Três mil atropelamentos custaram a vida a 56 pessoas

Número de mortos está a descer mas ainda é trágico. Isto quando passam três anos sobre o atropelamento que matou duas mulheres no Terreiro do Paço e se espera pelo recurso 

A 2 de Novembro de 2007, a psicóloga Maria Paula Dias atropelou mortalmente duas mulheres e feriu uma outra numa passadeira, no Terreiro do Paço, às 05.30 da madrugada. Passaram três anos terça-feira sobre o trágico acidente. "Não vou esquecer nunca. Fui ontem [terça-feira] ao cemitério visitar a campa da minha filha", contou ao DN a única sobrevivente do triplo atropelamento, Rufina Rocha, que ainda sente "dores intensas no braço e na perna direita". Mas a sua maior dor é outra e mais profunda: Rufina perdeu a filha, Neuza Rocha, de apenas 20 anos, naquela passadeira. É uma dor irreparável.

Três anos passados e o processo judicial ainda está aberto, agora em fase de recurso. Maria Paula Dias, a condutora que, a 7 de Abril, foi condenada a três anos de prisão efectiva, aguarda ainda a decisão da Relação de Lisboa sobre o recurso que interpôs, adiantou o seu advogado Paulo Camoesas. "O caso marcou-me de tal maneira que há pouco tempo até recusei um processo parecido, de um acidente com vítimas mortais", contou o advogado.

Os atropelamentos continuam a ser um flagelo em Portugal. Só no primeiro semestre deste ano já foram atropelados 2950 peões. Destes, 56 perderam a vida, segundo os dados apurados pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ver caixa).

Muitos destes casos não terminam com os responsáveis condenados a penas de prisão efectivas. O processo do atropelamento mortal no Terreiro do Paço foi singular, até nesse aspecto. Mas, para o advogado da arguida, a pena de Maria Paula Dias "é maior" do que a que já foi decretada nas Varas Criminais de Lisboa. "A minha cliente ficou com a vida feita num molho de brócolos. Esteve dois anos à espera de julgamento. Agora, já vai em quase um ano à espera da decisão da Relação sobre o recurso. E tem a vida profissional, afectiva e pessoal destruída."

A destruição, do outro lado, é incomensurável. Duas vidas acabaram. Uma vida continuou, a de Rufina, mas continua à espera de uma palavra que ajude a preencher o vazio. "A condutora nunca me disse uma palavra. Nem me foi visitar ao hospital, nem ela nem a família", lamenta Rufina Rocha.

A compensação material já foi atribuída às famílias das duas vítimas mortais. Rufina Rocha recebeu 400 mil euros da seguradora Mapfre. A família da são-tomense Filipa Borges, que tinha 57 anos e oito filhos, recebeu 210 mil euros.

"Parece que foi ontem. Lembro--me sempre da minha filha Neuza, e da minha amiga Filipa", lamenta Rufina, que deixou de poder trabalhar em limpezas. Agora vive com o seu filho Alex, de 19 anos, no Montijo. Depois do acidente voltou a Cabo Verde, seu país natal, e experimentou viver por lá. Mas não resultou.

Maria Paula Dias é seguida por um terapeuta e tem o apoio da mãe e da irmã. E já decidiu que, um dia, vai falar com Rufina e com os familiares de Filipa Borges. "No dia em que se esgotarem todas as possibilidades de recurso e o processo encerrar, a minha cliente irá ter com as pessoas e irá falar com elas. Só ainda não o fez com medo do sentimento de revolta", explica Paulo Camoesas.

Maria Paula Dias não está preparada para cumprir pena de prisão. "Ela vive sempre na máxima de 'enquanto há vida há esperança'. Esperança de que a Relação de Lisboa possa comutar a pena numa suspensão ou em trabalho comunitário. Qualquer coisa, menos estar fechada num estabelecimento prisional."

Rufina Rocha terá para sempre as marcas que o carro desgovernado deixou no seu corpo. "Tenho um braço péssimo, com pouca força, que não agarra nada. A minha perna direita está sempre inchada", lamenta.

Diz que quando as dores apertam é pelo corpo todo. "Dói-me a perna, a cintura, a cabeça, o estômago." Já não se sente útil para nada. Resta-lhe o consolo de poder assistir ao desenvolvimento do seu filho Alex. "Estou a viver com o meu filho. Ele está a estudar. Se não fosse ele, não sei o que seria de mim."

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