema em viver em sociedades culturalmente marginais, que ostentavam opiniões bem diferentes, agora, que vivemos em sociedades pluralistas, a questão é como lidar com esta realidade de uma mesma opinião transversal. E com o facto de todos os dias nos encontrarmos com pessoas que têm crenças e estilos de vida diferentes do nosso perante quem evitamos a crítica. O impulso do politicamente correto foi bom mas criou uma situação em que não existe verdadeiro e falso. Em que não se pode criticar a visão dos outros relativamente a questões básicas da nossa existência sem resultar num impacte negativo.

Pode dar um exemplo?

_O facto de alguém em África acreditar na bondade da mutilação genital feminina não quer dizer que tenhamos de concordar só porque faz parte de uma tradição. É uma mutilação horrível e inaceitável das mulheres e, portanto, não se deve respeitar mas sim condenar. Como devo fazê-lo é onde reside a dificuldade hoje em dia.

Refere-se à velha questão de respeitar a cultura do outro, mesmo que daí resulte crueldade?

_Sim. Basta ver que ainda há muitos países onde as mulheres não têm os mesmos direitos e outros onde a homossexualidade é criminalizada. A sociedade mudou muito e é importante criticar certos comportamentos para evitar a continuação de questões morais erradas. Até mesmo ao nível da economia. É preciso, mais do que nunca, afirmar o que consideramos correto e tornar sagrada a possibilidade de divergir e de ouvir os diversos pontos de vista. É normal encontrarmos resistência a esta atitude. E até os tempos de crise em que vivemos dificultam essa posição.

É mais fácil fazer essas mudanças em países onde a religião é a cristã do que nos hindus, budistas ou muçulmanos?

_Não acredito que isso seja uma preocupação das próprias religiões! Aliás, basta seguirmos os processos de modernização da sociedade para observarmos as fraturas que aconteceram. Cada vez que mais pessoas acreditam numa solução diferente são evitadas situações erradas. Um exemplo: quem tem acesso à internet não vai acreditar que o aparecimento de uma doença de pele seja uma maldição do inferno ou um ato de bruxaria, antes confirmará que resulta de um fenómeno natural, com causas conhecidas. O conhecimento é a melhor cura para muitas doenças, de qualquer foro.

Fala muito no existencialismo, uma corrente filosófica considerada ultrapassada mas que volta a estar na moda. Porquê?

_Está a passar-se algo muito interessante com o existencialismo, porque deixou de ser uma corrente apenas filosófica e passou a incorporar bases psicológicas. É um desenvolvimento fascinante, que elimina a necessidade de confrontarmos as nossas dúvidas existenciais como anteriormente acontecia.

Refere no seu ensaio que a única coisa que ainda não somos capazes de aceitar é a morte. O que falta descobrir?

_Quem não acredita nas promessas religiosas de que vamos sobreviver à morte está perante uma etapa complexa porque, se ao nível cognitivo todos sabemos que vamos morrer, a outros níveis não o conseguimos aceitar. Daí a existência deste medo da insignificância na maioria das pessoas: lidam com esta questão acreditando na imortalidade pelo que fizermos em vida. Basta ver os exemplos históricos, como os dos grandes arquitetos que quiseram deixar criações marcantes para as próximas gerações os imortalizarem.

Que hoje pode assumir outra forma que não a dos grandes monumentos?

_A construção de uma grande catedral era uma das maiores forças criadoras da humanidade, e não estavam errados quando pensavam que se tornariam famosos e que era uma maneira de ser imortal. Era-se imortal como foi Leonard da Vinci antigamente e como são Cristiano Ronaldo, José Mourinho ou Steve Jobs atualmente. Caso contrário as pessoas creem que perderam a oportunidade na vida. Por isso a ideia de que só se nos transcendermos do lugar comum dos cidadãos é que encontraremos um caminho para a fama. Só a partir daí deixam de ter medo da morte.

Essa não é uma situação potencialmente criadora de ansiedade?

