"Votei sempre em partidos de esquerda. Mas nem sempre no Partido Socialista"

Tiago Brandão Rodrigues. Aos 38 anos, o investigador de Cambridge trocou a segurança de um contrato permanente com aquela universidade britânica pela incerteza de um lugar a prazo na Assembleia da República, cedendo ao desafio que lhe foi lançado por António Costa para encabeçar a lista do PS por Viana do Castelo.

Estava nos seus planos voltar a Portugal tão cedo?

Nunca tinha equacionado verdadeiramente voltar. Estava bem, tinha uma situação muito cómoda e confortável, e até senti que tinha muitos graus de liberdade para ficar em Cambridge. Tinha um contrato sem termo com a Universidade, o que realmente é um luxo. A Universidade de Cambridge é o Real Madrid da ciência. Tinha muitos graus de liberdade para dizer que não. Era feliz, tinha uma situação relativamente confortável, tinha uma rede social que me agradava. Mas inquietava--me o facto de não estar no meu país.

Com isso tudo que tinha, porque é que troca Cambridge pelo Parlamento?

O imperativo de dizer "presente" e o imperativo de cidadania. Na política acontece muito o que acontece no futebol: somos muito opinativos, somos todos comentadores de bancada. A política é o que fazemos todos os dias, é como podemos, eventualmente, melhorar as nossas vidas, como podemos implementar bases diferentes para construir este Estado que é, no fundo, o garante da democracia. E o que senti é que era imperativo dizer que sim, dizer "presente". Porque, por muito que me sentisse bem lá, existe e existia em mim uma inquietação enorme relativamente ao que acontece.

Acompanhava a política portuguesa?

Muito. Muito. A emigração e viver longe, nos dias de hoje, também é muito diferente do que acontecia, por exemplo, nos anos 1960/70. Lembro-me que a primeira vez que saí do país, em 1999, já havia internet mas os tempos eram outros. Mesmo o mundo da internet era completamente diferente e lembro-me que a minha primeira preocupação quando cheguei a Madrid para fazer o Erasmus, foi procurar um sítio onde se vendessem jornais portugueses. Isso agora não faz sentido.

Como é que observava aquilo que se passava aqui?

De forma muito atenta e, nos últimos anos, com muita preocupação. O estado das coisas e, acima de tudo, a res publica, a coisa pública, a forma como nós como povo, e também quem nos liderava, a coligação que nos liderava, como ia decepando sistematicamente a coisa pública, com as consequências que isso tem.

Como é que se define ideologicamente?

Sou um homem de esquerda, por tradição familiar, por influência (e boa influência) de amigos e de amigos da família mas, acima de tudo, também pelo que a minha experiência de vida me provocou. Crescer num sítio pequeno implica que se tenha o conhecimento global de, pelo menos, como é a realidade do sítio onde se cresce. É impossível ser de um sítio como é Paredes de Coura e não conhecer o que há à nossa volta, porque chega-se à 1.ª classe e há uma turma de 1.ª classe onde está o filho do agricultor ou o filho do professor primário ou do funcionário das Finanças - muitas vezes, são aqueles que têm a capacidade para comprar, para viajar, para fazer algo diferente - ou o filho do empregado fabril. Isto é, o espectro da nossa vida é o espectro, verdadeiramente, daquela sociedade.

Como é que foi crescer de esquerda numa vila como Paredes de Coura, que é, tradicionalmente, mais conservadora?

As vilas pequenas são, em sentido lato, comunidades. Se, por um lado, é verdade que são conservadoras na forma, no conteúdo são extremamente solidárias, compreensivas da diferença e integradoras...

São socialistas?

Isso, são socialistas. São socialistas na forma de organizar a comunidade, na forma de, pelas práticas correntes do dia-a-dia, também se complementarem à ação do Estado na capacidade de assistência ao próximo e de complementar as instituições que existem para balizar ou sinalizar os problemas.

Se eu chegar a Paredes de Coura e disser a uma senhora que esteja à porta da igreja que ela é socialista, se calhar ela benze-se três vezes e diz que sou Satanás.

