Tradições da Páscoa sobrevivem em Trás-os-Montes

Durante a semana que antecede a Páscoa, aldeias e vilas transmontanas revivem tradições cristãs e pagãs que remontam à época medieval, desde a procissão dos "sete passos", as vias-sacras, queima do Judas ou o enterro do bacalhau.

Alexandre Parafita, etnógrafo e professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), explicou hoje à agência Lusa que "os autos da paixão, as endoenças e as vias-sacras traduzem cenários de luto, de reflexão dolorida, expressos dos tons roxos e negros das celebrações".

Em contrapartida, a "queima do Judas e o enterro do bacalhau representam impulsos eufóricos de catarse e libertação perante os constrangimentos quaresmais".

Alexandre Parafita salientou que a tradição dos "sete passos" mantém-se em Freixo de Espada à Cinta como "caso único no país".

Em plena escuridão e ao soarem as badaladas da meia-noite, dois homens encapuçados de negro arrastam pela calçada correntes de ferro, num ritual que prossegue com uma "velhinha" coberta por um negro manto e capuz, que transporta numa mão uma lamparina de azeite, um cajado e bota de vinho.

Mais comuns em Trás-os-Montes são, segundo o investigador, os autos da paixão, enquanto representações de teatro popular, que narram os últimos dias de Cristo, desde a traição até à morte e deposição na cruz, e envolvem dezenas de figurantes que representam, por exemplo, Cristo, Judas, Caifaz, Pilatos, Fariseu ou o Diabo.

Algumas aldeias, acrescentou, ainda conservam as 14 cruzes, ou cruzeiros, que representam as 14 estações que a via-sacra cumpre simbolizando o calvário de Cristo a caminho da crucificação.

No concelho de Vinhais, "a vida dos camponeses muda radicalmente a partir de Quinta-Feira Santa".

Segundo Alexandre Parafita, na aldeia de Espinhoso, ao meio dia toca o sino e as pessoas param por completo de trabalhar mal ouvem soar a primeira badalada e, com exceção dos mínimos afazeres domésticos, ninguém trabalha na aldeia até sábado à mesma hora.

Em Vinhais está também "muito viva" a tradição das endoenças, um ritual que narra "a procura desesperada de Cristo por Nossa Senhora".

Em Montalegre, mantém-se a Queima de Judas, no sábado que antecede a Páscoa, uma tradição onde se representa o julgamento de Judas Iscariotes, por ter traído Cristo por "trinta dinheiros".

Já em Constantim, Vila Real, subsiste a tradição do "enterro do bacalhau", ritual que consiste em escoltar um "bacalhau enorme feito de cartão por militares, o qual, por sua vez, é julgado perante carrascos, juízes e advogados".

O castigo a incidir sobre o bacalhau simboliza a libertação dos constrangimentos da Quaresma, que não permitia o consumo de carne.

Por fim, no domingo de Páscoa realiza-se o compasso, que se traduz num cortejo presidido pelo pároco que visita as casas dos fiéis dando a cruz a beijar e aspergindo com água benta os compartimentos.

Alexandre Parafita referiu ainda que a tradição gastronómica transmontana neste período incide sobre a confeção dos folares que, após o prolongado jejum da quaresma, aparecem recheados das melhores carnes.

Isto, apesar de se estarem a espalhar também pela região os novos hábitos "consumistas" dos ovos e coelhos da Páscoa.

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