Só os moradores podem matar javalis que destruam agricultura na Arrábida

A autorização para poder matar javalis a tiro na Arrábida até consta de um processo simples. Mas é exclusivo a moradores.

O processo para poder abater legalmente javalis que andam à solta na zona da Arrábida é até relativamente simples. Basta ter licença de caçador e ser dono de uma parcela de terreno agrícola, que possa estar ameaçada pela praga de suínos que há três anos prolifera na serra.

Nestas circunstâncias, o Instituto de Conservação da Natureza e da Floresta (ICNF) emite credenciais a autorizar o abate dos animais, como revelou hoje aquele organismo ao DN. Mas o Clube da Arrábida (CA), formado por moradores, coloca reservas na exceção introduzida há cerca de um ano, justificando que "é perigosa", porque alguma pessoa pode ser atingida.

Recorde-se que a Federação Nacional da Caça (Fencaça) se ofereceu para colocar caçadores na Arrábida, promovendo frequentes montarias que permitissem controlar a espécie - há exemplares que se passeiam regularmente por zonas frequentadas por pessoas - mas o ICNF não permite. Alega que a caça é uma "atividade interdita" em grande parte da área do Parque Natural, pelo que só os proprietários rurais e florestais da encosta norte da serra têm acesso às licenças que permitem "corrigir o excesso de densidade de javali", diz fonte oficial do ICNF, reconhecendo o aumento desta espécie na serra, causadora de "danos nas produções agrícolas".

A mesma fonte avança ainda que em zonas mais naturais da serra, onde existem espécies de flora prioritárias para a conservação, já estão a ser detetados problemas idênticos de destruição destes "importantes habitats", alertando que uma zona crítica em termos de presença de javalis está situada na zona do Portinho da Arrábida, Creiro e Alportuche. É uma franja da serra onde existem caixotes do lixo, pelo que os animais procuram por ali alimento.

Mas Pedro Vieira, presidente do CA e caçador há mais de 30 anos, alerta para o perigo que pode encerrar a caça ao javali feita por moradores com pouca experiência, uma vez que "dia e noite, há sempre pessoas a percorrer a serra por várias razões". E afirma ter contactado o parque há um ano sobre o assunto. "Eles mostraram-se favoráveis a emitir as licenças para desbaste da espécie, mas sempre achámos que são necessários outros meios", insiste, justificando que perante um "terreno tão atípico por ser muito fechado" é necessária a conjugação de vários agentes, como GNR, SEPNA, guardas do próprio parque natural e uma associação de caçadores que saiba organizar montarias. "Eu, por exemplo, não aceitei a credencial", assume o dirigente e morador em Alportuche.

E o que fazer quanto à encosta do lado sul, junto ao mar, onde se concentrará a maioria dos javalis? O ICNF explica que por ser uma zona muito encaixada morfologicamente, urbana e povoada, "não permite que sejam utilizadas correções de densidade que utilizem tiro", revelando apenas estar em curso a implementação de um projeto integrado de médio prazo. O objetivo passa pela "recolha, transporte e monitorização da espécie, salvaguardando as questões da preservação da flora, a saúde pública e a segurança da população residente e utilizadora desta área protegida", concluiu a mesma fonte.

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