Recurso pode adiar pena de prisão durante cinco anos

Psicóloga que matou duas mulheres na passadeira no Terreiro do Paço foi condenada a três anos de prisão efectiva e um ano sem conduzir. O advogado vai recorrer

"Assassina" foi a palavra proferida por um cidadão à porta do Tribunal das Varas Criminais de Lisboa quando a autora do triplo atropelamento entrou para conhecer a sua sentença. A condutora que atropelou mortalmente duas mulheres no Terreiro do Paço em 2007 foi condenada a três anos de prisão, mas segundo o advogado Branco da Silva, este caso pode demorar cinco anos a ficar resolvido.

Maria Paula Dias, psicóloga de 37 anos, apesar de não ter antecedentes criminais, foi acusada de dois crimes de homicídio por negligência e um crime de ofensa à integridade física também por negligência. Segundo a juíza, toda a matéria que consta na acusação foi provada, tendo o relatório técnico afirmado que o veículo se encontrava em bom estado antes do acidente.

Ontem, pelas 10.30 foi ouvida a sentença. A arguida entrou na porta do Tribunal das Varas Criminais de Lisboa pelas 09.40 tapando a cabeça e cara com um lenço e óculos de sol, evitando olhares, máquinas fotográficas e câmaras de filmar. Só retirou o lenço quando chegou à porta da sala onde iria saber a decisão do tribunal, no 3.º piso do edifício.

No dia 2 de Novembro de 2007 pelas 05.30, Maria Paula Dias, conduzia o seu Fiat Punto vinda de uma festa. Passou pela Av. Infante D. Henrique no sentido do Terreiro do Paço, sendo detectada pelo radar a velocidade a que circulava: 129 km/h (quatro quilómetros antes do embate). Filipa Borges, 57 anos, Neuza Rocha de 20 e Rufina (mãe de Neuza), 45 anos, após visualizarem o sinal verde para peões avançaram para a passadeira e foram colhidas por um veículo a alta velocidade. O carro da psicóloga tirou a vida a Filipa e Neuza. A primeira teve morte imediata e o corpo de Neuza ficou no interior do veículo de Maria Paula. Rufina, a única sobrevivente deste atropelamento ficou caída na via de trânsito contrária, ficando gravemente ferida. A sua recuperação demorou cerca de cinco meses.

Segundo Paulo Camoesas, advogado da condutora, Maria Paula Dias, nunca mais conseguiu dar consultas de Psicologia nem refazer a sua vida. A condutora tem estado a ser acompanhada por um psicólogo. Ontem, a terapeuta foi condenada a três anos de prisão e ficou inibida de conduzir durante um ano. Já conhecida a sentença, Paulo Camoesas informou que vai "recorrer". O advogado não entende como é que "um perito pode dizer que a viatura não tinha problemas" e referiu que "os elementos da condenação deixam muito a desejar".

O advogado de Rufina, Branco da Silva, considera que a pena foi demasiado grave e tem dúvidas quanto à avaliação feita da per- sonalidade de Maria Paula. Na sua opinião, Paulo Camoesas "tem muita margem de manobra para recorrer" e que o caso pode arrastar-se por mais cinco anos.

Para o Ministério Público, a psicóloga apresentou "frieza afectiva, mostrando-se imperturbável mesmo em situações de grande sofrimento". Mas na opinião de Branco da Silva o "depoimento da arguida correu mal". "Ela não é simpática e tem dificuldades de expressão", contou ao DN, acrescentando que Maria Paula esteve "repleta de nervos" e não acredita que ela não se tenha arrependido.

Victor Meirinhos, investigador na área dos atropelamentos ficou surpreendido com a decisão da juíza. "É um pouco estranho, porque tudo o que é crime rodoviário normalmente não tem condenações deste género. É quase sempre pena suspensa", apontou ao DN.

No mesmo sentido vai a reacção de José Miguel Trigoso, secretário-geral da Prevenção Rodoviária Portuguesa. "Existe de forma generalizada mão leve da parte da justiça face aos acidentes", disse. "É muito frequente pessoas serem causadoras, por negligência ou comportamento desviante, de mortes e as penas são baixíssimas", acentuou Trigoso.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG