Terrorismo. Descoordenação total entre Governo e Polícia

A ministra da Administração Interna desmentiu a PJ em relação à lista de dos 22 mil jihadistas, criando um enorme mal estar, que chegou ao mais alto nível do Governo

Primeiro disseram que sim, depois que não, depois que sim outra vez. Foi esta a cadência, ontem, de informação da Polícia Judiciária (PJ) e do Governo, sobre se as autoridades portuguesas tinham ou não tido acesso à lista dos 22 mil nomes de suspeitos jihadistas, cuja existência tinha sido divulgada pela Skynews.
À hora do fecho desta edição, as fontes do DN, tanto dos serviços de informações, como da PJ, ainda garantiam que "nenhuma lista completa foi ainda partilhada oficialmente", sendo que apenas as autoridades britânicas e alemãs tinham tido acesso ao total de ficheiros. O mesmo foi referido na reunião de ontem da Unidade de Coordenação Anti-Terrorista (UCAT), que junta os serviços de informações e as principais polícias (PJ, GNR, PSP e SEF) para trocarem informações sobre a atividade terrorista. O encontro já estava marcado antes, mas o tema acabou por marcar a agenda.
O Expresso, porém, na sua edição online, dizia que a lista já estava na posse das secretas e da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da PJ e que estaria a ser analisada. Apenas um conjunto de 21 ficheiros, respeitantes a igual número de alegados combatentes do daesh, foi publicada na net, através de um link da BBC e outros 122 nomes de potenciais bombistas suicidas, podendo ser esta, acreditam as fontes do DN, a "lista" que está a ser verificada pela autoridades.

A informação contraditória que chega aos jornais não se reduziu apenas a fontes sob anonimato. Oficialmente ela foi evidente, revelando uma descoordenação total ao mais alto nível, entre o Governo e o sistema de segurança interna. A fita do tempo das contradições resume-se a três momentos. Pela manhã, a agência oficial de notícias, Lusa, citava "fonte da PJ" a confirmar que a dita listagem já estava na posse das autoridades e a UNCT estava a "analisar"; ao final da manhã, questionada pelo DN, fonte da direção nacional da PJ confirmava o que, até aí, as nossas fontes garantiam, que a lista ainda não tinha sido partilhada com Portugal; por fim, em Bruxelas, a meio da tarde, a ministra da Administração Interna, revelou:"as autoridades portuguesas têm acesso à lista e estão, neste momento, a analisar". Descoordenação na própria PJ e descoordenação entre esta e o Governo, sendo que a ministra Constança Urbano de Sousa não tem qualquer tutela sobre matérias de investigação de terrorismo, como é o caso.

A prática da cooperação entre as autoridades dos vários países, em situações de partilha deste género de informação, tem sido a de difundir para cada país apenas a informação relacionada com os respetivos cidadãos. Isto para que seja cada país a gerir a forma com a quer ou não divulgar. Várias fontes ouvidas pelo DN, dizem que o processo demora sempre algum tempo, "a não ser", salientam "que tudo se precipite com a sua divulgação total através de um órgão de comunicação social".
A situação está a causar um enorme mal estar, a todos os níveis, na PJ, nos serviços de informações e ao mais alto nível do Governo. Na Judiciária, que sempre assumiu, como princípio, o máximo de reserva sobre estas matérias altamente sensíveis e se vê desautorizada. "A partir do momento em que um membro do Governo fala sobre este assunto, não fazemos mais comentários", assinalou a mesma fonte oficial da direção nacional, quando confrontada pelas declarações da Ministra.

Nas secretas, porque existe uma relação de grande colaboração entre a seu departamento de contraterrorismo e a UNCT da PJ, e se cria um clima de desconfiança mútuo sobre as fugas de informação. No Governo, porque em pleno processo de reforço de competências operacionais da UCAT, revela que o Sistema de Segurança Interna (SSI) não está coordenado. A secretária-geral, Helena Fazenda, remeteu-se ao silêncio, mas os holofotes vão agora virar-se para a Procuradora. É o SSI quem coordena a Estratégia Nacional de Combate ao Terrorismo, da qual faz parte a informação ao público e a articulação com a comunicação social.

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