Quem entra em Lisboa pelo Tejo vê "a miséria de Alcântara"

Túnel pedonal que liga Alcântara-Mar a Avenida das Índias continua a ser um do muitos 'podres' do Vale de Alcântara. Novos projectos são pensados sem que ainda tenham sido resolvidos os velhos problemas.

Numa altura em que a Câmara Municipal de Lisboa equaciona aplicar um plano verde no Vale de Alcântara, o que continua a predominar na zona é o cinzento dos velhos problemas. A única passagem para quem chega de barco ou para quem sai da estação de comboios é um velho túnel pedonal. Subterrâneo. Escuro. Sombrio.

Basta dar os primeiros passos no túnel que liga a Avenida da Índia a Alcântara-Mar para um cheiro nauseabundo entrar pelas narinas. O único colorido das paredes é dado pelos graffiti com palavras imperceptíveis ou ofensivas. Ao longo de toda a passagem, aquilo que resistiu à ira das noites transmite uma mensagem: abandono. E se o olhar de quem ali passa a primeira vez pode ser impreciso ou subjectivo, quem ali trabalha ou passa há vários anos confirma a podridão.

"Nojento." Foi com esta palavra que todas as pessoas que o DN abordou começaram por classificar o túnel. Sebastião Nunes, proprietário de um café no interior da passagem, o Vicaravana, recorda que "quem chega de paquete a Alcântara-Mar para ir para a cidade a pé, tem de passar por aqui. E vê isto... É uma vergonha".

Sofia Leitão anda sempre num corre-corre e, por isso, a passagem pelo túnel é fugaz. Porém, tem tempo para reparar que o túnel "é feio, sujo, às vezes tem muita água no chão e cheira a esgoto". Outra utilizadora, Maria Nunes, não consegue deixar de se indignar com "as teias de aranha dos candeeiros" e repete a lengalenga: "É a coisa mais porca e horrível que eu já vi."

Outro dos problemas do túnel, segundo explica Sebastião Nunes, é a falta de segurança. "Se o café não tivesse grades já tinham dado cabo de tudo", diz. Também Sofia se sente desconfortável com a falta de vigilância. Maria passa ali todos os dias, mas só enquanto ainda há sol. "À noite tenho medo", confessa. Antigamente, segundo contam, era diferente. Sebastião fala que "nos anos 90 passavam 80 mil pessoas e havia dois seguranças" e Maria Nunes recorda as "várias lojas que existiam na altura da inauguração".

Hoje, até as casas de banho estão fechadas. O que já é uma vitória, uma vez que as portas foram destruídas. Agora, a entrada é feita por paletas de madeira com fechadura que fazem as vezes de porta e a única chave que as abre está no Vicaravana. O DN entrou lá dentro e o cenário ainda é mais desolador que o exterior, com portas partidas, cadeiras nas retretes e lixo.

Márcio Agostinho, empregado do Vicaravana, conta que todos os sábados de manhã "há um desfile de bêbedos que urinam pelos cantos". "Até pornografia há por aí", diz numa referência a jovens que vêm ali terminar a "paixão da noite".

Um túnel que "já teve todas as condições" acabou por se transformar naquilo que Márcio Agostinho considera "o pior túnel de Lisboa" e "miséria de Alcântara". Como chegou a este ponto? O presidente da Junta de Freguesia de Alcântara não tem dúvidas: "A culpa é da CP e da Refer, os gestores ganham grandes ordenados e não tratam bem os clientes."

A ideia que José Godinho tem daquele túnel não difere dos utilizadores. "É perigoso, deprimente e sujo. De terceiro mundo", adverte. "Em tempos", a junta já geriu o local, tomando conta das casas de banho, mas depois "a CP deixou de pagar". Para José Godinho a postura da CP "é igual a uma frase que se usa aqui em Alcântara: 'os outros que se lixem.'"

O presidente da junta denuncia vários "podres" da sua freguesia, nos quais destaca as condições do porto onde desembarcam milhares de turistas. "A Administração do Porto de Lisboa trata sempre as pessoas que vêm nos paquetes abaixo de cão. E por um motivo: os paquetes não dão lucro", acusa. O autarca fala ainda na "vergonha" de não haver, nem estar prevista uma passagem naquela zona "para quem anda de cadeira de rodas, quem transporta carrinhos de bebés". Os problemas naquela zona do Vale de Alcântara são antigos e, a título de exemplo, José Godinho indica "a ponte metálica de uso automóvel, que ali foi construída para a guerra de Angola em 1972. Era para ser provisória, mas como tudo neste País, tornou-se definitiva".

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