Não. Isso também é pensar que Portugal está a viver em 1971 ou 1972 ou em 1977-78. A democratização dos meios de comunicação social, da internet, o aumento generalizado da escolaridade, o aumento e o acesso a outros meios de as pessoas se educarem, se cultivarem, de entenderem o mundo à sua volta também faz que esta diferença de entendimento do mundo se tenha esbatido. Se é verdade que Paredes de Coura, o Minho, Viana, são periferia nesta periferia da Europa que nós somos, por outro lado também acredito que muitas daquelas pessoas têm ferramentas. Conhecem o país e conseguem analisá-lo.

Dizia há pouco que o seu trabalho lhe deu visibilidade. Sente-se utilizado pelo PS?

Não, de todo. Nem teria dito que sim a este desafio se me sentisse um produto de mercadotecnia. Sinto que posso ser um instrumento na engrenagem do PS para ter um ponto de inflexão nas práticas e nas políticas públicas que atualmente acontecem em Portugal.

Quais serão as suas causas?

As coisas que me são naturalmente mais próximas. E, obviamente, há duas em que me sinto confortável. Uma delas é a ciência e o ensino superior, num sentido mais lato, principalmente porque em Portugal a ciência tem estado tradicionalmente muito associada ao ensino superior.

Isso é certo ou errado?

É a prática e a capacidade que tivemos ao longo dos tempos. É certo, no entanto não implica que não possa haver outras soluções. Isto é, não é nenhum problema que o ensino superior seja o ator principal, como é na maior parte dos países do mundo. Mas podem existir, no entanto, outras soluções. Por exemplo, centros de investigação que não tenham uma vocação tão forte relativamente ao ensino superior, fora das universidades.

A Fundação Champalimaud é um bom exemplo?

É um bom exemplo de uma instituição que, não pertencendo à universidade, está a tentar e a conseguir fazer ciência em Portugal de qualidade. Outro dos caminhos possíveis é a ciência e a investigação no meio industrial, no meio empresarial, o que em Portugal, infelizmente, não acontece com tanta assiduidade. Muitos dos nossos empresários, que tiveram essa sobriedade ou lucidez, conseguiram ter ganhos na organização das suas empresas.

Sendo defensor do papel do Estado, não o aflige que na área da investigação científica e da ciência ela se desenvolva no setor privado?

Não, de todo. E entendo que este casamento entre a investigação pública e privada tem de ser bem conseguido, bem pensado e bem estruturado. Agora, por si só, o Estado e o setor público não vão, muito provavelmente, conseguir preencher todas as lacunas da investigação. Em Portugal, temos uma capacidade de progressão enorme no que é a investigação científica, por isso que venha quem vier por bem. Da mesma forma que o próprio Estado tem de conseguir - e isso está no programa do PS - ter a capacidade de atrair doutorados, gente com outro saber fazer, para as suas estruturas, para os seus locais de decisão. A capacidade técnica é muitas vezes motora de soluções, redutora de custos, catalisadora de processos e de protocolos. Muita gente já entende com facilidade o que é um mestrado e o doutoramento é um passo mais nesse caminho do trilhar de novas competências. Entendo que, principalmente nestes últimos quatro anos, tem havido um decepar sistemático de várias coisas. Por um lado, da capacitação de recursos humanos, por outro, da estrutura que tinha sido montada. Cair demora um segundo; levantarmo-nos demora, pelo menos, dez segundos.

Mas isso é responsabilidade exclusiva do governo ou é fruto das circunstâncias que vivemos?

Entendo a crise económica. Mas tudo na vida é uma questão de prioridades e este governo não garantiu, que a ciência, a tecnologia, a inovação e o ensino superior fossem uma prioridade. E isso também é indubitável. Qual foi a consequência principal disso? Primeiro, debandada geral. Muita gente capacitada...

A chamada fuga de cérebros.

Mais do que fuga de cérebros, as pessoas estão a ir-se embora não, muitas vezes, única e simplesmente por não conseguirem trabalhar, mas também há aqui outra questão: é que este governo e esta coligação conseguiram diminuir, não só na ciência mas também na ciência, a autoestima de quem trabalha em Portugal.

