'A compra da EDP prestigia os chineses de cá'

Y PING CHOW é o presidente da Liga dos Chineses em Portugal e um dos seus mais famosos representantes. Tem 57 anos e a sua família foi uma das pioneiras em Portugal - o avô morreu com 105 anos e está enterrado no Cemitério do Bonfim. Da venda de gravatas nas ruas do Porto aos negócios de regresso à China, eis a história de um homem de negócios que vê com orgulho o acordar do Império do Meio.

Como chinês, e vivendo há mais de cinquenta anos em Portugal, sente orgulho na compra da EDP pela Three Gorges?

_Penso que foi bom, porque prestigia os chineses cá. Somos conhecidos como empresários, mas pequenos empresários. Pequenos comerciantes. Há sempre uma diferença entre os comerciantes e os industriais ou os comerciantes e os financeiros. Os portugueses fazem esse distanciamento. Entre os chineses não existe esta diferença. Um alto funcionário é sempre um empregado e nós, tendo uma empresa, mesmo que pequena, somos sempre o patrão. Os chineses têm uma mentalidade diferente. O chinês gosta de ser a cabeça de alguma coisa. Prefere ser a cabeça da cobra a ser o rabo do boi. Depois da compra da EDP e da REN, tenho recebido muitas chamadas de gabinetes de advogados a propor negócios, de empresas que querem fazer parcerias. Neste momento, estou a trabalhar com alguns desses gabinetes, que têm interesse para mim. Falamos de propostas de colaboração - eu tenho a minha vantagem e eles têm a deles.

Mas de que tipo de empresas e negócios estamos a falar?

_De muitos. Venda de lojas ou de propriedades e exportação de produtos, como vinhos ou roupas. De tudo um pouco. Vai ser bom, porque vai criar oportunidades de negócio, e no meio de tantas, podem aproveitar-se algumas.

Os chineses já passaram além das lojas, dos restaurantes e armazéns, já estão noutros negócios?

_Têm lojas, grandes ou pequenas, ou armazéns. Tenho um amigo que tem uma fábrica de sacos de plástico. O resto são tudo lojas, porque também é mais simples.

O seu avô foi dos primeiros chineses em Portugal, veio fazer o quê?

_Ele veio na década de 1930... Veio sozinho para melhorar o seu nível de vida. Fazia parte dos emigrantes que tinham estado em Macau e quando a China e o Japão entraram em guerra, os chineses saíram de Macau e, em grande parte, vieram para a Europa. Ele foi para França e depois para Espanha. Continuou até encontrar o Atlântico, até não poder descer mais [risos]. Ficou por cá, no Porto.

Conheceu-o?

_Sim, claro, ele morreu com 105 anos, está enterrado ali no Cemitério do Bonfim.

O que é que ele lhe contou desses primeiros tempos?

_Era muito estranho porque praticamente nenhum português tinha visto um chinês. Mas ele dizia que sempre foram bem recebidos. Estabeleceram-se no Porto e começaram a mandar vir as famílias.

Havia quantos chineses no Porto, nessa altura?

_Cerca de dez famílias. Grande parte delas tinham fábricas de gravatas - ou trabalhavam nas fábricas dos outros. O meu avô veio trabalhar para uma fábrica de gravatas - era vendedor ambulante. Depois, nos anos 1950, estabeleceu-se por conta própria e fez também uma fábrica de gravatas, malas, carteiras e cintos

Porquê gravatas?

_Gravatas é a coisa mais simples. Basta comprar tecidos e cortá-los com um molde. Depois é só entregá-los aos gravateiros e, de seguida, aos vendedores. Na altura, eram poucos os vendedores de gravatas em Portugal.

A comunidade era muito pequena - já era muito fechada?

_Sim. Porque ficavam todos numa zona próxima, na Batalha. Eram lá as fábricas. Mas muitos desses chineses casaram com portuguesas. Na altura tinham 20, 30 anos, arranjaram mulheres aqui e casaram-se. Há descendentes de chineses da segunda geração que são totalmente portugueses.

