Uma equipa com regressos anunciados e novas caras

Quem são, um a um, os 17 ministros e três secretários de Estado de António Costa

Os novos ministros do governo de António Costa formam um conjunto de personalidades com experiência política e com lugar preanunciado, casos de Mário Centeno, Vieira da Silva e Caldeira Cabral, e de novos elementos em áreas de certa forma sensíveis, como são exemplos Tiago Brandão Rodrigues, na Educação, e Azeredo Lopes, na Defesa. Com Francisca van Dunem a destacar-se na Justiça por ser magistrada e negra.

1 - Ministro adjunto, Eduardo Cabrita

Foi secretário de Estado adjunto de Costa no Ministério da Justiça e é agora chamado de novo para junto do líder, desta vez na Presidência do Conselho de Ministros. É jurista de formação e foi protagonista de um dos momentos mais constrangedores na AR quando disputou a utilização de um microfone com Paulo Núncio, o secretário de Estado de Assuntos Fiscais.

2 - Ministério das Finanças, Mário Centeno

Foi o coordenador do programa macroeconómico do PS, é economista do Banco de Portugal e especialista em mercado de trabalho. Liberal convicto e muito respeitado como investigador, defende ideias como a introdução do contrato de trabalho único. O seu nome já era quase adquirido nas Finanças, pelo que não gerou grandes reações. O objetivo será ajudar a economia a crescer mais já no próximo ano.

3 - Ministério da Economia, Caldeira Cabral

Especialista em competitividade, desenvolve há anos trabalho sobre o setor exportador e inovação. É professor na Universidade do Minho e defensor da desvalorização fiscal (redução da taxa social única das empresas), mas focada nos exportadores. É aqui que reside o seu maior desafio: os exportadores detêm quase 40% do volume de negócios nacional, mas a ideia é subir a fasquia até 60%.

4 - Ministério do trabalho e Segurança Social, José Vieira da Silva

Foi ministro da Segurança Social de Sócrates. Regressa à pasta das pensões numa altura em que o sistema volta a ser carimbado de "insustentável". Diz que é possível encontrar novas formas de financiamento e poupar nos apoios não contributivos.

Carlos Silva, da UGT: "Abre as melhores perspetivas para um franco diálogo. Já deu provas no passado."

5 - Ministério do Ambiente, João Matos Fernandes

Não é estreante em executivos PS. Entre 1995 e 1997 foi adjunto do secretário de Estado dos Recursos Naturais, e de 97 e 99 foi chefe de gabinete do secretário de Estado adjunto da ministra do Ambiente, Elisa Ferreira, durante o primeiro governo de António Guterres. Foi administrador dos portos de Leixões e de Viana do Castelo e era, até agora, o presidente da Águas do Porto.

6 - Ministério do Planeamento, Pedro Marques

Um dos ministros mais jovens (39 anos). Formado pelo ISEG, foi o braço direito de Vieira da Silva entre 2005 e 2011. Deputado de 2011 a 2014, saiu para trabalhar numa consultora. Fica com as obras públicas. O seu maior desafio é gerir uma área que é das maiores fontes de endividamento do Estado, mas que em simultâneo é decisiva para o crescimento.

7 - Ministério da Modernização Administrativa, Maria Manuel Leitão Marques

É o regresso à "casa" da modernização administrativa da mulher que foi "mãe" de uma das bandeiras mais simbólicas do governo Sócrates: Simplex. Foi coordenadora da Agenda para a Década, na qual foram definidas as linhas mestras do programa eleitoral de Costa. O cartão do cidadão, o documento único do carro e a empresa na hora, foram obras suas.

8 - Ministério da Defesa, Azeredo Lopes

Professor de Direito e doutor em Ciências Jurídico-Políticas, especialista em assuntos marítimos e de governação dos oceanos, é conhecido pelas suas posições contundentes. Primeiro presidente da entidade reguladora dos media, não tem ligações conhecidas às Forças Armadas - onde existem responsáveis militares que atuam em função do seu entendimento particular da Constituição e das leis e se substituem às autoridades civis. A sua ação deverá estar facilitada por uma reforma do setor que o programa do PS não questiona.

"Não o conheço. Deve tratar dos assuntos da família militar, que têm sido cortados", opinião do general Loureiro dos Santos.

9 - Ministério da justiça, Francisca Van Dunem

A procuradora-geral adjunta está desde 2007 à frente dos destinos da Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa. Antes, liderou o DIAP de Lisboa. Veio de Angola nos anos 1970 para se licenciar em Direito pela Faculdade de Lisboa, curso que acabou em 1977. Fez sempre a carreira no Ministério Público. Não lhe é conhecida qualquer ligação partidária. Casada com Eduardo Paz Ferreira (este, sim, com ligações ao PS), é amiga de Cândida Almeida, ex-diretora do Departamento Central de Investigação e Ação Penal.