Mas o Tiago foi-se embora em 1999, curiosamente no tempo de um governo socialista.

Pois, mas tinha 22 anos e fui fazer o Erasmus e fui em contraciclo. Não têm de ser cortadas as pernas de quem se quiser ir capacitar lá fora, estudar onde quer que seja. Agora, é terrível ter de sair porque é uma inevitabilidade.

Ou seja, uma coisa é sair por opção da zona de conforto, outra é sair porque se é obrigado.

Exatamente. E isso deixa consequências terríveis. Há aqui outra questão a que queria voltar porque me perguntou quais eram as minhas causas. Uma delas é, claramente, a ciência e o ensino superior e as coisas em que acredito. Obviamente que não deixo de ter todas as outras. Acredito com veemência que o Serviço Nacional de Saúde deve existir como garante de um Estado assistencial para todos.

E tendencialmente gratuito?

Sem dúvida. Entendo que a Justiça deve ser célere, deve ser acessível a todos. Entendo que a Previdência deve existir, que a Segurança Social deve funcionar, que temos de ser solidários...

E 100% pública?

Acredito que a Segurança Social pública pode ser viável, mas não tenho a receita para isso.

Mas, por princípio, é contra a introdução de um plafond de descontos que implique a privatização, pelo menos parcial, das receitas da Segurança Social?

Bom, obviamente que tinha de fazer um estudo mais cuidado.

É porque essa é uma das propostas da coligação. E faço esta pergunta tendo em conta a sua experiência de vida lá fora, onde os sistemas são mistos em muitos países.

Sim. Mas o facto de ter vivido noutros países não significa que traga todas as práticas de lá. Viver fora dá--nos a capacidade de ter uma relação de quase escrutínio relativamente aos sítios. Podemos trazer tudo aquilo que achamos que é bom e evitar tudo aquilo que achamos que não funciona e que estão a tentar replicar. Tendo vivido todos estes anos fora, entendi muito melhor o que verdadeiramente quero preservar no meu país. Porque alguns dos países por onde passei cometeram erros que, claramente, vamos na mesma esteira.

Por exemplo?

Relativamente, principalmente, ao Serviço Nacional de Saúde.

Este verão foi notícia que o primeiro-ministro britânico, David Cameron, teve de recorrer ao SNS no Algarve, e deixou grandes elogios...

Primeiro, temos de entender que o primeiro-ministro britânico vem a um país estrangeiro, utiliza o SNS e imagino que, naturalmente, vá tecer elogios. Por outro lado, ele é o primeiro-ministro britânico, não serve para a minha casuística. O que quero entender é que quando os meus colegas de escola, em Coura, a minha avó, em Paredes de Coura, os seus familiares, aqui em Lisboa, ou alguém que está na ilha do Corvo, nos Açores, quiserem recorrer ao SNS possam sair de lá com o mesmo sorriso com que saiu o David Cameron. Quando isso acontecer, vou-me congratular com o SNS.

Gostava de ser ministro ou secretário de Estado?

Essa pergunta, sinceramente, não se me colocou. Se me tivesse perguntado há dois meses se gostaria de ser deputado, dir-lhe-ia que isso é uma coisa que não se coloca neste momento, nem faz parte da minha pedra basilar onde vou construir as fundações da minha próxima casa. Neste momento, sou candidato a deputado pelo distrito de Viana e é nisso que penso. É aí que trilho o meu caminho. Obviamente que não me demito do que são as minhas responsabilidades. Da mesma forma que disse "sim, presente" agora, eventualmente posso dizer "sim, presente" a todas as coisas para que possa ser desafiado. Mas é um exercício teórico. Porque acredito mesmo, com veemência, que é importante comprometermo-nos com aquilo que estamos a trilhar.

Disse logo que sim ao desafio do PS?

Demorei o meu tempo a decidir, que foi curto, porque o tempo da política não é como o tempo da vida normal. Foi na ordem dos dias, pouquíssimos dias. Agora, o que acontece é que foi o suficiente para sentir que, quando disse sim, só havia um caminho.

