Em vésperas da desocupação ainda há vida no edifício

A Polícia Municipal de Lisboa pode desocupar coercivamente o edifício municipal da Rua de São Lázaro a partir de quarta-feira, mas ainda há vida no número 94: a recuperação continua, há workshops, ensaios, assembleias e debates quase diariamente.

Na Rua de São Lázaro sobressaem os cartazes afixados no número 94: "Não se pode despejar uma ideia". É Francisco Pedro, de 25 anos, que abre a porta do edifício. Subindo ao primeiro andar, o único 'ocupado' a tempo inteiro de um conjunto de quatro pisos, outro cartaz dá as boas-vindas a quem chega: "Este espaço é teu".

Por cá já passaram "centenas" de pessoas, em dias de festa, ou "só duas", em jantares. São maioritariamente jovens, na casa dos 20 anos, todos "com ideias muito diferentes", descreve Francisco.

As paredes estão pintadas, o chão, de soalho de madeira, limpo. Há sofás, cadeiras e uma mesa. "Houve uma transformação inacreditável. Desde a última ocupação -- a 25 de novembro de 2010 -- que ninguém vinha cá. Como as janelas ficaram abertas, havia pombos em decomposição. Limpámos tudo, pintámos e decorámos...", conta o jovem de 25 anos.

Outro cartaz refere as tarefas que precisam de ser feitas na casa, mas também os materiais necessários para continuar a recuperar o edifício.

"As pessoas participam à sua maneira. É importante que sintam que o espaço é seu, quer seja a pegar numa vassoura, a pintar uma parede ou a partilhar alguma coisa. Por isso é que isto é um espaço 'autogesticionado' -- é gerido por todos. Somos todos responsáveis, ou não, por cuidar do espaço", explica Francisco.

Numa pequena divisão existe uma 'Free-shop', ou seja, uma loja grátis: "Cada um deixa o que não precisa, partilha, e quem quiser pode levar o que quiser". Aqui há roupa, malas ou brinquedos.

Na sala ao lado há uma mesa de costura e a 'Biblioteca 94', que segue o conceito de 'bookcroosing', de troca e partilha de livros. Numa parede pintada de preto -- 'O Tempo em São Lázaro' - foi escrita a giz a agenda de atividades para essa semana. Para a tarde de hoje estão marcadas atividades como pintura de faixas, cinema e jantar.

Lara Wölf, estudante alemã de medicina, é responsável pelas sessões de cinema e um "jantar vegetariano".

Natural de Berlim, onde "também existiam muitas casas devolutas a serem ocupadas", acredita que esta pode ser a solução para um problema que "não percebe" porque é que "não há apoio da parte da câmara para projetos como este".

Quase diariamente há assembleias da 'Casa São Lázaro 94', que decidem e falam pelo coletivo. "Todas as decisões são tomadas em assembleias abertas a toda a gente. Há uma ordem de trabalhos que é definida de início e em todos os pontos tenta encontrar-se um consenso. Não há votação. Por votos fica sempre alguém a perder, há a ideia de quem vence e perde... No consenso toda a gente ganha", defende Francisco.

É através destas assembleias que se têm escrito cartas abertas e coletivas à vereadora da Habitação da Câmara de Lisboa, Helena Roseta, e que se decidiu avançar com uma providência cautelar "não para entrar numa luta legal, mas para usar meios para inviabilizar o despejo", disse o jovem de 25 anos.

No fundo do corredor, os "ritmos da resistência" ensaiam. Há tambores e instrumentos reciclados. Joaquim de Sousa, de 22 anos, lidera o ensaio e foi um dos primeiros a ocupar o edifício, a 25 de abril.

Sobre a saída anunciada, defende que "esta casa não é um estado terminal. A ideia que foi criada cá dentro pode ser transportada para outras casas".

Afinal, lembram os jovens, há 4.000 edifícios municipais devolutos em Lisboa para os quais, como este, há projetos "milionários" que a autarquia não consegue concretizar.

"Mas nós já demonstrámos que conseguíamos", remata Francisco.

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