Quando o seu avô veio já era casado e tinha uma filha, a sua mãe, que nascera na China. Não trouxe a mulher nem o resto da família logo, pois não?

_Não. A minha avó veio, possivelmente, em 1956 - mais de vinte anos depois. A minha mãe já estava casada com o meu pai. O meu pai veio antes, trabalhar com o meu avô, e depois vim eu e a minha mãe e uns primos. Já depois de 1962, para ajudar os meus avós.

Onde moravam, na China?

_Em Zhejiang, na cidade de Wenzhou, de onde veio a maior parte dos imigrantes chineses em Portugal.

O seu avô ia à China muitas vezes?

_Não. Tenho ideia de que, depois de ter saído da China, nunca regressou.

Ele viveu mais tempo em Portugal do que na China?

_Sim.

Falava português?

_Sim, mais ou menos, porque há sempre o sotaque. Nunca estudou, mas aprendeu português do convívio.

O seu pai é agora o chinês que vive há mais tempo em Portugal...

_Sim, ele chegou em 1958. Ainda é vivo, tem 82 anos.

Como era a China na altura em que veio para cá, ainda se lembra?

_Era muito pobre. Não havia nada.

O dinheiro que o seu avô mandava para lá chegava para manter a família?

_Sim. Éramos tratados com prestígio com o dinheiro que o meu avô nos mandava. Éramos considerados família de emigrantes, tínhamos um estatuto diferente.

Ainda é assim, hoje, os familiares de emigrantes são respeitados?

_Não, agora há muitos emigrantes chineses.

Em Wenzhou, o hotel principal, enorme, de cinco estrelas, chama-se Chinese Overseas Hotel.

_Sim. O hotel já existe há muito tempo e foi investimento de chineses que emigraram e regressaram. Neste momento, há muitos chineses que têm hotéis lá. O investimento na China deve ser muito maior do que cá.

Quantos emigrantes chineses há no mundo?

_Vinte milhões, talvez.

E em Portugal?

_Vinte mil. Mas nunca se sabe ao certo, até porque existem muitas pessoas que não estão registadas.

Como é que o Y Ping Chow chegou a Portugal?

_Vim com os meus tios e primos, de avião. Viemos de Hong Kong e fizemos uma paragem no Paquistão, em Karachi, e depois em Frankfurt, e chegámos, finalmente, a Lisboa. Já foi há tanto tempo... Na altura estávamos a viver em Hong Kong e, como a cidade era pequena, não notei grande diferença em relação a Lisboa. Tinha 6 ou 7 anos. Foi uma aventura.

Quais são as suas primeiras memórias?

_Lembro-me de que aterrei em Lisboa e o meu avô levou-me laranjas enormes, que eu nunca tinha visto na China, para comermos. Fomos a casa de um amigo que tinha uma fábrica de gravatas aqui na Praça da Figueira, era o amigo do meu pai da época. E o resto... Já não me lembro.

Porque é que estavam a viver em Hong Kong?

_Como a China não tinha relações diplomáticas com Portugal, uma pessoa para vir para cá tinha de passar por Hong Kong, onde era pedida a documentação para se poder sair.

E veio viver para o Porto?

_Sim. Até agora... Andei na escola da Sé. Os meus colegas também nunca tinham visto um chinês. E eu nem sabia o que significava quando os colegas faziam assim [põe os dedos a puxar os cantos dos olhos e faz um V no nariz]. Se calhar, por ter um nariz mais pequeno ou os olhos rasgados. Na altura eu andava na escola primária e já era mais velho do que os meus colegas, um ou dois anos. Eles começavam a gozar connosco porque nunca tinham visto um chinês. Comigo e com os meus primos e primas. Mas nós, como éramos mais velhos, batíamos-lhes.

Isso, no início. E depois, como foi a adaptação?

_Foi fácil aprender português, quando se é criança é uma aprendizagem muito mais simples.