E não houve quem lhe dissesse "não sabes onde é que te vais meter"?

Sempre que tomamos decisões, há uma coisa absolutamente fantástica na vida, que é ter a capacidade de livre arbítrio, de decidir. Obviamente que não podemos deixar de fazer uma leitura do que temos em Portugal. Muitas das pessoas entendem que a política é um campo muito complicado, é um instrumento que não cumpre a sua função como todos acreditamos que devia cumprir. As pessoas que me estão próximas tiveram algumas reações mais musculadas. Mais do que "não sabes no que te estás a meter" disseram-me "tem cuidado" ou "cuida de ti". Agora as pessoas mudaram de sentido. É bom, porque confiam em mim. Depois há outra questão. Todos entendem, principalmente as pessoas que estão muito descontentes com o que está a acontecer no país, que é preciso ir à guerra mas não querem que os seus filhos tenham de ir à batalha. E sou um dos seus filhos. E, de repente, estão a ver-me a ir à batalha e é complicado. E depois é difícil justificar a alguns dos meus amigos, que têm contratos precários, que vivem a precariedade extrema - que é ser ele e a mulher empregados fabris, terem um filho e uma filha em idade escolar, entretanto a fábrica fechou, os dois ficaram desempregados e vivem da pensão dos avós - e digo-lhes: a minha vida era ao contrário. Não tenho família, nesse sentido, e tinha um contrato onde ganhava bem, onde vivia bem, num sítio que me estimulava, que eu era feliz. As pessoas precisam é de segurança. As pessoas, às vezes, reagem menos bem a tudo isto porque veem nelas mesmas uma situação a que não se podem dar ao luxo, que é: "Não tenho segurança na minha vida. Tu, que tinhas segurança, agora deitaste-a fora?" É verdade que o PS usa um conceito muito forte que é o conceito da confiança e que é isso que temos de estabelecer.

Mas há uma outra coisa em que as pessoas não confiam, que é a classe política.

É impossível falarmos sem integrarmos esta conversa no que se passou nos últimos dez anos. Existem casos suficientes para cada um dos portugueses olhar para a vida política de forma distante. O que acontece é que muitos dos bons não têm sido atraídos para a política e para a causa pública, demitem-se do seu impulso de cidadania. Somos uma democracia relativamente recente e não nos podemos esquecer disso. Não temos a mesma matriz ou o mesmo legado que têm os países nórdicos ou, por exemplo, o Reino Unido. Construímos a nossa democracia à base de muito trabalho durante as últimas quatro décadas. Tudo, na vida, é uma questão de expectativas.

O problema é que as pessoas estão, há muitos anos, a ver frustradas as suas expectativas.

A questão em concreto é que não podemos deixar de ter expectativas. Era o que mais faltava se deixássemos de ter expectativas de que vamos viver melhor, de que vamos ter uma democracia mais consolidada, de que o Estado vai ser o garante dessa democracia e de que no dia de amanhã vamos ser, como povo, como país, muito melhores. Essas expectativas não podem ser interrompidas. E o que a coligação faz é tentar convencer as pessoas a baixar as expectativas. "Ah, mas, pelo menos, não estamos como a Grécia!" Que isso é uma falácia enorme. A Grécia tem uma sociedade com determinadas características, e nós temos umas condicionantes que são completamente diferentes. Não podemos baixar as expectativas relativamente a quem lidera este país e como povo também não. E não podemos cair em frustrações, coletiva e individualmente.

Estava em Cambridge - e já falou genericamente de alguns casos que aconteceram nos últimos dez anos -, quando José Sócrates foi preso. Como é que reagiu quando soube da notícia?

Acho que todo e qualquer português olhou para esse evento, em concreto, como algo bastante surpreendente, no sentido em que o nosso antigo primeiro-ministro era preso em circunstâncias que não entendemos muito bem. Mas foi com surpresa. Não estava à espera.

Tem opinião sobre aquilo que ele foi como primeiro-ministro?

