Um governo de militantes feito à medida do PS e para quatro anos

Passos reafirmou que este é um "governo para quatro anos". Dois novos ministérios eram defendidos pelo PS

Uns chamam-lhe "teimoso", outros "formalista". No dia em que apresentou o novo executivo ao Presidente da República, Passos Coelho insistiu: "Este é um governo para quatro anos." A frase foi dita ontem à tarde pelo primeiro-ministro no órgão de cúpula do PSD (a comissão política permanente) e foi revelada ao DN por dois dirigentes presentes.

Mais do que a persistência (e o otimismo), ontem foi o dia de se conhecer o novo executivo de Passos Coelho. A composição denuncia uma estratégia: um governo feito com "prata da casa", com o "núcleo duro" do anterior elenco e com uma orgânica próxima do que o PS defende ( na criação dos ministérios da Modernização Administrativa e da Cultura).

Podia surgir a ideia de que o recrutamento feito internamente poderia significar que este é um governo para 15 dias (contando com o anunciado chumbo da esquerda no Parlamento), mas Passos Coelho recusa essa tese, mesmo perante o mais restrito núcleo político do PSD.

Um vice-presidente do PSD explicou ao DN que "mantém-se a estratégia de seguir passo a passo. Ele não podia ter dito outra coisa, que não que o governo era para quatro anos. Ainda para mais ele é um formalista".

Um outro dirigente com assento permanente revelou que na reunião o presidente do PSD falou na "gente de qualidade que integra o executivo" e na "importância dos novos ministérios e acima de tudo a autonomização dos Assuntos Parlamentares, que demonstra o reconhecimento das dificuldades. E teimou que era para quatro anos".

No final desta reunião o vice-presidente do PSD, Marco António Costa, assumia mesmo que o XX governo preserva "o seu núcleo político essencial, garantindo uma segurança aos portugueses quanto à condução e à estabilidade das políticas fundamentais que importa garantir para o futuro do país".

Para Marco António Costa este é "um governo de amplo fôlego político, que capta personalidades altamente respeitáveis, com experiência política, mas com carreiras profissionais e académicas de grande relevância".

O dirigente do PSD assumiu ainda a "aposta no papel dos Assuntos Parlamentares", que se realizou "atendendo à composição da Assembleia da República". Carlos Costa Neves será um ministro dedicado, exclusivamente, às negociações no Parlamento.

Fora da cúpula laranja, a perspetiva continua a ser de governo a prazo. Mas as direções da coligação PSD-CDS apostam em acelerar todo o processo - a ida a Itália do Presidente atrapalha um pouco - para pressionar a esquerda. Há na direita a esperança de que o programa passe por falta de comparência de um acordo da esquerda - que, por sua vez, iniba o veto do PS.

Os próximos dias vão ser preponderantes. E a coligação prepara-se para o combate: a ideia é demonstrar unidade e estabilidade e, para isso, manteve vários ministros e jogou pelo seguro nas novas caras.

O novo governo é fortemente partidarizado e assenta numa perspetiva de continuidade, com 12 dos 17 ministros a transitarem do anterior executivo (nove já eram ministros e três ex-secretários de Estado). Dos oito novos ministros só há cinco novatos no executivo e, desses, dois já tinham sido ministros em governos de coligação.

O "cartão de militante" pesou. Passos Coelho escolheu nomes que são militantes, dirigentes ou muito próximos de PSD e CDS. Mesmo entre os independentes (como Rui Medeiros e Margarida Mano) é possível encontrar esses laços: a professora universitária, por exemplo, é independente mas foi cabeça de lista em Coimbra nas legislativas.

Algumas das principais pastas governativas como as Finanças (Maria Luís Albuquerque), os Negócios Estrangeiros (Rui Machete) e a Defesa (Aguiar-Branco) continuam a ser lideradas por quem as ocupava no anterior executivo. Os ministros de Estado são os mesmos. Passos e Portas mantêm, naturalmente, as posições de primeiro-ministro e vice-primeiro-ministro.

Também repetentes são Jorge Moreira da Silva (Ambiente) e Luís Marques Guedes, que acumula a Presidência (pasta que já tinha) com o Desenvolvimento Regional.

Os ministros do CDS também continuam os mesmos e nas mesmas pastas, à exceção da já mais que anunciada saída de António Pires de Lima da Economia. Pedro Mota Soares mantém-se na Segurança Social e Assunção Cristas na Agricultura. Na Economia sai CDS, entra CDS: Miguel Morais Leitão é o novo ministro. O PSD ganha força à proporção no governo: enquanto o CDS mantém os seus quatro ministros, o PSD fica com mais dois.

O novo governo vai agora finalizar o programa de governo. O Presidente Cavaco Silva dá posse aos ministros na sexta-feira ao meio-dia. PSD e CDS têm depois dez dias para apresentar o programa na Asembleia, mas ao que o DN apurou a coligação não conta ir até ao limite do prazo, mantendo a tal estratégia de acelerar. Neste momento estão a ser feitos convites aos secretários de Estado. Um vice-presidente do PSD desmente dificuldades em obter resposta positiva aos convites: "Se com os ministros foi fácil, com os secretários de Estado também é: são menos os que querem sair."

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