Um governo político que vai negociar tudo. À imagem de Costa

Núcleo duro forte e independentes com currículo: o primeiro-ministro indigitado quer um executivo de combate pronto para negociações.

António Costa chamou 17 ministros (só quatro mulheres) para um governo com um fato que assenta à sua imagem e semelhança: um governo político, que terá de fazer da negociação o seu dia-a-dia e um núcleo disponível para o combate político.

Há nomes fortes em pastas importantes, independentes de currículo feito e surpresas a polvilhar o executivo, no qual o ministro das Finanças não será um "gaspar" socialista - Mário Centeno é um entre iguais, mas trazendo o lastro do homem das contas feitas ao programa do PS, que será garante de credibilidade. Como será também Manuel Caldeira Cabral, o economista para a Economia.

Junte-se-lhes Augusto Santos Silva nos Negócios Estrangeiros, Vieira da Silva na Segurança Social, Pedro Marques no Planeamento e Infraestruturas, e Eduardo Cabrita, como ministro-adjunto e a coordenação política do Governo. São socialistas de peso em pastas que Costa foi sinalizando, no último ano, como importantes para as linhas condutoras de uma governação socialista.

O primeiro-ministro indigitado (ou "indicado", como escreveu o Presidente da República no comunicado em que o anunciou urbi et orbi) conhece bem a necessidade de negociar: foi assim nos anos como ministro dos Assuntos Parlamentares do único governo minoritário que completou uma legislatura (o primeiro de Guterres) e na Câmara de Lisboa, onde começou a governar com uma minoria de menos de 30%. E Pedro Nuno Santos - o negociador que o PS teve na Comissão de Inquérito ao BES e na equipa que discutiu as "posições conjuntas" com a esquerda - será o pivô para essa estratégia.

É também esta experiência que Costa terá de repetir, com o executivo que vai liderar. Também por isso os independentes que o secretário-geral do PS apresentou parecem responder à necessidade de um entendimento permanente à esquerda (os acordos mínimos assinados com BE, PCP e PEV a isso obrigam), como à possibilidade de alargamentos pontuais da discussão com a direita.

Os currículos são quase irrepreensíveis, mesmo se alguns pareçam estar acomodados nas pastas erradas. O cientista Tiago Brandão Rodrigues ficou na pasta da Educação, mas foi ele que deu a cara pelo PS no período pré-eleitoral nos debates nesta área. E não se conhece pensamento no campo da Defesa a Azeredo Lopes.

Por oposição, Francisca Van Dunem e Constança Urbano de Sousa tem um currículo talhado para os gabinetes da Justiça e da Administração Interna. Como Adalberto Campos Fernandes na Saúde e Manuel Heitor na Inovação, Ciência e Ensino Superior. Sobra a incógnita de como se comportarão politicamente.

Ontem, no Parlamento, o PS teve reuniões de trabalho com BE, PCP e PEV (os grupos de trabalho serão constituídos depois da posse do Governo), para afinar o que aí vem - amanhã debate-se a sobretaxa. A porta-voz do BE, Catarina Martins, dizia ontem que "começa agora um novo ciclo". "Haveremos de ter um país um pouco mais justo."