"Todos nós, na União Europeia, estamos convictos de que Guterres estará à altura"

Evitando a polémica em torno das candidaturas europeias à sucessão de Ban Ki-moon, João Vale de Almeida, embaixador da UE nas Nações Unidas, diz que António Guterres tem tudo para ser um excelente secretário-geral

Pela experiência que tem aí nas Nações Unidas, pelo que tem visto, como é o dia a dia do secretário-geral da organização?

Alguém já terá dito que é o lugar mais difícil do mundo. É uma pessoa que tem que ter uma visão global das coisas, mas tem que estar atento à dimensão local e regional de cada uma delas. Isso implica uma grande atenção, uma grande disponibilidade, uma grande capacidade para o diálogo, uma grande capacidade física também, uma grande capacidade intelectual. Portanto, é extremamente exigente e, no mundo atual, ainda mais, porque há uma série de desafios, que é preciso enfrentar com grande competência, com grande empenhamento, com grande inteligência.

Acha que António Guterres pode imprimir uma marca pessoal e dar outro significado ao cargo de secretário-geral da ONU?

Eu acho que é uma grande vitória, antes de mais das Nações Unidas, pela maneira como a sua eleição está a ser conhecida, é uma vitória pessoal do engenheiro António Guterres, a personalidade dele, a atitude dele, a capacidade dele foram absolutamente determinantes. É, sem dúvida, uma vitória de Portugal e da diplomacia portuguesa e, se me permite, também uma vitória da União Europeia, porque, pela primeira vez, temos um cidadão de um país da UE como secretário-geral da ONU. Isso para mim é uma grande satisfação pessoal, dupla, porque esse cidadão é português e eu também sou. É importante para a UE, nesta altura da sua história, marcar, através da eleição de António Guterres, a sua influência e a sua capacidade de criar pontes.

Guterres será um secretário-geral mais político do que Ban Ki-moon?

É difícil fazer comparações. Não quero fazê-las. O engenheiro Guterres obteve a unanimidade e a aclamação do Conselho de Segurança: isso é à partida um facto extremamente relevante e importante. É uma base de trabalho na qual ele pode assentar um mandato de sucesso. Acho que para um bom secretário-geral é preciso, antes de mais, autoridade moral, é preciso capacidade de diálogo, é preciso visão estratégica, ser capaz de mobilizar os vários atores internacionais, mas também os recursos da ONU, os seus instrumentos, as suas agências, os seus orçamentos, é preciso um conjunto de capacidades que, naturalmente, Guterres tem. Não tenho dúvidas de que será um grande secretário-geral da ONU. Falou-se muito do facto de, desta vez, dever ser uma mulher para o cargo. Assistimos recorrentemente a este debate: vimo-lo aquando da criação do cargo de presidente permanente do Conselho Europeu. Mas depois constatamos, muitas vezes, que não se concretiza.

Que diferença imprime o facto de ser uma mulher?

Esse é um debate importante, que deve prosseguir, mas agora estou mais focado no que vem a seguir, na possibilidade de Guterres fazer um grande mandato nas Nações Unidas. A UE, todos os 28 Estados membros, estão mobilizados - eu próprio e os meus colegas - para o ajudar nesta tarefa difícil que ele agora tem pela frente nos próximos cinco anos. Os debates sobre o processo de eleição, sobre os perfis dos secretários-gerais, são muito importantes, mas mais importante é focarmo-nos na criação de condições para que o novo secretário-geral tenha um grande sucesso. Se ele tiver sucesso as Nações Unidas terão sucesso e, com elas, todos os Estados membros.

Quais são, em seu entender, os principais desafios deste novo secretário-geral das Nações Unidas?

O principal desafio é contribuir para o estabelecimento de novos equilíbrios mundiais. Há quem fale em nova ordem mundial. O que é certo é que estamos a assistir ao fim de um ciclo, da chamada hiper-globalização, também o ciclo do pós-pós Guerra Fria, um período de 30 anos a seguir ao final da Guerra Fria. Essa fase está a terminar, está outra a começar, não se conhece ainda bem os contornos dessa nova fase da governação mundial. Um dos principais desafios do novo secretário-geral será contribuir para que esses novos equilíbrios mundiais assentem no primado da lei, dos direitos humanos, da liberdade e da democracia, da paz e do desenvolvimento sustentável. Há um desafio mais imediato que é o das migrações, dos refugiados, há 65 milhões de refugiados no mundo, com uma acuidade particular nalgumas regiões, na nossa própria região europeia. É um desafio que o novo secretário-geral conhece bem pelas suas funções anteriores. Depois temos a questão do terrorismo, do novo terrorismo, das novas ameaças, com atores não estatais, que põem em causa a segurança dos nossos cidadãos, que têm uma influência direta nos equilíbrios políticos dentro das nossas sociedades. Isto é claramente um grande desafio. Depois temos os grandes desafios globais, do desenvolvimento sustentável, é preciso que a ONU e os seus Estados-membros levem para a frente a Agenda 2030 e apliquem aquilo que esta semana, por via da UE, se tornou o novo Acordo sobre o Clima, que vai entrar em vigor a 4 de novembro. Eu próprio tive o prazer de apresentar os instrumentos de ratificação da UE esta semana, o que significa que passámos a fasquia que permite que o acordo entre em vigor já. Portanto, uma nova ordem mundial, o desafio das migrações e dos refugiados, a questão do terrorismo e da segurança em geral, clima e desenvolvimento sustentável. Todos nós na UE estamos convictos que Guterres estará à altura e todos estaremos aqui para o ajudar nessa tarefa.

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