Transcrever também é uma arte. A de Belarmino é copiar a Bíblia

Ex-agente da PSP já transcreveu o livro sagrado dos cristãos três vezes. Não há registo de alguém no mundo ter feito o mesmo. Uma questão de paixão, não pela religião mas pela escrita

"Se apanhar por aí Saramago talvez seja o próximo..." Este poderá ser o novo capítulo da vida de Belarmino Lameira, um antigo agente da Polícia de Segurança Pública que recusou passar a reforma a "beber canecos" num qualquer café de São João da Talha, em Loures, e optou por se dedicar à paixão pela escrita. Uma escrita que não é criativa, porque a quarta classe não lhe deu ferramentas para tal, mas que pode muito bem ser considerada uma arte: copiar grandes livros, tudo à mão e em folhas A4.

Para já, o engenho de Belarmino conta-se em três transcrições consecutivas, num espaço de cinco anos, da Bíblia. Ou seja, 66 livros, 1189 capítulos e 31102 versículos (como é composta a escritura sagrada dos cristãos) multiplicado por três...

"Acho que já ganhei um lugar direto no céu", graceja, para depois "falar a sério". "Sou religioso, 100% religioso, mas não pratico, não vou à missa aos domingos, oiço na rádio ou na televisão. Tenho a minha devoção", observa Belarmino, que hoje completa 73 anos. Aniversário que irá festejar com a família no barracão - um misto de arrecadação clandestina e quinta - onde passou 18 meses a transcrever a Bíblia pela terceira vez. Começou a 4 de junho de 2016 e deu o trabalho por concluído a 15 de dezembro de 2017.

"Por dia, escrevia uma média de cinco ou seis páginas da Bíblia. Cada uma equivale a quatro folhas destas [A4] e demora cerca uma hora a ser copiada. Feitas as contas...", diz exibindo uma folha cheia de números que correspondiam à contabilidade do ano e meio de trabalho. "Só do Antigo e do Novo Testamento são 1763 páginas... e como é uma versão católica, a mesma que usam os padres nas missas, tem outros livros e acréscimos", explica, para dizer que no total a obra que transcreveu tem 4558 folhas.

"Às vezes vinha para aqui de madrugada. Escrevia um pouco. Fazia uma pausa de manhã e trabalhava na horta. Depois continuava a escrever e fechava a loja às 16.00. Não havia dias de descanso", comenta.

Belarmino Lameira, nascido em Vila Pouca de Aguiar (distrito de Vila Real), usa barba longa, toda branca e desalinhada, que vai ajeitando ao longo da conversa, sobretudo quando tem de recorrer à memória. "Dizem-me para a cortar, mas os profetas também usavam e se escrevo sobre eles... Uso- a assim por uma questão de prestígio e uma homenagem aos 12 profetas. Como acabei o trabalho vou agora cortar, já não faz sentido." Garante que não se limita a copiar palavras, "também as lê", pelo que conhece muitos salmos, provérbios, profecias. "Há muitas passagens bonitas cheias de significado", afirma, justificando-se com a história do profeta Jonas, que "esteve dentro da barriga de um peixe durante três dias", um "castigo de Deus por ter desobedecido à ordem" de ir à cidade de Nínive, capital da Assíria, "pregar e converter os infiéis". De Noé, o profeta do dilúvio, usado por Deus para salvar a humanidade, "construiu uma arca onde ficou com sua família e com muitos animais". De Tobias, que curou o pai da cegueira com fel de peixe.

Confessa que não consegue estar parado. Aliás, nunca conseguiu, nem mesmo quando estava na PSP, "andava sempre de um lado para o outro". Esteve na Guiné, em Angola, Venezuela, Austrália, umas vezes ao serviço da polícia outras em períodos de licença, que tirou com frequência "para tentar melhorar a vida". Fez limpezas, pão, esteve na construção civil, trabalhou na restauração, distribuiu e vendeu água de um furo que tinha... Mas a polícia é que era a grande paixão. Esteve em várias esquadras (Loures, Olivais, Moscavide), onde desempenhava o "trabalho raso", porque os estudos não abundavam.

Com 55 anos decidiu aceitar a reforma antecipada, que lhe permitiu, uns anos depois, ter tempo para a escrita. A 5 de maio de 2013 lançou-se, pela primeira vez, na transcrição da Bíblia. Demorou mais ou menos um ano, foram 1546 páginas que transformou em 17 volumes que o próprio encadernou. Repetiu a proeza em 2015 com 1200 páginas. E mais uma vez em 2016...

Belarmino, casado com a namorada da adolescência, Teresa, sorri: "Alguns dizem que sou maluco. Gosto muito de escrever. E já disse que não vou parar. A Bíblia talvez não repita, mas há muitos livros por aí que podem ser interessantes. Em vez de andar no caneco, escrevo."

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