Ganhou logo muitos amigos portugueses?

_Sim. Depois fui para o Liceu Alexandre Herculano E queria arranjar uma rapariga portuguesa, mas os meus pais não me deixavam. Espiavam-me sempre. O liceu ficava ao lado do Rainha Santa Isabel, que era o das meninas, e íamos sempre tomar café na Rua do Heroísmo. E o meu pai ia lá ver-me. Ver se era eu quem pagava o café às meninas. E quando as raparigas me ligavam para casa ele desligava o telefone.

Porque é que ele não queria que se casasse com uma portuguesa?

_Sou filho único. Se conseguisse arranjar uma mulher chinesa, os filhos herdariam os costumes. Se casasse com uma portuguesa, perder-se-iam praticamente todos os costumes. As raparigas portuguesas não falam chinês e, depois, o entendimento com os pais é logo diferente. As portugueses são mais independentes e têm um afastamento familiar maior. Os chineses são diferentes.

Mas chegou a ter alguma namorada portuguesa?

_Não. Mas havia um problema, é que na altura não havia muitas mulheres chinesas em Portugal.

Onde conheceu a sua mulher?

_Foi-me apresentada pelo embaixador de Taiwan, aqui em Portugal. Casei com ela sem vê-la. Só a vi por fotografias e namorava com ela por cartas e cassetes - enviava as cassetes para Taiwan e vice-versa. Havia telefone, mas não fazíamos chamadas porque era muito caro. Ela acabou o curso de enfermagem e veio para cá e casámo-nos. Não nos conhecíamos e nem chegámos a namorar a sério, mas até nos aguentámos estes anos todos.

Ela adaptou-se bem a Portugal?

_Ao início sentia saudades dos pais, mas depois teve os filhos e as coisas melhoraram.

Quantos filhos tem?

_Tenho três, duas raparigas e um rapaz. Uma acabou o curso de Economia e Gestão e está agora a fazer contabilidade para empresas chinesas. Outra acabou o curso de Engenharia Ambiental e foi trabalhar para uma empresa de peças de automóveis. O meu filho acabou o curso de Engenharia de Gestão e está agora a trabalhar na Alemanha, numa fábrica de elevadores - a Schindler. Eles andaram todos num colégio alemão.

O seu filho é outra vez emigrante...

_Arranjou uma namorada. Vai ficar lá - outro emigrante chinês, ou melhor, português. Porque ele é português.

Então não tem herdeiro para os seus negócios?

_Não, praticamente. Eles não querem ser patrões, dizem que dá muito trabalho. Um patrão tem de trabalhar todos os dias, sem fins de semana. Eles não estão para isso, já são mais portugueses. O meu filho ainda tem iniciativa empreendedora. Quer ser patrão um dia, mas ainda não é, e não ficou a trabalhar para o pai. Todos eles acabaram o curso universitário. Falam bem inglês, português e até alemão. A educação chinesa é mais fraca porque na altura não a tinham, aqui no Porto. Neste momento, já existem escolas, mas são insuficientes. As crianças frequentam as escolas normais e só ao fim de semana é que têm duas ou três aulas de chinês. Houve - e há - muitos pais que mandam as crianças para a China quando têm 3 ou 4 anos. Só vão buscá-las quando elas têm cerca de 7 anos. É para ganharem uma base. Mas não foi o meu caso.

Porquê?

_Na altura ainda não tinha essa mentalidade, embora os meus filhos tenham ido para Taiwan, na época das férias. Quem manda os filhos para a China são os casais novos, que têm pais na China, e que aqui não conseguem aguentar os filhos economicamente.

Os seus filhos não falam mandarim?

_Sim. Mas falam português em casa. O problema é que as minhas duas netas já têm um afastamento grande da comunidade chinesa, já não querem aprender chinês. A mãe fala com elas em português, os pais são portugueses, e elas já não sentem necessidade de aprender chinês.

Tem pena?

