Um mês depois, PSD quer ganhar voz na oposição

Depois de um mês turbulento e na semana em que é lançado o Conselho Estratégico, dirigentes laranja esperam virar a página

Fechada a polémica em torno de Feliciano Barreiras Duarte, nas vésperas de ser apresentada a versão final do Conselho Estratégico Nacional (CEN), e com um Conselho Nacional à porta que espera pacífico, a direção do PSD acredita estar agora perante um virar de página face ao conturbado primeiro mês da liderança de Rui Rio.

Ontem, o presidente social-democrata saiu para o terreno para visitar concelhos afetados pelos incêndios do verão passado. Amanhã, o partido reúne a Comissão Política Nacional, no encontro que dará o pontapé de saída para a implementação do CEN, e o líder reúne pela primeira vez com os líderes distritais dos partidos. Para a próxima terça-feira está marcado o Conselho Nacional que deverá ratificar José Silvano como novo secretário-geral, uma eleição em que não são esperadas surpresas. Apesar de Rio não ter maioria naquele órgão, o nome do deputado não levantou particulares reservas entre os setores mais críticos.

A constante turbulência que marcou o primeiro mês de Rio, e sobretudo o arrastar da polémica em torno do secretário-geral, já motivou reparos de pesos pesados do partido. Na passada semana, Pedro Santana Lopes manifestava o desejo de que o presidente do partido estivesse "finalmente em condições de inaugurar a sua liderança". Marques Mendes já tinha dito, dias antes, que Rui Rio "se está a deixar queimar em lume brando" e que andou uma semana "aos bonés" no caso Barreiras Duarte. E avisava que "não há vazios em política", pelo que "enquanto não tiver causas para apresentar, [Rio] vai ter casos como estes". Este fim de semana, Marco António Costa, vice do partido na presidência de Passos Coelho avaliou como "pouco positivo" o primeiro mês de Rio e, em entrevista ao DN, afirmava que o líder tem de "encontrar um caminho para poder comunicar com os portugueses".

À espera do CEN

A expectativa, entre os dirigentes sociais-democratas, é que a implementação do Conselho Estratégico Nacional permita agora ao PSD fazer uma marcação cerrada ao governo de António Costa.

"Houve alguns contratempos, neste primeiro mês, que desviaram a atenção daquilo que é o rumo que está a ser traçado pela direção. Gostávamos que não tivessem acontecido, aconteceram", diz Rui Rocha, presidente da distrital de Leiria e vogal da Comissão Política do PSD, para acrescentar que "depois de estabilizadas estas situações" o partido tem agora de focar-se na oposição ao governo e trazer para a ribalta os temas que preocupam o partido. E que já estão, pelo menos em parte, sinalizados - a saúde, a preparação para os fogos, a entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no capital do Montepio. Rui Rocha destaca o papel do CEN numa discussão mais alargada de temas e na construção de propostas alternativas.

Salvador Malheiro, vice-presidente e líder da distrital de Leiria dos sociais-democratas cita Rui Rio e diz que o CEN será uma "revolução no partido". O dirigente social-democrata não quer falar em ruturas com o último mês, que diz ter "corrido bem" - "Temos um feedback muito positivo da opinião pública. Pública, não publicada". E garante que o partido está "preparado para ir para o terreno", "não para fazer demagogia nem populismo, mas para apresentar medidas alternativas".

Amanhã, Rio reúne pela primeira vez com as estruturas distritais. Bragança Fernandes, presidente da distrital do Porto (que foi apoiante de Santana Lopes na corrida à liderança) diz que, agora "que está instalada a casa", é tempo de trabalhar". Olhando para trás, o balanço deste primeiro mês da nova liderança "foi o possível" - estes "primeiros tempos não foram fáceis" - mas adverte que o PSD tem de acertar agulhas. "Os conflitos internos têm que acabar de vez, não podemos viver sempre em conflito", diz o líder da maior distrital social-democrata, sublinhando que o PSD "quase não tem feito oposição", de tão enredado que tem andado nas polémicas internas. Bragança Fernandes sublinha que "vozes críticas há sempre", mas "tem que se dar a Rui Rio a possibilidade de liderar": "Está na altura de afirmação, de ir para o terreno, de olharmos todos para o mesmo objetivo, que é ganhar as legislativas".

Pedro Alves, deputado e líder da distrital de Viseu (que apoiou Rui Rio, mas acabou por ver a estrutura que dirige "esquecida" na distribuição de lugares dos órgãos nacionais) fala num período de adaptação, do novo líder ao partido e vice-versa, e em "um outro episódio menos feliz que acabou por perturbar a mensagem do partido". Agora está na altura de dar o passo seguinte, a começar já na reunião de amanhã: "Tenho a expectativa de que haja aqui um conjunto de propostas e orientações para que o PSD trabalhe uma alternativa" ao governo de esquerda. Maurício Marques, presidente da distrital de Coimbra, alinha no mesmo sentido, destacando a articulação entre as estruturas do partido que espera que saia da reunião de amanhã.

Um líder a prazo?

O semanário Expresso avançava, este fim de semana, que entre os críticos já há quem admita o cenário de Rui Rio não chegar às legislativas de 2019 como presidente do PSD. No habitual comentário semanal, Marques Mendes chamou-lhe um "disparate monumental" e uma "loucura completa". Para Rui Rocha este é um cenário que "nem merece comentários" - "Tivemos eleições internas recentes, apresentaram-se os candidatos que quiseram, houve duas candidaturas que mobilizaram o partido durante meses, os militantes votaram livremente. Isso é tão descontextualizado que nem vale a pena comentar". "É completamente absurdo", diz também Pedro Alves.

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