"Tive professores inesquecíveis"

Estudou numa escola primária, na Rua do Poço dos Negros, a Santa Catarina, em Lisboa, já fechada. Depois entrou, com nove anos, para o Liceu Passos Manuel. Na Suíça estudou línguas e hotelaria.

Ainda se lembra do seu primeiro dia de aulas na primária?

Do primeiro dia de aulas, com rigor não me lembro. Era muito criança. Lembro-me da minha primeira professora primária, que se chamava dona Olímpia, de quem guardo uma muito boa recordação porque era uma excelente pedagoga. Austera. Exigente. Mas uma excelente professora. Do nome da escola também não me lembro. Ficava na Rua do Poço dos Negros, em Lisboa. Se não me engano, penso que mais tarde fechou e foi habitação do ator Henrique Santana.

Era bom aluno?

Sim, fui bom aluno na escola primária. Fiz a terceira e quarta classes no mesmo ano e a admissão ao liceu aos nove anos. Na altura isso era prematuro. O que costumava acontecer era fazer a prova aos 10 anos. Entrei para o Liceu Passos Manuel aos nove anos.

Os seus professores em geral foram bons?

Tive em Portugal bons e maus professores, no Liceu Passos Manuel. Era um liceu aberto para a época, onde realmente havia professores de mente muito aberta. E isso teve muita importância, na nossa postura, no modo como começámos a olhar para a vida. E tínhamos também professores ultraconservadores. Normalmente com esses não tinha um bom entendimento e as minhas notas eram fracas. Era-me difícil lidar com pessoas autoritárias, repressivas. Mas tive professores inesquecíveis. Não quero referir nomes para não ferir suscetibilidades. Mas tivemos um professor de História que era de tal ordem agregador e estimulante que os maus alunos eram ajudados por nós, que éramos bons, e ninguém chumbava. O mesmo aconteceu comigo com uma professora excelente de Matemática e Físico-Química. Eu tinha tido um professor péssimo e distanciei-me. Mas com essa professora e com a ajuda dos colegas consegui voltar às notas positivas. A grande diferença, no ensino, era feita pelas pessoas. Pela atitude que os professores tinham perante o ensino e perante a vida.

Mesmo sem ferir suscetibilidades, não pode dar alguns nomes de professores que o tenham marcado pela positiva?

Posso referir esse professor de História, Santos Paiva, quase um ilustre desconhecido. Quem vai achar graça são os meus antigos colegas de Passos Manuel. Joana Ruiz, de Físico-Química. Uma pessoa maravilhosa. Um par de recordações fantásticas. Também Gonçalves Simões, de canto coral. Um homem muito engraçado. Quando desafinávamos pegava numa varinha e batia-nos nas orelhas. Não era para doer. Tratava-nos por macacas. E dizia: "As macacas não devem desafinar." Mas não era repressor.

E o Carlos do Carmo também desafinava?

Confesso que desde cedo comecei a não desafinar. Sempre gostei de cantar, desde muito novo. E ainda gosto.

Licenciou-se e em línguas e em hotelaria e restauração na Suíça. Como aconteceu isso?

Depois do liceu, quando disse que queria estudar Direito, o meu pai - num momento premonitório, porque morreu muito novo - disse-me que não sabia se estaria aqui o tempo suficiente para me ajudar. Lembrou-me que sempre tive mais jeito para as Letras do que para as Ciências. E propôs-me aquilo. E assim aconteceu. Ainda tenho os diplomas das várias línguas que aprendi: Espanhol, Francês, Italiano, Alemão... Quanto à hotelaria, a minha família tinha uma casa de fados e restaurante, o Faia. Entretanto, comecei a cantar por brincadeira e... fiz agora 50 anos de carreira.

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