_Sim, até porque a língua chinesa é o futuro. Os pais portugueses querem que os filhos aprendam chinês porque veem o desenvolvimento da China, querem criar condições. Os meus netos não sentem essa necessidade. Falam muito mal chinês. Isso dá-me pena.

O avô diz isso aos seus netos, que a China é o futuro?

_Sim. A minha segunda filha está a falar com a filha em chinês e ela já entende alguma coisa.

Mas não sentem orgulho neste boom chinês?

_Eles não sabem nada disto... Os meus filhos são mais portugueses do que chineses.

E o Y Ping Chow?

_Se calhar sou como um galão, um café com leite. Já não sei bem o que é ser-se chinês. Ajo socialmente como português, mas ainda mantenho a profundidade de pensamento, de discernimento, de um chinês. A forma de trabalhar, de falar e atuar, é portuguesa, até porque o português é mais direto, gosto mais. O chinês tem uma maneira de falar diferente, é mais indireto, mais reservado. Se pensar se sou chinês ou português... Considero-me chinês, sinto-me mais chinês. Sei lá, é uma mistura.

Mas ainda tem nacionalidade chinesa?

_Tenho passaporte de Taiwan, porque não posso adquirir um passaporte chinês. A China só dá uma nacionalidade e eu tive de escolher. Tornei-me português em 1976, sensivelmente, e a China só reatou relações diplomáticas com Portugal em 1979, se não estou enganado. E aí já tinha um passaporte de Taiwan, porque, como cheguei a Portugal em 1962 e na altura o país tinha relações diplomáticas com Taiwan, fui obrigado a ter esse passaporte. Fui da China para Hong Kong, depois daí trouxe um documento provisório de residência para pedir autorização para vir para cá. Quando cheguei aqui tive de tirar um passaporte chinês através da embaixada de Taiwan. E mantive-o sempre. Sou chinês de Taiwan. O passaporte que tenho é um conforto por poder sentir-me chinês. Há muitos chineses que se naturalizaram e que ficaram sem passaporte. O chinês naturalizado chama-se, na China, descendente de chinês ou da raça chinesa, e não pode dizer que é chinês. Eu sou, tenho duas nacionalidades - portuguesa e chinesa.

Foi sempre patrão toda a vida?

_O chinês é um pouco aventureiro e é mais empreendedor. É da raça. E, possivelmente, pelas condições de trabalho. Na altura em que os chineses chegaram a Portugal, arranjar emprego não devia de ser uma coisa muito fácil, por não se falar português. Mas também tem que ver com a ambição.

Isso transmite-se de pais para filhos?

_Penso que sim.

Depois do liceu, acabou por ir parar a Economia, mas não terminou o curso...

_Entrei, mas não consegui acabar porque casei muito cedo. Ou melhor, até antes de casar já ajudava o meu pai, para ganhar algum dinheiro. Entre 1964 e 1966, não tenho a certeza, abrimos o primeiro restaurante chinês e, na altura, eu tinha 10 ou 11 anos e era o porteiro. Ganhava bem, davam boas gorjetas. Era ali ao pé da Ponte D. Luís.

O restaurante causou muita curiosidade?

_Era considerado um dos melhores do Porto. Até tinha um preço de primeira categoria. Era caro, só lá iam pessoas ricas. Quem cozinhava eram os cozinheiros que vinham da Alemanha. Os da China custavam muito. Depois, começaram a espalhar-se os restaurantes, até porque os chineses que para cá vieram foram todos para aí. E foi assim até 1985/86. A partir desse momento começou a aparecer o chinês ambulante, o vendedor de rua. De 1990 a 1995, os chineses começaram a vender nas feiras e depois começaram a abrir as lojas dos trezentos. A partir daqui, a posição do chinês baixou um pouco, porque não é o chinês patrão, mas sim o vendedor. A partir do ano 2000 os vendedores começaram a criar lojas e depois armazéns. A comunidade ficou mais rica e, neste momento, os chineses são vistos como pessoas ricas.

Que negócios tem atualmente?

