Um adeus emocionado e sem fechar as portas de Belém

Paulo Portas despede-se da Assembleia da República. Esquerda acredita que antigo vice-primeiro-ministro vai andar por aí

"Esperava o respeito - que é mútuo - mas não contava com intervenções das outras bancadas." Quem o diz é Paulo Portas, ao DN, após uma calorosa despedida da Assembleia da República em que os diversos grupos parlamentares, quase em uníssono - só André Silva do PAN não usou da palavra -, lhe gabaram as qualidades e desejaram felicidades.

O ex-presidente do CDS surpreendeu e fez o último discurso como deputado, quase 21 anos volvidos desde que foi eleito pela primeira vez para o Parlamento, nas legislativas de 1995. Fechou o debate sobre envelhecimento ativo e proteção de idosos, tema caro ao partido liderado por Assunção Cristas, e momentos mais tarde explicou que procurou "fazer uma intervenção mais distanciada", "falar o mais possível de Portugal no mundo e da relação difícil entre ideologias - que são muito dogmáticas - e a realidade das economias - que é cada vez mais flexível e muda aceleradamente". "Falar de tudo isto também me permitiu falar pouco ou quase nada na primeira pessoa", fundamenta.

Aos 53 anos, Portas vira a página - é vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa e já acordou com a TVI ter um espaço de comentário sobre política internacional - e a partir da próxima sessão plenária (quarta-feira) não fará parte dos 18 do CDS no hemiciclo. Será, ironicamente, o seu antigo opositor interno Filipe Anacoreta Correia a ocupar a cadeira vaga. Portas relativiza: "Encaro com a maior naturalidade. Convidei o Filipe para as listas do CDS na coligação em posição que seria elegível. Os partidos fazem-se com inclusão e desejo-lhe toda a felicidade no desempenho do mandato."

A saída de cena estava planeada, mas nem por isso foi menos emotiva. "Quero deixar a todos, sem distinção - aos meus colegas de bancada, parceiros de governo, adversários políticos, funcionários diligentes, jornalistas -, um obrigado", observou. Mas não ficou por aí: "Deixo aqui amigos em todas as bancadas. E, tanto quanto tenho consciência, não deixo inimigos nem os fiz."

"Bem haja a todos, bom trabalho por Portugal", rematou, do púlpito, o antigo vice-primeiro-ministro, aplaudido de pé por PSD e CDS e com vários deputados da esquerda, sobretudo do PS, a associarem-se à homenagem. Tal como Ferro Rodrigues. O presidente do Parlamento sublinhou que Portas "conseguiu contrariar circunstâncias adversas", "consolidou um partido que no início da década de 1990 parecia estar a definhar" e que ficará em São Bento "uma memória muito viva" do ainda deputado "pelas suas qualidades de orador". E recordou os "famosos sound bites" de um Portas com um "muito eficaz português".

Passos Coelho esteve na penúltima fila e Luís Montenegro assumiu as despesas da despedida. "Não obstante não termos estado sempre de acordo, foi um privilégio partilhar parte deste caminho consigo", sublinhou o líder parlamentar do PSD, classificando Portas como um homem "empenhado em elevar e proteger o interesse nacional". "Muito obrigado, Paulo", reforçou Nuno Magalhães (CDS), ao lado do ex-líder, já em lágrimas.

Da esquerda, mais simpatia. E vaticínios de que Portas vai andar por aí. João Oliveira (PCP) gracejou sobre a "irrevogabilidade das decisões" na política, ao passo que Jorge Lacão (PS) avisou que os socialistas estarão "sempre preparados" para enfrentarem o ex-líder do CDS, caso volte ao combate político. Pedro Filipe Soares (BE) foi mais taxativo: "Ninguém nesta sala ou no país acreditará que o político Paulo Portas entrou de sabática."

Ninguém verbalizou, mas todos pensaram no mesmo: presidenciais de 2026. Portas não exclui o que quer que seja, mas corta rente a ideia de que já esteja a pensar na sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa: "É tão prematuro falar de presidenciais daqui a uma década quando o país acabou de eleger um Presidente da República. Estou completamente empenhado nesta transição de vida, que só penso em fazer bem e profissionalmente a etapa seguinte."

E mais não diz. Novo capítulo.

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