Sérgio Sousa Pinto recusa acusações de anticomunismo

Deputado socialista explica as razões da sua demissão no Facebook

Denunciando que se instalou um clima em que "quem não concorde que o PS patrocine um governo de frente de esquerda, pelas mais variadas razões, expõe-se a acusações torpes ou de anticomunismo primário", o ex-líder da JS explica os "factos" onde assenta a sua desconfiança face à atual disponibilidade do PCP e do BE para viabilizarem um Governo do PS.

Por um lado "o Partido Comunista Português combateu o PS, sem desfalecimento, de 1974 até à semana passada". "Censurou e derrubou governos socialistas e não votou a favor de um único orçamento apresentado pelo PS, em quatro décadas", sendo que "esses orçamentos financiaram a construção dos sistemas públicos do Estado Providência português".

E isto porque "o PCP não perdoa ao PS ter liderado o campo político não comunista em 74/75 e ter derrotado o seu assalto ao poder". Assim, "durante os 4 anos de governo Passos-Portas, a oposição do PCP na AR foi pouco mais que gemente" e "já a fúria contra o PS prosseguia ruidosa, porque o PCP não precisa que o PS seja governo para liderar a oposição ao PS".

Acontece que "a chama do sectarismo comunista, uma espécie de tocha olímpica, subitamente apagou-se!" após as eleições do passado dia 4. "Porquê? Porque saiu das eleições uma ameaça que punha em causa a aconchegada inutilidade do PCP: o Bloco ultrapassou-o em votos e mandatos. Habituado a uma existência cómoda consumida a vergastar o seu adversário oficial - o PS, o PCP tinha agora que improvisar para sobreviver."

Portanto, "amesquinhado pelos resultados, [o PCP] parecia não servir para nada". E "num dos mais inesperados golpes de rins da sua história, ultrapassou o Bloco no desejo irreprimível de viabilizar um governo PS, orçamento e tudo". Reagindo "desconcertado, o Bloco, adiou a reunião prevista com o PS e, entalado pelo PCP, foi, muito contrariado, estudar compromissos possíveis com o PS".

Face a isto, "a direita, desorientada como uma galinha decapitada, lembra-nos que os comunistas comem criancinhas". Ora não só "não comem [criancinhas]" como "nem querem ir para o governo", como o Bloco "também não quer".

Resultado: mais tarde ou mais cedo "a direita terá a sua maioria absoluta", a qual "guardará por muitos anos [...] enquanto o país se lembrar dos dias que estamos a viver". Porque o que o PCP e o BE querem é "um governo fraco do PS para derrubarem quando for oportuno" Só falta saber quando: "Quando o Bloco descer e o PCP subir? Quando o Bloco subir e superar o PS nas sondagens? Não sei."

Sérgio Sousa Pinto foi líder da JS entre 1994 e 2000. Em 1995 foi eleito deputado pela primeira vez. De 1999 a 2009 foi eurodeputado, regressando depois ao Parlamento nacional. Na última legislatura (2011-2015) presidiu à comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros. Integrou desde a primeira hora o grupo de António Costa quando este decidiu disputar a liderança do PS a António José Seguro. No sábado passado anunciou ter-se demitido do Secretariado Nacional do PS, prometendo explicações na Comissão Política Nacional do PS (que esteve marcada para terça-feira mas foi adiada).

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