_Tenho restaurantes e lojas. Quatro restaurantes. Uma loja. Já tive outras três ou quatro que fechei, porque às vezes não dá para controlar bem as coisas. Estavam ligadas à joalharia e à perfumaria. Logo, isso exige um controlo mais apertado. Sou presidente da Liga dos Chineses em Portugal e estou, com uns amigos, a desenvolver um projeto na China, um parque industrial, e queremos levar empresários europeus a investir lá. Sou conselheiro da província de Tian Jin, cerca de 130 quilómetros a norte de Pequim. A Câmara Municipal da Maia convidou-me para ser conselheiro de cooperação do município da Maia com a intenção de poder trazer empresários da China para cá. E o município de Tianjin tem a ideia de visitar Portugal e, ao mesmo tempo, a Maia, a ver se consegue ou não criar uma relação. Já fui lá, no ano passado, com um grupo. Não levei grandes empresas, até porque essas não precisam de mim para nada. As pequenas e médias empresas precisam de mim, mas não conseguem acompanhar o investimento que é preciso. Têm pouco dinheiro e medo de perder. E o desenvolvimento em Angola ou no Brasil é mas fácil para eles, porque falam a mesma língua.

Vai muitas vezes à China?

_No ano passado fui oito vezes.

Os portugueses vão para França ou Alemanha e, na segunda geração, já não têm qualquer ligação com Portugal. Isso não acontece com os chineses?

_Com os chineses não, a não ser o chinês da terceira ou quarta geração. Aí já se perde a relação, mas na segunda há sempre e na terceira ainda se sente. A partir da quarta é que é mais difícil.

Qual é o segredo para negociar na China?

_O segredo passa por compreender, ver os nossos interesses, bem como os deles, ou melhor, os interesses de todos.

E com os portugueses?

_Tem de se dar um rebuçado primeiro. É mais difícil, porque os portugueses são mais práticos e, neste momento, julgo que já perderam a garra de lutar, aquele empreendedorismo... Pelo menos, quando comparado com a época dos Descobrimentos, hoje jogam sempre pelo que já é certo, já não se aventuram. Os empresários espanhóis, italianos e franceses têm mais sucesso na China do que os portugueses, porque são mais aventureiros. Os chineses são capazes de apostar tudo e os portugueses, neste momento, têm um pouco de medo.

Isso também se nota na forma como se trabalha?

_Sim. Os chineses pensam «faço primeiro e depois é que aparecem os resultados». Os portugueses, ao invés, querem prever o resultado e só depois é que fazem alguma coisa. O chinês não faz tanto planeamento. E, pensando sempre nos problemas, fica-se com medo de avançar.

Mas tem de haver mais do que isso, um segredo... Explique lá como é que um chinês chega a Portugal e tem logo capital para ter uma loja e investir?

_É muito simples. O chinês daqui tem a confiança da fábrica de lá. A fábrica de lá tem interesse que o produto dele saia, portanto dá alguma facilidade - o emigrante não paga os produtos, só os paga depois de serem vendidos ou de ganhar dinheiro para ficar com stock. É um formato de internacionalização para as empresas.

É tudo uma questão de confiança...

_Para poder trabalhar tem de se confiar e para merecer confiança tem de se pagar bem.

Ou seja, se não pagar uma vez acabou?

_Sim, acabou. E se pagar sempre haverá, então, sempre confiança. Para montar um negócio tem de se criar uma amizade. Com a amizade cria-se confiança e com esta ganha-se apoio e, depois de o ter, é preciso existir cumprimento. O que vem tem, geralmente, um familiar na China e é esse familiar que pode ser o avalista dele.

E neste momento já há muitos a voltarem para a China?

_Sim, muitos. E são de dois tipos - os que cá estavam e não ganharam dinheiro e os que ganharam, mas que querem desenvolver-se por lá.

E o que levam de Portugal?

