"Todos admirámos Vale e Azevedo"

António Pragal Colaço, advogado, publicou um livro, no qual relata com pormenor todos os esquemas do antigo presidente do Benfica. "Apanha-me se puderes" é o título da obra, prefaciada pelo deputado José Ribeiro e Castro.

Por que razão decidiu escrever este livro sobre João Vale e Azevedo? Para sistematizar toda a informação que foi sendo conhecida?

Não só. Foi um último grito de revolta e de dúvida sobre a existência humana. O livro relata vários episódios da vida de João Vale e Azevedo, como é que ele esteve no Benfica e como fez as respetivas falsificações, como manuseou os documentos e falsificou garantias bancárias para cauções nos tribunais. Depois há uma passagem pela compra do iate "Lucky Me", com dinheiro do Benfica, como a sociedade offshore que era dona do barco era dele e muitos mais episódios.

Depois desta investigação, não ficou, de certa forma, com alguma admiração por João Vale e Azevedo e pela forma como conseguiu enganar tanta gente durante tanto tempo?

Todos o admirámos. Eu coloco é em causa se valeu a pena andar durante 14 anos a tentar que se fizesse justiça. Se isto não será uma eterna busca de algo que não existe. Nós, enquanto sociedade organizada, criámos determinadas ficções, acreditamos que vivemos numa sociedade organizada que nos protege e que vigoram determinados princípios. Só que a realidade não é bem assim. Se calhar, a Justiça é um conceito ficcionado, se calhar, as pessoas que são como João Vale e Azevedo são as que têm mais sucesso e são considerados como heróis. Em resumo, como eu digo no livro, se calhar o 'tosco' sou eu, que andei 14 anos a tentar que houvesse justiça. Chego a 2012 e pergunto para quê?

João Vale e Azevedo, para além de grande manipulador das massas, acabou por revelar as insuficiências do sistema judicial?

O problema é da sociedade. O sistema judicial é uma componente da sociedade. A sociedade é que não está preparada para este tipo de situações. Quem tem estes comportamentos é que conseguem ter mais sucesso.

Ou seja, 14 anos depois há um sentimento de frustação?

Acima de tudo uma dúvida sobre a existência humana e o ser humana. Se o homem apenas funciona através de uma fantasia ou se o sistema deveria proteger os cidadãos daqueles que vendem fantasias.

Vale e Azevedo vendeu uma ficção aos benfiquistas?

A toda a gente. Por mais básico que seja o mecanismo utilizado para ele atingir os objetivos da falsificação, ele consegue. Em 2006, ele entrou e saiu como herói da leitura da sentença do caso Dantas da Cunha, em que foi condenado.

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