Fernando Jorge, presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais, defende que a prioridade é a alteração ao mapa judiciário. E esse será o grande desafio da nova ministra da Justiça.

10 - Ministério da Agricultura, Capoulas Santos

Herda uma das pastas que serviu ao CDS como bandeira de sucesso, diferente de quando foi ministro entre 1998 e 2002, altura em que a Política Agrícola Comum quase ditou o fim da agricultura no país. Afastado por Seguro, regressa agora com Costa.

João Dinis, da CNA: "Importante é ver se há a tal mudança que é necessáriana política agrícola."

11 - Ministério dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva

Sociólogo e professor universitário, estreou-se no governo como secretário de Estado da Administração Educativa. Aos 59 anos, já foi foi ministro da Educação e da Cultura com Guterres e dos Assuntos Parlamentares e Defesa com Sócrates. O maior desafio para Santos Silva é fazer diplomacia pura e dura. Mais do que "vender" Portugal lá fora.

12 - Ministério da Cultura João Soares

Apontado para a Defesa mas fica na Cultura, retomando um trabalho que construiu nos cinco anos em que foi vereador com este pelouro na Câmara de Lisboa. Formado em Direito, tem 66 anos, cinco filhos e fez a vida profissional enquanto político e editor. Cultura e política foram caldo em que cresceu, numa família em que ambas as atividades se harmonizaram sempre.

13 - Ministério da Saúde, Adalberto Campos Fernandes

Fica à frente de uma das pastas mais importantes. Adalberto Campos Fernandes, 56 anos, foi o coordenador do grupo para os estudos da Saúde do PS. Licenciado em Medicina, tem especialização em Saúde Pública e formação em Gestão. Foi presidente do conselho de administração dos hospitais de Santa Maria e Cascais e estava à frente da comissão executiva do SAMS (sistema dos bancários). É professor na Escola Nacional de Saúde Pública e na semana passada defendeu a tese de doutoramento.

Para José Manuel Silva, bastonário dos médicos, o novo ministro reúne todas as qualidades para fazer um bom trabalho na Saúde. Entre os grandes desafios estão a sustentabilidade e melhor acesso ao SNS.

14 - Ministério da Administração Interna, Constança Sousa

Jurista licenciada na Universidade de Coimbra, tal como os seus antecessores do governo PSD-CDS, Anabela Rodrigues e Miguel Macedo, tem "munições" suficientes para dar brio ao ministério, onde já esteve como adjunta de António Costa e Nuno Severiano Teixeira. Com vasta experiência em temas de Justiça e Administração Interna, resultante do seu trabalho na União Europeia, especializou-se na área das migrações e fronteiras. Foi uma das fundadoras, em 2013, do Grupo de Reflexão Estratégica de Segurança Interna, que produziu o primeiro Conceito Estratégico de Segurança Interna.

César Nogueira, da associação da GNR, afirma: "Já esteve no ministério, não deve desconhecer asproblemáticas das polícias."

15 - Ministério da Educação, Tiago Brandão Rodrigues

Investigador da Universidade de Cambridge, com trabalho reconhecido na avaliação da eficácia dos tratamentos contra o cancro, é quase desconhecido na área que vai tutelar. Tiago Brandão Rodrigues, filho de professores primários, tem 38 anos.

A Fenprof não hostiliza: "Não é mau ter um jovem. Será bom rodear-se de uma equipa que o apoie."

16 - Ministério do Mar, Ana Paula Vitorino

Ex-secretária de Estado dos Transportes, vai liderar setor que pela primeira vez tem estatuto de ministério com o PS. Gerir interesses económicos, alargar a plataforma continental e negociar com Bruxelas são prioridades. Terá como principal desafio desmilitarizar o mar, tutelando todos os poderes de autoridade marítima, portuária e administração marítima.

17 - Ministério da Inovação, Ciência e Ensino Superior, Manuel Heitor

Foi secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior nos dois governos de Sócrates, quando era titular da pasta Mariano Gago, falecido em abril. Esteve envolvido no aumento do financiamento público e privado para a ciência.

SneSup acredita na resolução dos problemas do desinvestimento e daprecariedade laboral.

18 - Secretária de Estado Adjunta do primeiro-ministro, Mariana Vieira da Silva

Esta socióloga, com a intervenção política a correr-lhe nas veias (é filha do indigitado ministro Vieira da Silva), inscreveu-se no PS em 2002, quando o então secretário-geral Ferro Rodrigues perdeu as eleições para Durão Barroso. Tem 37 anos e fez parte da direção do gabinete de estudos que coordenou todo o programa eleitoral socialista. É da comissão política nacional do PS.

