Um debate sobre uma cidade que vive a duas velocidades

Estiveram todos contra Medina, mas candidatos da CDU e do BE também apontaram o dedo à direita

Da direita à esquerda, Fernando Medina foi o alvo óbvio de todos os seus adversários, no primeiro debate televisivo para as eleições autárquicas em Lisboa, esta quarta-feira à noite na SIC, em que a habitação, a mobilidade e o turismo foram os temas omnipresentes no confronto entre o atual presidente da Câmara da capital, o socialista Fernando Medina, a social-democrata Teresa Leal Coelho, o comunista João Ferreira, a centrista Assunção Cristas e o bloquista Ricardo Robles.

Para os oponentes de Medina, a cidade vive a duas velocidades, para os de dentro e os de fora, os que estão nas zonas históricas e centrais e os que vivem na "Lisboa esquecida", expressão usada por João Ferreira e Teresa Leal Coelho. "Há uma noção de prioridades na gestão do orçamento [municipal] que torna muito evidentes as opções que são feitas. Lisboa é hoje uma cidade de profundos contrastes", atirou já no final o candidato do PCP, depois de se referir às verbas arrecadas pela autarquia com a taxa turística.

Habitação e classe média

A habitação foi o prato forte do arranque do debate - levando mais de um terço do debate. É a prioridade de todos, Fernando Medina incluído, que diz querer avançar com um "programa inovador", com 40 milhões de euros disponíveis para proporcionar o acesso à habitação com rendas acessíveis.

Esta iniciativa foi saudada com violentas críticas por Ricardo Robles: "Este programa é a pior solução para a cidade. Nenhum dos partidos que estão aqui sentados votou contra este programa", acusou o bloquista. João Ferreira apontou a necessidade de prever casas de rendas acessíveis em novas construções e prédios reabilitados, exemplificando com Amesterdão.

Os dois candidatos à esquerda do PS ironizaram com o conceito de classe média de Assunção Cristas, que propôs casas com rendas acessíveis de "1250 euros". A líder centrista (que conseguiu ser algumas vezes a interlocutora de Medina) defendeu-se com as propostas que o CDS fez no Parlamento, em sede de orçamento, e acabaram chumbadas pelos socialistas. Mas não se livrou de ouvir os ataques dos candidatos da CDU e do BE à lei das rendas aprovada pelo governo anterior.

Transportes e mobilidade

Idêntico registo manteve-se no tema dos transportes e da mobilidade: Medina a defender a sua gestão, a prometer alterações na política de transportes públicos, agora que a Carris está nas mãos da autarquia, e todos a acusarem Medina de pouco ou nada ter feito.

A geringonça nacional só ecoou no ataque - dos candidatos do PS, CDU e BE - à herança deixada pelo governo PSD/CDS neste setor: "Demora tempo a recuperar uma coisa que foi destruída em quatro anos, como os transportes públicos", acusou Medina; "Os transportes em Lisboa são uma prioridade porque estão à beira do colapso. Foram quatro anos de destruição pelo PSD e CDS", apontou Ricardo Robles.

Teresa Leal Coelho devolveu as acusações: "A EMEL hoje é sobretudo um banco para financiar este capricho de reverter a concessão da Carris", disse, referindo-se às verbas da empresa que controla o estacionamento na capital transferidas para a transportadora. E Cristas recuperou os anos da troika, para justificar a sua proposta (agora) de 20 novas estações de metro. "Quem acha que isto é uma questão ideológica esquece que o país estava na bancarrota colocado pelo PS."

O turismo e Madonna

Os transportes também andam mais cheios por causa dos turistas que fizeram de Lisboa um caso de sucesso, nos últimos anos. Medina defendeu: "A resposta não é menos turismo, é mais transportes." Os outros quatro apontaram de novo a cidade a duas velocidades, a Lisboa e visitada por turistas e a que está para lá dos guias. À esquerda, apontou-se a necessidade de regras, Cristas puxou dos galões centristas na matéria, mas defendeu que a autarquia nada fez para proteger lisboetas. E Leal Coelho concluiu: "Temos que corrigir os problemas para as pessoas e não para a Madonna."

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