_Claro que é, mas existe porque as pessoas têm uma conceção errada do que é ser famoso. Pensam que ao tornarem-se conhecidas ficam preenchidas e felizes, só que isso não é verdade e até é bem diferente. Os famosos são pessoas que trabalham muito, que estão debaixo de uma enorme pressão que lhes dificulta bastante a vida. A pergunta que importa fazer é: «Porque é que esse estatuto é tão atrativo para os cidadãos?» Porque é que a fantasia preenche tantas vidas?

Essa é uma caraterística do momento presente?

_Não. E a desculpa de que vivemos tempos maus de pouco serve. Se regressarmos ao passado, veremos que na Roma Antiga também houve muitos problemas e, por isso, se eu tivesse de escolher entre a época dos reality-shows e a das atrocidades romanas, claro que preferiria a atualidade.

Enquadra o cidadão contemporâneo na classe do Homo globalis. Mas só inclui os jovens e as pessoas de meia-idade. O que faz com os mais velhos?

_Esse é um ponto em que cada vez estou menos certo de estar a ver o problema de forma correta, no que respeita à integração globalizante que advém das novas tecnologias. E digo-o porque tenho o exemplo da minha própria mãe que, aos 71 anos, teve o seu primeiro computador e agora faz parte do mundo virtual de uma forma que eu pensava ser impossível.

Considera benéfica a sua própria integração neste mundo do Homo globalis?

_Há pessoas que, como eu, viveram antes do aparecimento da internet e que hoje em dia não consideram ser possível viver sem o Google, por exemplo. Como é que eu escrevi os meus primeiros cinco livros? Só agora é que imagino como seria trabalhar naquelas condições, em que era preciso ter três assistentes a trabalhar um mês para investigarem o que eu próprio faço agora numa única hora. Isso mostra que tudo o que sirva para ajudar a criatividade é bom e que muitos de nós terão mais possibilidades de se tornarem mais criativos com estas ferramentas.

Que também provocam algum sentimento de insignificância?

_Sem dúvida! Se eu não tiver uma referência com o meu nome no Google - Obama tem milhões - pergunto-me que sou eu? É esse o momento em que sentimos a ansiedade.

Há uma geografia própria onde o Homo globalis domina?

_Encontraremos sempre mais nos países desenvolvidos porque é onde há mais penetração da internet, mas também depende da língua que falam. Estive numa reunião da ONU, no Qatar, e vi algo muito interessante: o impacte do fenómeno de cidadania mundial. Eu podia falar com as pessoas que vieram da Nigéria, do Egito ou de qualquer parte do mundo porque temos uma língua comum - o inglês - e, em muitos casos, uma causa também comum. Outro caso: durante os bombardeamentos de Israel sobre o Líbano, em 2005, eu soube que o editor da Time Out de Telavive conversava frequentemente com o da edição de Beirute sobre o seu trabalho enquanto o combate entre os dois países acontecia. Estas redes sociais evitam a quebra do contacto como acontecia antes e diminuem o poder de destruição dos governos nas relações pessoais. Esta é a primeira vez na História da Humanidade em que este fenómeno se regista de um modo tão exemplar e que se torna um perigo para as regras estabelecidas pelo poder como nunca antes foi visto.

O seu livro nunca fala de sexo. Deixou de ser um problema?

_Este livro é escrito preferencialmente para as nações do primeiro mundo, onde sempre projetamos a felicidade naquilo a que não nos é possível aceder. O sexo era um assunto importante a partir do boom do sexo nos anos 1950, depois vieram os movimentos de libertação sexual e, finalmente, a internet. Por isso, se hoje em dia está tudo bem nesse campo porque é possível realizar qualquer fantasia sexual na internet, o sexo deixou de ser um problema.

Começa o livro com o 11 de Setembro. É uma provocação?

_Não, até porque o terrorismo não é um fenómeno dos nossos tempos, já existe há muito. Quem pensa que vai desaparecer está errado e é preciso encontrar um equilíbrio entre a defesa e o ataque, porque se reagirmos violentamente só se lhe dará mais poder. Sei que é difícil acreditar se se viver em Madrid, Londres, Indonésia ou Nova Iorque, por exemplo. Mas é necessário não reagir de um modo violento porque esse tipo de reação só dá mais força ao terrorismo.

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