19 - Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Miguel Prata Roque

Advogado, professor da Faculdade de Direito de Lisboa, Doutor em Direito Administrativo, já teve uma experiência governativa, no executivo de Sócrates, como ministro-adjunto dos Assuntos Parlamentares. Crítico em relação à venda da TAP, disse que se "ludibriou" o Direito vigente para obter o sucesso de uma operação de privatização de uma empresa estratégica.

20 - Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos

O "negociador" profissional do PS. Esteve no centro das recentes conversações com BE e PCP e vai agora continuar a negociar toda a legislação que vai ser produzida e que terá de ter o consenso dos três partidos de esquerda. Foi cabeça de lista por Aveiro, onde o PS perdeu para a coligação PAF, com apenas cinco deputados eleitos, contra dez do PSD-CDS.

Exclusivos

Premium

Primeiro-secretário da Área Metropolitana de Lisboa

Carlos Humberto: "Era preciso uma medida disruptiva que trouxesse mais gente ao transporte coletivo"

O novo passe Navegante abriu aos cidadãos da Área Metropolitana de Lisboa a porta de todos os transportes públicos, revolucionando o sistema de utilização dos mesmos. A medida é aplaudida por todos, mas os operadores não estavam preparados para a revolução e agudizaram-se problemas antigos: sobrelotação, tempos de espera, supressão de serviços, degradação de equipamentos.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Berlim, junto aos Himalaias

Há 30 anos exatos, Berlim deixou de ser uma ilha. Vou hoje contar uma história pessoal desse tempo muralhado e insular, num dos mais estimulantes períodos da minha vida. A primeira cena decorre em dezembro de 1972, no Sanatório das Penhas da Saúde, já em decadência. Com 15 anos acabados de fazer, integro um grupo de jovens que vão treinar na neve abundante da serra da Estrela o que aprenderam na teoria sobre escalada na neve e no gelo. A narrativa de um alpinista alemão, dos anos 1920 e 1930, sobre a dureza das altas montanhas, que tirou a vida a muitos dos seus companheiros, causou-me uma forte impressão. A segunda cena decorre em abril de 1988, nos primeiros dias da minha estada em Berlim, no árduo processo de elaboração de uma tese de doutoramento sobre Kant. Tenho o acesso às bibliotecas da Universidade Livre e um quarto alugado numa zona central, na Motzstrasse. Uma rua parcialmente poupada pela Segunda Guerra Mundial, e onde foram filmadas em 1931 algumas das cenas do filme Emílio e os Detectives, baseado no livro de Erich Kästner (1899-1974).Quase ao lado da "minha" casa, viveu Rudolf Steiner (1861-1925), fundador da antroposofia. Foi o meu amigo, filósofo e ecologista, Frieder Otto Wolf, quem me recomendou à família que me acolhe. A concentração no estudo obriga a levantar-me cedo e a voltar tarde a casa. Contudo, no primeiro fim de semana almoço com os meus anfitriões. Os dois adolescentes da família, o Boris e o Philipp, perguntam-me sobre Portugal. Falo no mar, nas praias, e nas montanhas. Arrábida, Sintra, Estrela... O Philipp, distraidamente, diz-me que o seu avô também gostava de montanhas. Cinco minutos depois, chego à conclusão de que estou na casa da filha e dos netos de Paul Bauer (1896-1990), o autor dos textos que me impressionaram em 1972. Eles ficam surpreendidos por eu saber da sua existência. E eu admirado por ele ainda se encontrar vivo. Paul Bauer foi, provavelmente, o maior alpinista alemão de todos os tempos, e um dos pioneiros das grandes montanhas dos Himalaias acima dos 8000 metros. Contudo, não teria êxito em nenhuma das duas grandes montanhas a que almejou. As expedições que chefiou, em 1929 e 1931, ao pico de 8568 metros do Kanchenjunga (hoje, na fronteira entre a Índia e o Nepal) terminaram em perdas humanas. Do mesmo modo, o Nanga Parbat, com os seus 8112 m, seria objeto de várias expedições germânicas marcadas pela tragédia. Dez mortos na expedição chefiada por Willy Merkl, em 1934, e 16 mortos numa avalancha, na primeira expedição comandada por Paul Bauer a essa montanha paquistanesa em 1937. A valentia dos alpinistas alemães não poderia substituir a tecnologia de apoio à escalada que só os anos 50 trariam. Bauer simboliza, à sua maneira, esse culto germânico da vontade, que tanto pode ser admirável, como já foi terrível para a Alemanha, a Europa e o mundo. Este meu longo encontro e convívio com a família de Paul Bauer, roça o inverosímil. Mas a realidade gosta de troçar do cálculo das probabilidades.