Sindicatos querem voltar a ter cem mil na rua. O que mudou em dez anos?

Mário Nogueira, da Fenprof, assumiu o desafio de repetir no terceiro período as marchas históricas de 2008 e 2009. Mas agora há menos professores e há quem duvide da união dos docentes em torno destas organizações

No dia 8 de março de 2008 fez-se história, com a maior manifestação de sempre de um único grupo profissional em Portugal. Foram cem mil professores nas ruas - números confirmados pela polícia - e, logo no ano seguinte, assistiu-se a um protesto de dimensão semelhante, que os sindicatos estimaram em 120 mil. Agora, Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, assumiu em nome das diferentes organizações sindicais , que retomaram a luta conjunta nos últimos meses devido à questão do tempo de serviço congelado , o objetivo de repetir esses momentos já no início do terceiro período. Mas a tarefa não parece fácil. Desde logo porque, simplesmente, já não há tantos professores como havia então.

Em 2007/08, de acordo com dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e da Ciência (DGEEC), estavam ao serviço das escolas públicas 153 919 professores, entre efetivos e contratados. No ano seguinte esse total até aumentou ligeiramente, para 155 061. Mas, desde então, a tendência tem sido de redução acentuada, a um ritmo mais rápido até do que aquele que seria ditado pelo menor número de alunos.

Em 2015/16, último ano para o qual existem estatísticas oficiais, o total de professores das escolas públicas já tinha baixado para os 122452. Uma diferença de 32 609 face aos que existiam na última mega manifestação de docentes, sendo que atualmente o fosso deverá ser ainda maior.

"Há uma questão simples: já não somos tantos e duvido que os contratados alinhem em grande quantidade numa manifestação deste género", diz Paulo Guinote, professor do ensino básico e historiador da Educação, que publicou um livro dedicado à manifestação de há uma década, intitulado: A Grande Marcha dos professores - 8 de março de 2008. "O maior descontentamento, neste momento, é dos professores de carreira. Ter a mesma proporção de professores na rua talvez seja possível. Cem mil nem sei se ainda somos".

Em 2008 e 2009, o modelo de avaliação de desempenho que o Ministério da Educação queria implementar era o grande foco de descontentamento. Agora, está em causa a devolução aos docentes do tempo de serviço congelado, com estes a exigirem nove anos e quatro meses e o governo a não ir além dos dois anos e dez meses. Mas além das motivações, diz Albino Almeida, que em 2008 e 2009 presidia à Confederação Nacional das Associações de Pais, também os protagonistas mudaram. Se à época era notória a mobilização dos docentes contra a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, hoje as coisas não serão idênticas. "Com o atual primeiro-ministro e com este ministro da Educação diria que não há condições, pelo menos a curto prazo, para que isso possa acontecer".

Em termos de impacto, os protestos de 2008 e 2009 foram para Albino Almeida de uma eficiência total: "Foi o canto do cisne da avaliação", considera. "O problema", acrescenta, "é que esse movimento, a meu ver, não trouxe a solução do problema que está agora em cima da mesa: as progressões, e o que isso vai significar em termos de valor financeiro". Albino Almeida considera que os professores se "queixam justamente de estarem a receber menos 200 a 300 euros". Mas acrescenta que "é bom lembrar que o salário mínimo ainda não chegou aos 600 euros. Há um lado desta luta que não será fácil de ser acolhido pela opinião pública".

Paulo Guinote não duvida que o descontentamento é forte entre os docentes. E até admite: "Podemos ter uma grande manifestação na base do desânimo. Diria que 50 a 60 mil já é um bom número", aponta. No entanto considera também que, à exceção dos dirigentes sindicais, as circunstâncias e os atores políticos são agora diferentes.

Por um lado, diz, "o Bloco e o PCP estão de certa forma comprometidos com o governo. A mobilização que fizeram de forma intensa há alguns anos numa será a mesma agora". Por outro lado, considera, muita da atual insatisfação dos docentes tem por alvo o governo mas também "os sindicatos", pela forma como têm gerido este tema.

Greves em crescendo

Apesar destas reservas, os sindicatos parecem estar a conseguir cumprir os objetivos anunciados para esta semana de greves por regiões, que termina hoje na Zona Norte e nos Açores No primeiro dia, em Lisboa, Santarém, Setúbal e Madeira, as estimativas sindicais apontavam para escolas a funcionarem "a meio gás". No segundo dia, no Alentejo e Algarve, já se assinalou um crescimento. E ontem, na Região Centro, a adesão rondaria os 70%. O balanço e o anúncio de novas medidas serão feitos hoje.

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