"Ser professor é profissão de risco"

O DN lançou a iniciativa Professor do Ano, que visa reconhecer os melhores docentes, com a ajuda das comunidades educativas. Hoje, Maria João Seixas, diretora da Cinemateca Portuguesa, recorda os grandes professores de Filosofia que marcaram o seu percurso e reflete sobre o futuro desta profissão e da educação em Portugal

Teve bons professores ?

Tive. No Liceu Salazar em Lourenço Marques (atual Maputo), no sexto e sétimo anos, tive um professor de Filosofia, Cansado Gonçalves, que nunca nos fez abrir um livro da matéria mas de certeza que foi a pessoa que me pôs a pensar e a perceber a importância do caminho do meu pensamento, a minha curiosidade sobre a realidade.

Creio que já é a segunda pessoa entrevistada pelo DN que recorda esse professor.

Era um excelente professor. Um homem já muito magoado pela vida, pela política. Tinha sido enviado para Moçambique um bocado em liberdade condicional. Esteve ligado ao Partido Comunista e esteve preso, foi torturado. Quando isso acontecia não se podia de todo voltar a falar de política mas ele não falava de outra coisa. Lembro-me dele porque, na minha feliz inconsciência de adolescente com tudo à mercê, foi ele que me fez corar de vergonha por não ter percebido que vivia numa colónia e que aquela terra pertencia por direito próprio aos que eram diferentes de mim por serem africanos. Fiquei envergonhada por nunca ter visto o que via todos os dias.

Os bons professores que teve marcaram o seu percurso e as suas escolhas?

O Cansado Gonçalves com certeza. E muito! Não tinha proximidade com ele mas foi o professor que me abriu os olhos e me obrigou a pensar. E a ver que, sem esse esforço e sem essa prática, os instrumentos que tinha para compreender o mundo não estavam a ser utilizados. Tive depois um grande professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que era espanhol, andaluz, chamado Osvaldo Marquet. Foi o grande professor, o grande mestre.

O que o distinguia dos demais?

Tudo, até porque os demais eram muito pouco empolgantes. Tinha uma erudição fantástica e uma seriedade ainda mais fantástica na maneira como nos expunha. Lembro-me que o tive em Filosofia Moderna e numa cadeira maravilhosa dada por ele, que era Ontologia. Era um professor um pouco distante. Os alunos que vieram antes de mim no meu curso diziam que ele metia medo. Acho que eu e os meus colegas da altura tivemos a sorte de o ver a abrir um bocado e a aproximar-se de nós. De resto, ficámos amigos e, como meu professor, foi lá a casa fazer tortilhas. Era um professor cansativo, porque nos obrigava a pensar e a relacionar os elementos da filosofia e a cruzá-los com outras coisas: a literatura, a música e até mesmo ao olhar para um jardim.

Como vê a situação dos professores atualmente, em particular as dificuldades sentidas pelos mais novos?

É preocupante mas é mais preocupante ainda pensar que se calhar não tiveram, eles próprios, bons mestres. Se calhar foi rápida demais a formação que tiveram. Têm de se esforçar muito para exercer o seu mestrado. É uma profissão de alto risco hoje em dia e isso preocupa-me. Se a aposta não é em educação, então não sei em que será.

Cortar na educação pode pesar no futuro?

Tudo o que está a ser decidido agora pesa sempre no nosso futuro. E como Portugal é um país em que a sua mais-valia continua a ser a cultural... Não me parece que haja muitos industriais com prémios, políticos com prémios, banqueiros com prémios, e há arquitetos portugueses premiados, cientistas portugueses premiados, pintores, cineastas, músicos. E cada vez que acontece um prémio desses é Portugal inteiro que está a ser premiado.

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