Tensão entre adeptos de Benfica e Sporting no Campus de Justiça. Um homem detido

Equipa de intervenção rápida da PSP foi acionada após uma "troca de palavras", mas acabou por não ser necessária a sua intervenção. O Ministério Público pediu também o julgamento de Luís Pina e dos restantes 21 arguidos

Está a decorrer no Campus de Justiça, em Lisboa, o debate instrutório do caso de Luís Pina, acusado de atropelar mortalmente o italiano Marco Ficini junto ao Estádio da Luz, em abril de 2017, na véspera de um dérbi entre Benfica e Sporting. No local, existe uma forte presença policial para evitar confrontos.

Contactada pelo DN, a PSP confirmou que foram "acionados meios", por volta das 14:00, devido a uma "troca de palavras" entre adeptos dos dois clubes, mas que "não chegou a haver necessidade de intervenção". Confirmou também a detenção de um homem, no mesmo local, por injúrias, ameaças e resistência à autoridade.

Com efeito, uma equipa de intervenção rápida, composta por "cerca de seis elementos", foi "acionada, mas nem foi ao local".

Os adeptos leoninos saíram da sala de audiências sensivelmente meia hora antes dos do Benfica e foram escoltados pela PSP, de maneira a evitar confrontos, informou o Correio da Manhã. A presença policial no local evitou males maiores.

Existe também o receio de que perto do Campus de Justiça estejam vários adeptos dos dois clubes e que possam ocorrer confrontos.

Relações entre os dois clubes estão "péssimas", mas é preciso "trabalhar em conjunto"

Benfica e Sporting asseguraram esta quinta-feira a colaboração ao nível da segurança no combate à violência no futebol, independentemente do reconhecimento das más relações institucionais entre as duas direções e do clima de tensão que se vive esta temporada.

Presentes na conferência "Contra a Violência no Desporto", organizada pelo Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, na Universidade Lusíada, em Lisboa, Rui Pereira, diretor de Prevenção e Segurança do Benfica, e Vasco Santos, diretor de segurança da Sporting SAD, deixaram ainda um alerta para o impacto que os grupos organizados de adeptos têm no futebol.

"As relações entre Benfica e Sporting estão péssimas, não vale a pena ignorar, mas, em termos do meu homólogo, sempre nos demos bem. Temos esta colaboração, independentemente de as relações poderem vir a deteriorar-se entre clubes. Temos de trabalhar em conjunto. Acima de tudo estão os valores da segurança de qualquer cidadão", afirmou Rui Pereira.

Por sua vez, Vasco Santos garantiu que as preocupações dos responsáveis dos dois rivais - aos quais juntou ainda o FC Porto - são similares e que esse cenário resultou já em propostas conjuntas para outras autoridades.

"No capítulo da segurança, os três grandes clubes têm manifestado posições conjuntas e temos vindo a apresentar junto do Ministério da Administração Interna (MAI), da Secretaria de Estado da Juventude e Desporto (SEJD) propostas que os três subscrevem no sentido de melhorar a segurança nos estádios. A preocupação é exatamente a mesma", salientou.

Já o comissário da PSP Sérgio Soares defendeu uma postura assertiva dos maiores clubes portugueses na identificação e controlo dos adeptos mais problemáticos e explica que o número de indivíduos interditados de entrar nos estádios está "desfasado da realidade".

Em declarações à Lusa à margem da mesma palestra, o responsável assegurou a colaboração de Benfica, FC Porto e Sporting, mas realça o registo de apenas 13 cidadãos impedidos de entrar em recintos desportivos, quando comparados com os cerca de 2.000 em Inglaterra.

"Poderia haver uma maior proatividade dos clubes no controlo dos seus próprios adeptos, mas essa é uma evolução que vamos tentando fazer. Os clubes são os primeiros interessados em que o evento decorra em segurança para que os estádios estejam cheios. Os clubes têm colaborado, mas pode haver uma evolução maior a esse nível", frisou.

Ministério Público pede julgamento para os 22 arguidos

O Ministério Público (MP) pediu também esta quinta-feira o julgamento de Luís Pina e dos restantes 21 arguidos.

O MP deduziu acusação, em outubro do ano passado, contra 22 arguidos (10 adeptos do Benfica com ligações aos No Name Boys e 12 adeptos do Sporting da claque Juventude Leonina).

Luís Pina está acusado do homicídio de Marco Ficini e de outros quatro homicídios na forma tentada, e os restantes arguidos estão acusados de participação em rixa, dano com violência e omissão de auxílio.

A vítima mortal, Marco Ficini, pertencia à claque do clube italiano Fiorentina O Club Settebello, era adepto do Sporting e morreu após um atropelamento e fuga junto ao Estádio da Luz, na sequência de confrontos ocorridos na madrugada de 22 de abril, horas antes de um jogo de futebol entre o Sporting e o Benfica, da 30.ª jornada da I Liga, da época passada, no Estádio José Alvalade, em Lisboa.

Segundo a acusação do MP, a que a agência Lusa teve acesso, nessa madrugada, um grupo de adeptos do Benfica dirigiu-se às imediações do Estádio de Alvalade e lançou um foguete luminoso de cor vermelha na direção do topo sul do estádio.

Adeptos sportinguistas, que se encontravam no Estádio de Alvalade a distribuir bilhetes e a preparar as coreografias da claque Juventude Leonina para o jogo que iria decorrer nesse dia, colocaram-se então em diversos automóveis e, em caravana, dirigiram-se ao Estádio da Luz a fim de "ripostarem" pelo lançamento do foguete luminoso, levando consigo barras de metal.

Na caravana seguiam 12 dos arguidos, adeptos do Sporting, e ainda Marco Ficini, simpatizante do Sporting que tinha viajado de Itália para assistir ao jogo de futebol entre o Sporting e o Benfica.

Durante os confrontos e perseguições que se seguiram, Luís Pina terá atropelado mortalmente Marco Ficini, "arrastando o corpo por 15 metros", imobilizando o carro só "depois de ter passado completamente por cima do corpo da vítima", descreve a acusação, acrescentando que o arguido abandonou o local "sem prestar qualquer auxílio".

Notícia atualizada às 16:25 com a detenção

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