Arcos e distrações atraiçoam marchas no pavilhão

Exibição do Alto do Pina, atual vice-campeã, era a mais esperada da última de três noites no Meo Arena. Despique "muda-se" agora para a Avenida.

"São os nervos", desculpava-se este domingo, à saída do Meo Arena, uma marchante do Alto do Pina, guardando o cigarro que acendera cedo demais. A atuação do atual vice-campeão era a mais aguardada da última de três noites no antigo Pavilhão Atlântico, mas, à semelhança das apresentações dos seis bairros que a precederam, não foi isenta de falhas.

Em tons de verde, rosa e branco, o conjunto entrou no recinto enquadrado pelos arcos em forma de canteiros de sardinheiras... e desde logo foi visível a dificuldade dos marchantes em mantê-los na vertical sempre que trocavam de posição. O erro mais flagrante aconteceria, ainda assim, quando, num momento acrobático, um homem quase caiu, manchando uma exibição até então sincronizada e que, a partir dessa altura e até final, ficaria marcada por algumas hesitações.

A insegurança do vencedor de 2011 e 2012 contrastou com a determinação da Madragoa, antepenúltimo grupo a desfilar e único a exibir-se descalço, em tons de laranja, branco e dourado. No ano em que trocou a habitual representação de varinas e pescadores pela chegada, no século XVI, dos escravos ao bairro, a marcha apresentou-se confiante e coordenada, mas poucos minutos bastaram para que um dos seus arcos em forma de escudo e livro se partisse, sem que os aguadeiros conseguissem recuperá-lo. No recinto permaneceria apenas a base - uma espingarda que, perto do fim, foi, tal como as dos restantes arcos, disparada, num momento inesperado, mas não tanto como o truque de magia protagonizado pelo Beato.

A surpresa foi revelada já na segunda metade da apresentação, quando, no lugar dos padrinhos que minutos antes tinham subido ao trono dedicado a Santo António e após se abrirem as cortinas vermelhas, apareceram as duas mascotes. Por essa altura, já o cavalinho (conjunto de músicos que acompanha cada marcha) parara várias vezes de tocar, para que os pregões que o Beato quis recordar ecoassem no Meo Arena. Não é, por isso, de estranhar que as personagens recriadas não sem indecisões fossem as da Lisboa antiga, desde os cauteleiros às vendedoras de limões, passando pelos engraxadores. Alguns vestiam-se de verde, branco e amarelo, outros de roxo, branco e rosa e os restantes de azul, vermelho e branco. Os arcos tinham a forma de janelas e eram bem mais discretos do que os de bairro que desfilara antes - Carnide.

Com um figurino em branco, preto, azul claro e vermelho, o grupo distinguiu-se ainda nos bastidores graças aos seus arcos iluminados e que, mais tarde, se dividiriam, cada um e com uma certa atrapalhação, num coração e em dois conjuntos de flores. Sempre a brilhar, estas seriam depois colocadas no trono de Santo António, imediatamente antes dos padrinhos do grupo participarem também na coreografia que visou declarar o amor de Carnide à cidade. O abandono do recinto traria, porém, um imprevisto indesejado, quando um dos marchantes se dirigiu, por engano, à entrada e não à saída.

A reta final das apresentações fora, de resto, também o calcanhar de Aquiles das primeiras duas marchas a desfilar perante o júri. Numa exibição segura, a Graça abriu a noite com uma celebração dos miradouros localizados naquele bairro e que inspiraram o formato dos arcos, a fazer lembrar um varandim. Foi, aliás, numa varanda com um baloiço que os padrinhos do grupo entraram e abandonaram a arena, numa fase em que havia já marchantes a não acompanhar os passos dos restantes, enquanto se debatiam para segurar os arcos visivelmente pesados.

Já no caso do Castelo, o erro mais flagrante aconteceu no momento de voltar a pegar nos cestos com sardinhas prateadas, quando uma das participantes se apercebeu, demasiado tarde, que algo falhara no alinhamento e que o adereço não se encontrava no local que esperava. Até então, o grupo que homenageou os peixeiros e as varinas com arcos decorados com o peixe típico dos arraiais e um figurino verde, branco, azul e, no caso dos homens, vermelho, tivera uma exibição suficientemente conseguida para deixar em êxtase a própria claque e arrancar aplausos ritmados do restante público.

A sardinha marcaria também presença no desfile de Belém, com as mulheres a apresentarem-se vestidas de varinas, enquanto eles transportavam naus e caravelas. As embarcações seriam mais tardes carregadas individualmente, numa transição que decorreu com hesitações, que se agravariam com a aproximação do final da exibição em tons de verde, rosa, branco e laranja. A saída acabaria por ficar marcada pelo transporte das mascotes num pequeno barco que albergava ainda a tradicional imagem de Santo António.

O despique continua na próxima quinta-feira, na Avenida da Liberdade. Ao todo, são 20 as marchas a concurso.

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