Uso dos fundos da UE é a grande marca política que Cavaco deixa

Portugal teve desenvolvimento sem precedentes nos governos de Cavaco Silva, com muito dinheiro desaproveitado, dizem observadores

As alterações ocorridas após a entrada do país na Europa comunitária, para o bem e para o mal, são uma das grandes marcas que Cavaco Silva deixa na sociedade portuguesa, segundo diversas fontes ouvidas ontem pelo DN.

"A primeira marca" do ex-ministro das Finanças, antigo primeiro--ministro e Presidente da República cessante é a de que "ficará para sempre ligado a um ciclo virtuoso de mudança social e económica na sociedade portuguesa", visível nas "mudança das condições de vida" de muitos cidadãos, considerou o historiador António Costa Pinto.

No pólo oposto está o chefe da Casa Civil do antigo presidente da República Mário Soares, Alfredo Barroso: "A primeira marca [de Cavaco Silva] é como primeiro-ministro: acho que ele desaproveitou completamente as ajudas comunitárias decorrentes da entrada na então Comunidade Económica Europeia" - sendo que, como segunda marca referida por Barroso, "foi ele quem criou o chamado monstro das finanças públicas".

"Ironicamente", assinalou ainda Costa Pinto, "Cavaco Silva fica também ligado a uma imagem particularmente negativa do seu círculo político e dos escândalos associados". Em Belém, "usou os poderes presidenciais com grande parcimónia" e, também "por culpa própria mas sobretudo por ter ficado associado a este ciclo muito difícil de austeridade", deixa o cargo "como um dos presidentes com menor quota de popularidade", observou.

Luís Marques Mendes, que foi ministro de Cavaco Silva, sublinhou que os seus 10 anos como primeiro-ministro "foram aqueles em que o país mais cresceu e se desenvolveu. Pode depois discutir-se se o foi da forma mais correta, mas esse foi o período de maior crescimento" registado em Portugal.

Rui Ochôa, que foi fotógrafo oficial de Cavaco Silva, disse que "o país desenvolveu-se muito com os 10 anos em que governou" - não só com as infraestruturas construídas com os fundos comunitários, que "acabaram por ser um exagero mas estão lá e são usadas", mas por exemplos como o "abrir a imprensa, nomeadamente a rádio e a televisão, aos privados".

O fotojornalista referiu ainda que "foi um feito muito grande ter conseguido" ser eleito como Chefe do Estado quando os antecessores "tinham sido todos de esquerda e era muito difícil ganhar à direita ou mais ao centro". Contudo, "não soube gerir o segundo mandato, afastou-se ou afastaram-no das pessoas e não foi da melhor forma", além de que "podia ter tido mais coragem para ter sabido parar alguns processos de governação que foram ruinosos para o país", concluiu.

Marques Mendes, destacando "a longevidade da carreira política" de Cavaco, "pois ninguém tem 10 anos de primeiro-ministro e 10 como Presidente e nunca ninguém terá no futuro, porque é uma marca difícil de igualar", evocou o seu "currículo eleitoral inédito, com cinco vitórias, quatro com maiorias absolutas acima de 50%, o que é um resultado que nunca sucedeu e dificilmente voltará a ocorrer". Porém, enfatizou, "há uma marca, não concretizada, que é a dos consensos políticos. Foi talvez a impressão digital mais forte que quis colocar nos seus mandatos, embora não tivesse tido sucesso" nesse objetivo.

Para Alfredo Barroso, Cavaco "foi um Presidente de fação e contraditório, porque derrubou um governo invocando que os portugueses já tinham sofrido demasiados sacrifícios e acabou a apoiar outro que ainda os aumentou".

O general Loureiro dos Santos, ex-chefe do Exército, além de reconhecer também "a permanência prolongada" de Cavaco "em lugares de responsabilidade política", salientou a "marca de rigor" e a de "uma certa insensibilidade relativamente aos problemas das pessoas".

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