Centenas em protesto contra a precariedade

Centenas de pessoas, na maioria jovens, juntaram-se hoje em Lisboa num piquenique contra a precariedade no trabalho, que apontam como uma das causas da crise económica.

Carvalho da Silva, secretário-geral da CGTP, juntou-se à iniciativa e defendeu também que o trabalho precário é um dos factores que contribuiu para desencadear a actual crise.

"Os três factores fundamentais da crise são, em primeiro, o agravamento da precariedade no trabalho, associado ao aumento do desemprego. O segundo é a redução da retribuição do trabalho e o terceiro é o facto de os accionistas dos grandes grupos se apoderarem dos resultados das empresas em nome da crise", declarou à Lusa.

Para o sindicalista, a ideia de que todos são responsáveis pela actual situação, tendo de se sujeitar às consequências, não pode continuar a vingar.

"Vai vir ao de cima a incoerência do caminho que está a ser seguido", afirmou, lembrando que o desenvolvimento das sociedades foi feito pela valorização do trabalho e por factores de estabilidade e segurança no emprego.

Convicto de que a juventude vai conseguir construir "novos caminhos", Carvalho da Silva recordou que a precariedade não é uma inovação, sendo tão antiga quanto a existência do trabalho escravo.

Pelo Movimento 12 de Março (M12M), co-organizadores da iniciativa, Paula Gil lembrou também que a crise actual "passa muito pela precariedade laboral".

"A instabilidade profissional leva a que as pessoas não comprem, não invistam, e a produção diminui e há mais desemprego", vincou à Lusa.

O M12M está agora a iniciar uma campanha para apelar a uma auditoria às contas públicas, com o objectivo de saber de onde vem a dívida portuguesa e que parte dela é especulativa.

Outra das iniciativas passa por recolher 35 mil assinaturas para propor ao Parlamento que se usem as medidas legislativas já existentes para travar a precariedade.

"Temos de pensar seriamente como vamos integrar estas pessoas para que contribuam para a nossa economia. A economia não se salva só com medidas de austeridade, salva-se com o contributo de toda a gente", frisou Paula Gil.

Nas contas de Valter Lóios, da Interjovem (estrutura da CGTP), estão contabilizados no país 1,2 milhões de precários, mas muitos mais serão.

Apesar de reconhecer que 65% são jovens, Valter Lóios sublinha que a instabilidade laboral é um problema transversal na sociedade: "está cada vez mais em todas as faixas etárias".

Certo é que a grande maioria dos participantes no piquenique de hoje é composta por jovens.

É o caso de Elsa Borges, professora há cinco anos, que tem passado a vida docente a saltar de escola em escola, a fazer substituições de outros colegas.

Num só ano lectivo, esta professora contratada esteve em quatro escolas diferentes: "é um processo de instabilidade, tanto para professores como para os alunos".

Elsa Borges lamenta ainda estar a menos de dois meses do fim do seu contrato sem saber o que o futuro lhe reserva e em que ponto do país estará.

A sensação de instabilidade é partilhada pelos bolseiros de investigação científica, que também marcaram presença na iniciativa de hoje no Parque Eduardo VII.

"Os bolseiros são precários e sentem isso na pele. São atirados, às vezes por 10 anos, para sucessivas bolsas até conseguirem eventualmente um contrato de trabalho. Isto define a precariedade: não se saber como se vai viver", resumiu, em declarações à Lusa, André Janeco, da Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC).

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