Gostei, particularmente, do primeiro período e da primeira legislatura em que José Sócrates era primeiro--ministro. Obviamente, não concordava com todas as medidas. No entanto, olhei para essa primeira legislatura com, não digo agrado, mas com muitas surpresas positivas. Na segunda legislatura aconteceu que algo maior do que esse governo começou a desenvolver-se: esta crise. E, basicamente, aí ia olhando com preocupação, não especificamente para o que esse governo ia fazendo mas para o que ia acontecendo no mundo.

Acha que esse governo teve capacidade para lidar com esse monstro que foi a crise?

Esse governo e, em determinados momentos concretos, essa oposição não conseguiram responder, de forma musculada, ao que era a crise.

Teme que a situação judicial de Sócrates vá afetar estas eleições e o PS?

Não, não receio. E entendo, também, que existe, por parte da população portuguesa muita maturidade política. E isto digo não por uma opinião formada em Cambridge, sentado à secretária, mas acima de tudo porque conheço muita gente e tenho falado sobre todas as questões sem nenhum tipo de tabu com muita gente de vários quadrantes políticos. As pessoas entendem que, de certa forma, há águas que têm de ser separadas. E esta questão também faz parte da água deste país. Mas segue por outra ribeira e, desta ribeira, quem vai cuidar é a Justiça.

Que balanço faz da pré-campanha com o PS envolvido em polémicas?

Gosto muito de desporto. E não estou a fugir à pergunta. E não sou um amante de futebol mas também sigo com muita atenção o futebol. Imagine o final do Campeonato se analisar só a pré-época. E não estou a dizer que estamos na pré-época, mas o Arouca vai ser campeão? Não, não vai. O que está a acontecer agora, também por estarmos em silly season, acabará por ter um impacto que não quero dizer que é vestigial mas estará muito mais minimizado.

Acha que a gestão do episódio dos cartazes foi politicamente inteligente?

Se tivesse sido bem feita, o António Costa não tinha vindo pedir desculpa. Obviamente que há aselhice, foi o termo que ele usou, salvo erro. Acho que todos entendemos o que é uma aselhice. É um tiro ao lado. Não correu bem.

Votou sempre no PS?

Votei sempre em partidos de esquerda.

Mas nem sempre no Partido Socialista.

Nem sempre no Partido Socialista. Mas, se entendo bem o que são as realidades das eleições autárquicas - mas também das eleições legislativas - nos últimos anos em Portugal, é fácil de entender que, de certa forma, possamos ter afinidade, em momentos concretos, com outros partidos.

O que é que acha que tem falhado para que o PS se mostre incapaz de descolar nas sondagens?

Não acredito, e não acredito mesmo, que neste momento o PS esteja taco a taco com a coligação. Existe uma percentagem maior de portugueses a acreditar no PS como alternativa governativa. Ainda existe muito tempo para o debate de ideias e, com o debate de ideias, muitas coisas vão ficar claras.

E porque é que acha que há tantos indecisos?

Há muitos indecisos, acima de tudo, porque houve um período muito complicado da vida política portuguesa. Falámos aqui da falta de confiança na política, falámos da falta de confiança, até, relativamente aos políticos. Então as pessoas afastam-se e estão indecisas. Por outro lado, nesta altura de silly season, as pessoas muitas vezes demitem-se deste exercício que são as sondagens. Acredito que nas próximas semanas haverá um ponto de inflexão.

Mas isso acontece porque o PS tem dificuldade em passar a sua própria mensagem.

A mensagem do PS é muito clara. O PS foi o primeiro a dizer aqui está a agenda para a década; aqui está também o nosso programa eleitoral, ponto por ponto; aqui está, em termos de macroeconomia, o nosso cenário e com as contas todas feitas. O PS tem tentado, reiteradamente, mostrar aos portugueses aquilo que quer fazer, quais são as suas medidas, as suas políticas e por onde vamos caminhar, se o PS for governo, como acredito que vai ser. O interlocutor, no outro campo ideológico, não tem feito o mesmo trabalho - tem-se escondido, tem lançado algumas bombas e tem feito com que esse trabalho tão importante de credibilização da classe política, logo da política, não seja feito.

