Um primeiro-ministro que decide como quem constrói um puzzle

Ouvir muitos, talvez demasiados; decidir sozinho. Há quem lhe elogie o "cartesianismo" e quem o considere "errático"

Todos os perfis garantem que uma das suas atividades favoritas de António Costa é fazer puzzles, e quanto mais complicados melhor. E se decidisse seguindo o mesmo processo, de espalhar todas as peças em caos à sua frente e começar a encontrar uma ordem nas formas, cores, ideias, noções, dados? Graça Fonseca, desde quinta-feira secretária de Estado da Modernização, trabalha com ele ou sob a sua égide desde 2000 e acha isso mesmo: que o processo de decisão do primeiro-ministro emula o hobby. "Consegue ver as peças todas que levam à decisão. É como se tivesse 1500 peças à frente espalhadas no chão; olha e percebe o que encaixa em quê. Que coisas que à partida se acharia que não encaixam acabam por se encaixar."

As peças serão não só os dados básicos, factuais, do problema - outro colaborador de longa data ouvido pelo DN garante que "gosta de ler muita coisa técnica sobre os assuntos" - mas também as opiniões de muita gente. Quanta e quem, depende dos assuntos e das alturas. Pedro Adão e Silva, sociólogo e comentador político, faz parte do variado leque dos consultados. "Vou falando com ele e geralmente por telefone, por sms - ele fala muito por sms. Há umas fases em que falo mais e ou outras em que falo menos. Decide falando com muitas pessoas e em conversas cruzadas. É um padrão muito diferente do mais habitual, que envolve muitas conversas bilaterais." E ouve mesmo, ou só quer ouvir-se? "Ouve - e liga para ouvir. Padrão de interação não tem registo adversativo. As conversas não são contra-argumentos, não são disputas. E forma a decisão tendo em conta o que ouviu. Uma coisa importante que se reflete não só na formação do governo - os ministros que vêm mais "de fora", mais inesperados, resultam disso - e outras equipas dele: ele tem esse lado de charneira, ouve pessoas muito variadas de sítios diferentes, não só da área mais estrita da política. E isso também resulta nas decisões. Tem capacidade de envolver e ouvir pessoas para além do espaço político do PS." Algo que, comenta Adão e Silva, "é relativamente incomum. Os políticos quase todos estão metidos numa redoma. Uma das coisas de que ele se queixa é de que quando era presidente de Câmara estava mais imerso no país, e perdeu um pouco isso quando passou a ser secretário geral do PS." O deputado recém nomeado porta-voz do PS João Galamba confirma. "Para além dos órgãos formais do partido, nomeadamente do secretariado, ele procura a opinião de várias pessoas de modo informal." Uma informalidade que, prossegue, "está em processo de formalização com a formação do governo."

Decidir "aos solavancos"

Mas aquilo que para uns será uma qualidade para outros surge como óbice. "Devia ouvir se calhar menos pessoas e tomar decisões de modo mais colegial", diz quem de vez em quando é consultado e (como tantas outras pessoas ouvidas pelo DN) não quer ser nomeado. E, às vezes, diz outra pessoa nas mesmas condições, "toma decisões incompreensíveis que não se sabe de onde vêm porque as pessoas com quem falou estão todas em desacordo." Outra ainda: "Não é indeciso. Mas é uma pessoa que parece que vai tomando a decisão aos bocadinhos, aos solavancos até. Muitas vezes parece que toma a decisão mas não toma. Diz "então se calhar vamos fazer assim", sai tudo da reunião a achar que já está, e depois leva mais três dias e muda de ideias três vezes. Um bocado caótico do ponto de vista dos outros mas não da sua própria cabeça. É como aquelas pessoas que têm a secretária completamente desarrumada mas sabem onde está tudo. E muitas vezes o ponto de chegada é completamente surpreendente."

Criatividade pode ser a explicação. "Tem muita", diz Manuel Alegre. "Tem um lado muito político, a capacidade de encontrar soluções. Ainda no outro dia me disse, a propósito de querer ou não ser PR: "Eu gosto de fazer coisas." E não é dogmático." Graça Fonseca corrobora: "É das pessoas mais criativas que conheço do ponto de vista da decisão." E Helena Roseta: "É uma mistura de paciência, inteligência e criatividade." Tendo, também, outra qualidade que a atual deputada socialista, ex-presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, louva: "A capacidade de descrispar. Lembro-me de reuniões de 12 horas em que ele conseguia pôr as pessoas todas a rir."

Encantos e desencantos

E afinal a quem pergunta António Costa opinião? Há nomes que o acompanham ao longo dos anos - com baixas como Armando Rafael, que foi jornalista do DN e várias vezes seu assessor, seu chefe de gabinete na CML à data da morte, em novembro de 2007, e António Manuel, assessor do PS desaparecido em 2011 - como José Manuel dos Santos, assessor cultura dos presidentes Soares e Sampaio, os ex colegas do curso de Direito e advogados José Manuel Mesquita e Diogo Machado Lacerda e Duarte Moral, outro ex-jornalista do DN que foi seu assessor várias vezes ao longo dos anos.

Hoje em dia, todos apontam a secretária de Estado Adjunta Mariana Vieira da Silva (com quem o DN não conseguiu chegar à fala) como uma das vozes que Costa mais preza: "Vai ser o braço direito dele", diz mais um colaborador que quer ser anónimo. Outros dois secretários de Estado - Fernando Rocha Andrade, que foi seu assessor no tempo da secretaria de Estado dos Assuntos Parlamentares (primeiro Governo Guterres), agora nos Assuntos Fiscais, e Pedro Nuno Santos, nos Assuntos Parlamentares - são apontados como fazendo parte do "núcleo duro". Que incluirá também Maria Manuel Leitão Marques, e os pesos pesados da política Augusto Santos Silva e Vieira da Silva, além dos deputados Ana Catarina Mendes, Carlos César e João Galamba. Uma surpresa no rol é o eurodeputado Pedro Silva Pereira, considerado braço direito de José Sócrates enquanto governante e que, garantem ao DN, é bastante consultado por Costa. E ainda Fernando Medina, que o sucedeu na presidência da Câmara, e Duarte Cordeiro, que dirigiu a campanha socialista depois de Ascenso Simões se ter demitido, na sequência do chamado "escândalo dos cartazes".

Mas, e frisa um colaborador, "qualquer pessoa que se apresente como principal conselheiro de António Costa ou está a armar-se ou está convencido de uma coisa que não é verdade. Ele encanta-se com pessoas para determinados efeitos e fala intensivamente com elas e depois muda o chip e passa para outras. A pessoa até pode pensar que fez ou disse algo errado. Mas não, é assim."

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