_Levam os conhecimentos de Portugal, os amigos e os empresários portugueses. Há muitos que estão a trabalhar em vinhos, azeites e até mesmo na moda, nas roupas. A China produz muitas roupas, mas o chinês, quando começa a ter muito dinheiro, é vaidoso. Gosta de marcas. O problema de Portugal é que não tem marcas sonantes que as pessoas possam comprar. Mas deviam utilizar mais o nome de Portugal, até porque os chineses gostam do país. Há pessoas que estão a trabalhar neste sentido, de desenvolver Portugal, para depois levar as marcas portuguesas. A cultura portuguesa, se for bem vendida, até pode ser bastante beneficiada. Está é mal vendida.

Quando era menino e dizia aos seus amigos que o seu avô estava em Portugal, eles sabiam onde era e que país era?

_Conheciam Portugal... Pensam logo que é um país que produz vinho, até porque Portugal traduzido em chinês quer dizer «uva». As pessoas podem não saber onde fica, mas ouvem uva e associam ao vinho. É ótimo. E conhecem Portugal por causa de Macau.

Há, na China, mesmo uma vontade de dominar o mundo?

_Não. Os chineses são pacíficos. Para fazerem negócio olham, geralmente, primeiro para o interesse dos parceiros e depois para o seu. Porque sabem que se o parceiro ganhar dinheiro ele vai ter mais oportunidades. No caso da REN ou da EDP, a China está a jogar com o desenvolvimento de ambos, da própria China e de Portugal. o fundo, o que a China está a fazer com a EDP é o mesmo que fez com os emigrantes que vieram para a Europa, salvas as devidas diferenças.

A internacionalizá-los?

_Sim, a internacionalizar e a ajudar a empresa local para se ajudar a desenvolver a si própria.

Mas também há esse interesse no triângulo lusófono Portugal, Brasil e Angola?

_Neste momento, no Brasil, já há muito desenvolvimento feito por chineses. Já lá fui e vi. Em Angola também, mas eu já lá estive a estudar as coisas, e é muito caro. Antes de começar já se ficou falido. Agora estou a tentar fazer um negócio em Moçambique, com uns amigos chineses de Moçambique. Portugal, como se sabe, é um país pequeno. A China pode interessar-se por Portugal para poder entrar na Europa, e também para ter facilidade de entrar em Angola e em Moçambique. Por lá acredita-se mais nas empresas portuguesas do que nas chinesas. Aliás, politicamente, os portugueses conhecem e aceitam esta posição, o que está é mal trabalhada, porque, nisto, a influência de Portugal está a ser ultrapassada pela de Macau, que tem uma relação mais intensa com a África lusófona. Eu preferia que Portugal fosse o centro de contacto entre a China e os países lusófonos e não Macau.

A venda da EDP tem sido muito criticada. Diz-se que estamos a vender a empresa a um Estado que não é democrático. Como é que se sente quando ouve essas críticas?

_A minha resposta é dizer que quem faz essas críticas são pessoas que não têm conhecimento da realidade, que têm pouca autoconfiança. Neste caso, ainda não entraram em combate já acreditam que vão perder.

Quando é que voltou à China pela primeira vez, depois de ter vindo para Portugal?

_A primeira viagem depois de estar cá foi por volta de 1977. Fui a Taiwan. Só no princípio da década de 1980 é que voltei à minha cidade.

Como é que viu o país?

_Era bastante atrasado. Havia falta de tudo, era muito escuro e todos se vestiam de cinzento. Isto foi antes de 1985, altura em que a China que se começou a abrir mais.

Como é que assistiu à evolução do país, desde Tiananmen até hoje?

_Tem seguido bem a sua política económica e de abertura. Embora seja muito criticado pelos europeus, por falta de direitos humanos. Acho que muitos políticos criticam a China porque não conhecem a sua realidade. Portugal, com meia dúzia de gatos pingados, já está descontrolado. O próprio governo não consegue controlar o país, até mesmo com direitos humanos, até o direito da greve. Se fosse a China a dar esta liberdade rapidamente estaria dividida em muitos países. Para a China conseguir manter-se como um país único, tem de ter alguma força.