Já tem candidato presidencial, daqueles que são conhecidos?

Não. Neste momento, não tenho. Obviamente que olho e tenho a minha primeira impressão. Tenho simpatia, tenho até estima, por pessoas que estão nesta corrida.

Pode saber-se por quem?

Sim. A única pessoa que conheço é o professor Sampaio da Nóvoa, coincidi com ele num evento em Inglaterra. Agora, tenho também a capacidade prática e pragmática que a ciência me deu: tudo a seu tempo. E agora é tempo de edificar outras coisas. E, sabendo da pertinência e da importância das eleições presidenciais, vejo-as longe. Porque vejo outras batalhas que têm de ser travadas. É como se tivesse de jogar às cartas com um baralho eventualmente maior do que aquele que tenho ou há aqui cartas que não estou a ver. Mas dizem-me: "Não, não! Joga agora! Joga agora!" "E as outras cartas?" Quero conhecer o que vou ter, quero entender o que vou ter.

E as cartas que não está a ver estão à esquerda ou estão à direita?

O Presidente da República - isto parece um chavão -, tem mesmo de ser o Presidente de todos os portugueses. Obviamente que o Presidente da República funciona como filtro.

Deixe-me fazer esta pergunta, aproveitando a deixa. Maria de Belém fez bem em anunciar que iria ser candidata a Presidente da República no mesmo dia em que, de manhã, tinha ido ao Tribunal Constitucional entregar as listas do PS?

Digo que se fosse candidato a Presidente da República - e posso ser candidato, porque já tenho mais de 35 anos -, teria todos os cuidados para não interferir neste processo. E isto é a minha resposta clara. Se fosse candidato a Presidente da República, teria sentido de Estado, teria sentido de responsabilidade e faria tudo para não interferir. A Dra. Maria de Belém constrói os passos que quer construir para a sua candidatura. Eu não teria feito assim. Se fosse candidato a Belém, teria dado esses passos num tempo do antes ou num tempo do depois. O PS tem sido muito claro, tem-se mantido também de forma muito inteligente, astuta até, fora deste debate. Agora, acho que estarmos a pensar - e é isto que quero deixar mesmo marcado relativamente a esta questão -, nas eleições presidenciais neste momento é, individual e coletivamente, pôr o carro à frente dos bois.

Que avaliação é que faz do mandato do atual Presidente da República?

Não queria tecer muitos comentários relativamente ao atual Presidente. Não me é uma pessoa grata. Vejo a minha vida com o professor Cavaco Silva como primeiro-ministro ou como Presidente da República a entorpecer muitas das coisas, a entorpecer muitos garantes das garantias e das liberdades, mesmo, ou dos graus de liberdade que acredito que devem existir para construir o tal Estado de que falava antes.

Do que é que tem medo?

De que, nesta questão em concreto, nós, como povo, no dia de amanhã, estejamos tão macerados ao ponto de não continuarmos a exigir aquilo a que temos direito. Isto é, que baixemos as nossas expectativas para sermos cada vez melhores, cada vez maiores e conseguirmos construir cada vez mais um país como queremos. De coisas pessoais, felizmente, não há muitas de que tenha medo, a não ser que me falhem aqueles que me são próximos.

Não tem medo da morte?

Não equaciono a morte. Ou, pelo menos, a minha morte. Obviamente que equaciono a morte daqueles que me são próximos, que sei que é uma inevitabilidade. Quando temos 38 anos, estamos numa idade mais ou menos equidistante relativamente, não digo à nossa morte, mas à nossa velhice mais ou menos consolidada - aí já somos terceira idade - e da nossa infância, infância tenra. E, relativamente às questões da morte, continuo a lidar com elas como lidava quando tinha 5 anos: está lá longe, não faz parte de mim. Por outro lado, acho que tenho já lá longe ou consigo identificar coisas que não digo que sejam da terceira idade mas que muitas das pessoas da terceira idade me dizem com um sorriso: "Já vivi muito." Como me disse um amigo bastante mais velho: "Já não engulo sapos mas continuarei a engolir elefantes pelas coisas em que acredito." E é aí que estou.

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