Sim, senhor ministro. Como foi o meu primeiro dia

Ana Jorge, Bagão Félix, Isabel Alçada, Pires de Lima e Poiares Maduro contam as suas experiências

Isabel Alçada levou flores frescas para o gabinete do Ministério da Educação. Bagão Félix colocou a sua ampulheta, de coleção, na sua secretária na Segurança Social. Ana Jorge pendurou na parede da sua sala, no Ministério da Saúde, um quadro, pintado por um familiar, em que se lia "O mais importante são as pessoas". Poiares Maduro queria ter tido um "guião" para não se perder no labiríntico edifício da Presidência do Conselho de Ministros (PCM). Os guarda-costas e os motoristas, atribuídos logo no primeiro dia, foram o primeiro choque para Pires de Lima, no Ministério da Economia.

Com carreiras profissionais sólidas, estes cinco ex-ministros assumiram responsabilidades ao mais alto nível do Estado. Cada um teve as suas inseguranças e foi à descoberta de cada pormenor. Escolher as equipas, saber quem era quem nos extensos edifícios, conseguir chegar à sala certa, habituar-se ao som das recorrentes palavras "sim senhor (a) ministro (a), com certeza senhor (a) ministro (a)". Ou a saber lidar, pacientemente, com o formalismo implacável de inesperadas respostas negativas inesquecíveis, como aconteceu com Miguel Poiares Maduro: "A sugestão do senhor ministro não pode ser concretizada por ser dificilmente objetivada."

Um guião, por favor

Poiares Maduro voou diretamente de Florença, onde era professor no Instituto Universitário Europeu, de um gabinete recheado de estantes de livros, para uma sala vazia. O cargo que assumia era novo (ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional) e "não tinha pastas de transição". O "primeiro choque" foi quando percebeu que, ao contrário do que tinha acontecido no Tribunal de Justiça das Comunidades Portuguesas (onde foi advogado-geral), não havia nenhum documento, um guião, com aspetos práticos" para o exercício da função.

"Não há nenhuma memória institucional para o exercício das funções públicas, uma espécie de guião onde esteja descrito, desde a organização do edifício, um quem é quem, as regras de conduta, quantos elementos pode ter o gabinete... Devia estar tudo codificado", sublinha. "Temos de ir perguntando, sabendo e apostar no bom senso, que é sempre subjetivo." O primeiro dia "foi muito intenso. Tinha o chefe de gabinete e dois adjuntos, havia lugares a preencher e comecei a pedir currículos". A equipa foi-se compondo, "entre convites meus, sugestões que me eram dadas e as especialidades de que necessitávamos."

Uma enorme solidão

Quando chegou ao ministério, Ana Jorge, ex-ministra da Saúde, sentiu uma "enorme solidão". Apesar de conhecer o edifício, grande parte das pessoas, sentiu uma "sensação estranha" ao entrar no prédio da Avenida João Crisóstomo, conta a pediatra, que assumiu aquela pasta nos dois governos de José Sócrates. "Está-se sozinha", recorda, "ainda não tinha a minha equipa constituída e quem estava, estava de saída. Fica um vazio enorme." Não quis alterar muito o seu gabinete, e não levou "praticamente nenhum objeto pessoal". Com exceção de um quadro, pintado pela mãe de um dos netos, que muito preza. Pendurou-o bem em frente à sua secretária porque "queria olhar todos os dias para a frase que tinha escrita: "O mais importante são as pessoas"". Logo no seu primeiro dia escolheu o seu chefe de gabinete e a sua secretária, com quem tinha trabalhado antes da ARSLVT. "Tinham de ser pessoas de muita confiança", afiança.

Flores frescas no gabinete

A ex-ministra da Educação Isabel Alçada já tinha trabalhado com a sua antecessora, Maria de Lurdes Rodrigues, enquanto responsável pelo Plano Nacional de Leitura e por isso "conhecia bem os espaços, muitas pessoas e algum secretariado". A única coisa que mudou, logo no primeiro dia, foi o gabinete. "Tirei o máximo de objetos, gosto de ambientes leves, com o mínimo de mobília, quase só livros e dossiês", recorda. Depois, flores. "Tenho sempre uma jarra com flores frescas no meu gabinete, onde quer que esteja a trabalhar", sublinha. No primeiro dia, analisou logo as pastas deixadas pela sua antecessora, para começar a tratar dos "assuntos mais urgentes", e fez contactos para formar a sua equipa, parte integrada por pessoas com quem trabalhava antes.

A experiência não inspirou, porém, Isabel Alçada, a criar um novo livro da coleção de que é coautora com Ana Maria Magalhães. Uma Aventura no Ministério seria "uma vivência difícil de reconstituir com imagens" atrativas para as crianças.

O controlo da ampulheta

O edifício da Segurança Social, na Praça de Londres, era conhecido de Bagão Félix, quando assumiu o cargo de ministro do governo de Durão Barroso. Aos 31 anos tinha sido secretário de Estado de Sá Carneiro e o "nervoso miudinho" desse tempo já não o acompanhou. "Foi o regresso a uma das vistas mais fabulosas de Lisboa, do 16.º andar, onde era o meu gabinete", assinala. Logo no primeiro dia teve um Conselho de Ministros, numa tarde de sábado. Só na segunda voltou ao gabinete. "Não mudei nada. Acho que não tenho esse direito, aquilo não é meu." O único objeto pessoal que levou foi "uma ampulheta, de uma coleção de mais de 200", que o "acompanha sempre" e é uma "espécie de pressão subtil" para abreviar reuniões. Trouxe a sua secretária do BCP, onde era diretor-geral, e fez questão em constituir um gabinete "muito pequeno", porque "o aparelho de Estado já tem gente qualificada suficiente".

Segurança e intrusões

O ex-ministro da Economia reuniu, logo no primeiro dia, com a equipa de secretários de Estado que tinha herdado de Álvaro Santos Pereira, e anunciou a forma como queria que se tratassem: "Por tu, para não haver diferenças entre ninguém." Definiu "algumas regras de trabalho para tentar adaptar o ritmo empresarial", de onde provinha (Unicer) às novas responsabilidades. "Reuniões informais pelo menos uma vez por semana" era uma delas. Reduziu de 18 para dez as pessoas do gabinete e acabou com "duplicações" com as secretarias de Estado. Mas o primeiro e maior choque desse dia, confessa, foi quando lhe destacaram "um motorista e seguranças" que o acompanhariam em permanência. "Acabei por me habituar, mas custou muito esta intrusão na minha vida." Talvez por isso, agora, sem funções ainda definidas, esteja a "saborear a libertação" dessas obrigações. "Estou a parar para pensar, a despir o fato de executivo da política". Na próxima semana parte para África. Destino: praia e o resto é segredo.

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