Onde estava quando foi Tiananmen?

_Estava em Portugal, mas assisti pela televisão e vi no jornal. Na altura fiquei bastante furioso. Até propus, com mais alguns colegas que tinham vindo de Moçambique, fazer um protesto. Não compreendia como é que militares matavam pessoas. Na altura o protesto não era contra o governo, queríamos apenas fazer um protesto. Mas acabámos por não o fazer, porque esses amigos mais velhos, de Moçambique, acharam que era melhor não fazer nada. Não fizeram porque, possivelmente, já estavam queimados com a política.

Porque é que se inscreveu no PSD?

_Eu era o único representante da comunidade chinesa no Conselho das Comunidades Imigrantes e fui convidado por Santana Lopes. Na altura havia eleições e ele convidou três imigrantes com mais visibilidade. Também fui o único chinês convidado, os outros eram um cabo-verdiano e uma russa, ou de um país do Leste. Entrei não sei bem porquê. Fui convidado pelo primeiro-ministro e senti-me orgulhoso. Não sou político, mas uma pessoa procura sempre beneficiar com alguns amigos. Entrar na política implica criar mais amigos e de influência. Era bom para o negócio e para as relações.

Nunca se tinha metido em política, mas viu o país que o acolheu atravessar vários acontecimentos históricos. Como é que viveu o 25 de Abril?

_Nessa altura estava na casa dos 20, estava à frente de um segundo restaurante. Não vi, ou senti, praticamente grande diferença do regime de Salazar para aquele pós-revolucionário. No regime de Salazar já era patrão, nunca fui empregado, por isso não senti a diferença. Senti foi o negócio a baixar bastante e, depois, os empregados a ganharem poderes. Houve na altura, nos primeiros anos, uma política de esquerda.

Alguma vez teve receio de que Portugal se transformasse num país comunista, como a China - a que não conheceu, pois saiu antes disso...

_Não, nunca tive, porque não tinha conhecimento político nem sentia pressão. Apenas notei que o negócio baixou bastante.

Tinha empregados portugueses?

_Sim, bastantes. Eram praticamente todos portugueses, nas salas e na cozinha, à exceção dos cozinheiros, que eram chineses. Os ordenados aumentaram bastante.

Estava a falar das diferenças de atitude em relação ao trabalho. E os chineses, quando se habituam a Portugal, não mudam também os seus hábitos?

_Sim. De cem por cento chinês passa a ser 55 por cento [risos].

Por exemplo, já fecham as lojas ao domingo...

_Sim. Neste momento há um conflito entre os comerciantes ricos e aqueles que estão a começar. Por exemplo, os ricos querem fechar e os que estão a começar não. Em Vila do Conde os armazéns decidiram fechar todos aos sábados, mas no primeiro sábado ficaram muito atentos. Se estiver um aberto, todos abrem. Este sábado passei por lá, para ver, e em cem estabelecimentos, cinquenta estão abertos. Na primeira semana, eram capazes de estar setenta fechados. Os dos imigrantes mais recentes não fecharam porque precisam de trabalhar... Há também uma coordenação de todos os funcionários. Se houver folgas alguns deles podem ser despedidos.

A sua vida é sempre na comunidade chinesa ou tem muitos amigos portugueses?

_Neste momento, tenho mais à vontade, mais abertura, e uma relação mais sincera com os portugueses do que com os chineses. A ligação de interesses é maior com os chineses. Os chineses que me ligam são pessoas que estão numa situação alta, que não precisam de mim, ou são pessoas que precisam de mim e que faça algo. Com os portugueses é de igual para igual.

E quem são os seus amigos portugueses?

_São muitos, de todos os níveis. Desde políticos a empresários, professores e jornalistas.

O que faz além de trabalhar?

_Comer. Tenho muitos almoços e muito convívio com chineses e portugueses. Com o chinês sou o convidado, com o português eu é que convido. Até já estou com diabetes.

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