Câmara tem condições para renegociar com Bragaparques

O presidente da Junta de Freguesia de São José (Lisboa) defende que "a câmara tem todas as condições para renegociar" com a construtora Bragaparques a situação do Parque Mayer e admite a possibilidade de arranjar patrocínios para o espaço.

O autarca Vasco Morgado, neto do empresário teatral com o mesmo nome e da atriz Laura Alves, admite ter, no caso do Parque Mayer, uma grande dificuldade "em dissociar a cabeça do coração", mas considera que este é um problema com solução.

"Eu sou nascido e criado aqui dentro: com dois dias e meio, estava dentro do Teatro Capitólio, numa alcofa, no camarim da minha avó - a minha mãe estava em cena e eu no camarim", disse à Lusa, durante uma visita ao recinto quase abandonado.

"E quando eu nasci" -- prosseguiu --, "o Parque Mayer já precisava de obras. Acho que já precisava de obras mesmo antes de eu nascer e foi-se arrastando até que chegámos a uma altura em que os interesses económicos começaram a prevalecer em relação à Cultura em Portugal".

O contrato de permuta do espaço por parte dos terrenos da antiga Feira Popular, definido entre a Câmara de Lisboa e a construtora Bragaparques há alguns anos, foi recentemente declarado nulo pela Justiça portuguesa, segundo fontes envolvidas no processo, e a autarquia informou estar a analisar o acórdão. A empresa diz, contudo, que o Tribunal Central Administrativo considerou que as condições do contrato "são legais e mantêm-se válidas".

Na opinião de Vasco Morgado, "a câmara tem todas as condições, depois de viabilizado o Plano de Pormenor do Parque Mayer, para conseguir renegociar com a Bragaparques o que quer que seja para isto ir para a frente, de uma vez por todas".

"Pode-se não concordar com o projeto apresentado por este executivo camarário - como é o meu caso --, mas acho que tem de se fazer qualquer coisa, qualquer coisa é melhor que isto. Eu sempre fui a favor do casino dentro do Parque Mayer e de tudo o que de bom traria para a área. Resolveram colocá-lo na Expo... pronto", observou.

Depois de afirmar que a câmara está, neste momento, metida em "mais uma camisa-de-onze-varas", Vasco Morgado recordou que o Parque Mayer "faz cair executivos camarários".

"O povo de Lisboa não perdoa quem usa o Parque Mayer como bandeira eleitoral e nada dele faz. É preciso ter em atenção que isto é dos lisboetas e é de Portugal, porque o Parque Mayer foi adotado por todos -- não é uma brincadeira", insistiu.

Sobre o motivo desse sentimento de pertença, o autarca explicou que quando o espaço foi estreado, em 1922, como Luna Parque, comprado à família Mayer, ninguém estava à espera de que servisse de bastião de combate à ditadura: "Quando se queria ouvir alguma verdade, vinha-se aqui".

"Vicissitudes da vida deixaram-no cair até este ponto. Eu deixo aqui um apelo para que a câmara tente de alguma forma -- célere -- dar a volta a esta questão que ela própria criou", sublinhou.

Apesar da questão judicial, o município afirma que o plano de pormenor já aprovado é para cumprir e o presidente da Junta de Freguesia de S. José apontou a expropriação dos terrenos como "a solução mais óbvia".

No entanto, reconheceu, "neste momento, a câmara e o país não têm propriamente dinheiro para andar a brincar às expropriações. Seria de bom-tom chegarem a um entendimento com o que estava acordado antes desta invalidação, chegarem a alguns valores".

Para Vasco Morgado, é também preciso perceber que "não há problema nenhum" em passar a ter um 'Parque Mayer Kodak Theatre', se isso significar a sua requalificação e dinamização.

"Arranjem-se 'sponsors', arranjem-se patrocínios, negoceiem-se os nomes dos teatros! O 'Raul Solnado', no Capitólio, poderá ser 'Teatro Raul Solnado' e apresentado pelo Montepio -- estou a dizer isto ao calhas... [ou] poderá ser, já que está tanto na moda, a barragem de Cahora Bassa a patrocinar um teatro -- qualquer coisa!", propôs.

E concluiu: "O povo merece ter o Parque Mayer e o teatro de revista, o teatro de comédia... e isto pode ser um polo universitário de um centro de Belas-Artes, com tudo: temos o Hot Clube, temos tudo! Portanto, ideias não faltam. Se há ou não vontade política, o problema põe-se aí, porque toda a gente sabe que quando a vontade política é muita, as coisas fazem-se".

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