"Temos de ir a tudo. Aliás, eu passo a vida atrás de euros"

Primeira portuguesa bolseira avançada do European Research Council, investiu num laboratório de nano fabrico e criou tecnologias de eletrónica transparente hoje presentes em todos os smartphones.

Foi a primeira investigadora portuguesa a receber uma bolsa avançada do European Research Council (ERC)....

É verdade. Na altura pensava que tinha sido a primeira mulher mas fui mesmo a primeira portuguesa. Quando concorri só havia dois níveis: as advanced e as starting. Depois apareceram as intermédias: as consolidated.

E como vê o crescimento dos projetos nacionais apoiados?

Isso quer dizer que as pessoas vão passando palavra. Há também uma maior divulgação e as pessoas são motivadas e incentivadas a concorrer. Se não concorremos, nunca temos. O que se notava no início é que as pessoas não concorriam e hoje, até porque temos menos dinheiro de outros fundos, temos de ir à luta.

Os investigadores nacionais têm consciência de que têm de ir procurar mais apoios lá fora porque os domésticos escasseiam?

Também. Há uma maior consciência de que temos de ir a tudo. Aliás, eu passo a vida toda atrás de euros. Eles fogem e eu vou atrás a correr. Em relação aos investigadores agora abrangidos, conheço bem o colega da Universidade do Minho, que é da área de materiais.

No seu caso concreto, de que forma é que a bolsa que lhe foi concedida em 2008 se refletiu no alcance do seu trabalho?

Deu-nos uma visibilidade imensa, uma notoriedade muito grande. Por outro lado, como era uma bolsa muito grande, instalei em Portugal um microscópio, um laboratório de nano fabricação que não existia no país. E passou a ser possível fazermos coisas que não conseguíamos: nós fazemos muitas omeletas mas se não tivermos ovos estamos limitados. Era uma lacuna nas universidades do país. Só o equipamento em si custou cerca de um milhão de euros. Mesmo com outro projeto competitivo teria sido impossível lá o colocar.

Na altura em que recebeu a bolsa a sua equipa tinha desenvolvido os transístores de papel, uma invenção muito mediatizada.

Foram duas coisas que de certa forma coincidiram no tempo mas a minha bolsa até não teve muito a ver com isso: foi mais na parte dos materiais da eletrónica, na eletrónica transparente. Entretanto, fizemos uma patente com a Samsung e a nova geração de mostradores planos, de computadores, de telemóveis, de Ipad são à base de eletrónica transparente, desenvolvida em parte por nós. Fomos pioneiros a nível europeu nessa área.

E para os transístores de papel, já existe um mercado?

Um colega do meu departamento, o professor Luís Pereira, ganhou este ano uma bolsa na área do papel inteligente. Mas esta é uma área mais disruptiva: temos contactos com empresas, com as industrias da área do papel, em particular nórdicas, mas estas coisas levam tempo. É uma coisa completamente nova. Mas existe um futuro, sobretudo nas embalagens inteligentes: desde farmacêuticas até para transportar bens alimentares e encomendas.

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