"Marcha das Galdérias" junta dezenas em Lisboa

Algumas dezenas de pessoas juntaram-se hoje e percorreram as ruas de Lisboa entre o Largo de Camões e o Martim Moniz numa ação contra as violações e pelo direito a cada um vestir o que entender.

A manifestação, chamada "Slutwalk", realiza-se pela segunda vez em Portugal e é motivada pelo facto de em janeiro de 2011 um polícia canadiano ter justificado uma agressão sexual de uma mulher com a forma como ela estava vestida. Esta afirmação causou uma onda de indignação e levou já a manifestações um pouco por todo o mundo.

A ação de hoje, que também se realiza no Porto, arrancou pelas ruas do Chiado debaixo de vários cânticos contra o machismo, a intolerância e as violações, ao mesmo tempo que várias pessoas empunhavam cartazes onde se podiam ler mensagens como "Não é fácil ser fácil", "Não me digam o que vestir, digam aos homens para não violarem" ou "Não é não".

"Estas manifestações são precisamente para que possa existir uma liberdade de circulação no espaço público da parte das pessoas, a expressão da sua sensualidade, a sua liberdade sexual, sem se sentirem ameaçadas, com segurança, ou seja, promover uma cultura do consentimento, do diálogo e do respeito", explicou à Lusa uma das manifestantes, Anabela Rocha.

Valores que em dado momento nem Joana Dias nem Sofia Benforte sentiram porque não se vestem como a maioria das pessoas e preferem um visual que muitos consideram estranho.

Joana Dias garante que pondera o que veste antes de sair de casa mediante o sítio para onde vai, mas nem essa preocupação evitou que a tivessem tentado atacar.

"Já passei por situações bastante aflitivas, mas a pior foi quando umas pessoas a saírem de uma carrinha me tentaram bater porque eu sou estranha, aparentemente", explicou.

Já Sofia Benforte lembrou uma ocasião em que, a andar na rua, lhe atiraram uma pedra às costas: "Simplesmente pelo facto de me vestir de preto".

"É frustrante e castrador porque eu visto-me como me visto não é para atrair as atenções de ninguém, mas para me sentir bem e isso não devia incomodar ninguém porque a mim não me incomoda a forma como as outras pessoas se vestem", defendeu.

Na opinião de Anabela Rocha, Portugal ainda precisa muito que haja manifestações como esta, que consigam fazer passar a mensagem de que cada um tem direito a vestir-se como quiser sem ser incomodado por causa disso ou, em última análise, sem que isso sirva como desculpa para uma agressão sexual.

"Infelizmente continuam a haver decisões nos tribunais em que as pessoas que são abusadas e assediadas são duplamente vítimas porque são julgadas moralmente no tribunal e os abusadores não são devidamente condenados", criticou, dando como exemplo um caso de um médico que foi condenado a uma pena suspensa por ter abusado sexualmente de várias pacientes.

Na opinião desta manifestante, não é a atual legislação que está mal, mas sim a forma como muitas vezes alguns juízes interpretam essa lei.

João Louçã, outro manifestante, apontou à Lusa que a violência machista tem várias formas, desde a violência verbal à física.

"Há desde as bocas na rua a uma violência física, que acontece muitas vezes no seio da própria família, e há uma violência da moral que impõe o que é que se deve e não deve fazer e é preciso dizer que nenhuma destas violências é aceitável e que as pessoas têm direito a estar como querem", defendeu.

A manifestação, que contou com cerca de três dezenas de pessoas, terminou o seu percurso no Martim Moniz, onde permaneceram e leram um manifesto pela "autodeterminação sexual em todas as circunstâncias".

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