Segurismo não tenciona perder tempo com Belém

A candidatura da ex-ministra nasceu no grupo apoiante do ex-líder. Belém, porém, desvalorizou esse apoio e há quem não lhe perdoe

Os seguristas que ainda integram os órgãos nacionais do PS querem discutir porque é que, pela terceira eleição presidencial consecutiva, o eleito não é do PS mas sim do PSD.

Já descartaram porém a hipótese de dar grande importância nessa discussão às acusações, provenientes da candidatura de Maria de Belém - e verbalizadas por Manuel Alegre e José Vera Jardim - de que a direção do PS fez "batota" na campanha, violando em favor de Sampaio da Nóvoa a equidistância que prometeu entre as candidaturas da ex-ministra da Saúde e do ex-reitor da Universidade de Lisboa.

Na verdade, segundo o DN apurou, entre o núcleo de personalidades mais próximas de Seguro e Maria de Belém instalou-se algum mal-estar. Isto pelo facto de a candidata nunca ter em momento algum contactado o ex-líder socialista, o que para eles significou que Maria de Belém o via como uma menos-valia eleitoral.

Seguristas como Álvaro Beleza, Eurico Brilhante Dias ou António Galamba nunca apareceram na campanha. Francisco Assis - que, não sendo um segurista de gema, apoiou o ex-líder contra Costa nas primárias de 2014 - apareceu durante dez breves minutos, discursando num comício no Porto no último dia da campanha. O único apoiante de Seguro a quem foi dado um lugar de destaque nas intervenções públicas que se foram fazendo na campanha foi ao histórico socialista Alberto Martins (cujo percurso ao longo dos anos no PS não o permitem qualificar como "segurista"). De resto, as grandes despesas nos ataques a Marcelo, Nóvoa e à própria direção do PS ficaram sobretudo por conta de dois históricos que no confronto Costa-Seguro estiveram com o primeiro e contra o segundo: Manuel Alegre e José Vera Jardim. Esse grupo de ataque também incluiu, num jantar-comício em Viseu, Jorge Coelho, que na guerra interna do PS no verão de 2014 fez de árbitro, controlando a organização do processo eleitoral.

O que os seguristas desavindos com Maria de Belém não esquecem é que foi durante o consulado de Seguro na liderança do PS que a candidatura presidencial começou a ser congeminada. E que Maria de Belém se tornou presidente do PS, sucedendo a António de Almeida Santos, por convite de Seguro. Se o antigo líder não tivesse perdido para Costa nas primárias do PS de 2014, Maria de Belém teria sido a candidata oficial do partido a Presidente da República. Dentro do segurismo, a ex-ministra era vista como uma espécie de "Guterres de saias" - ou seja, como o plano B ideal para fazer face a uma mais do que previsível nova nega a uma candidatura presidencial do (agora) ex-alto-comissário da ONU para os refugiados.

Seguro perdeu o partido em setembro de 2014 mas isso não travou as ambições presidenciais dos seguristas em torno de Maria de Belém - mesmo já estando Sampaio da Nóvoa fortemente lançado.

Em janeiro de 2015, quando Costa já liderava o partido, a eurodeputada Ana Gomes lançou o nome de Maria de Belém como possível candidata presidencial a apoiar pelo PS, no decorrer de uma reunião da Comissão Política Nacional do partido (depois, em plena campanha presidencial, a eurodeputada foi apresentada como apoiante de Nóvoa ).

A candidatura de Belém avançou, sempre procurando distanciar-se do "segurismo" - porque esse era o único rumo possível já que Nóvoa a apresentava como uma candidatura de "fação" no PS.

Pouco preocupados com a ressaca das presidenciais, os seguristas procuram, isso sim, manter-se de olho na governação, já que são visceralmente contra os acordos com o PCP e com o Bloco de Esquerda onde o governo de António Costa sustenta um mandato que pretende ser de legislatura.

Assis vigilante em Bruxelas

Na ausência de Seguro, fora da política e em rigoroso silêncio desde que perdeu o partido para Costa, os olhares viram-se para o eurodeputado Francisco Assis como o "senhor que se segue" no caso de um dia as coisas correrem mal a António Costa. Assis afastou-se de Costa quando este decidiu avançar contra Seguro, depois ficou de fora dos órgãos nacionais do PS por achar que o partido estava a iniciar uma deriva esquerdista, e consumou a rutura quando o líder do partido fez os acordos com o PCP e o BE que lhe permitiram ser primeiro-ministro mesmo tendo o partido perdido as legislativas para a coligação PSD/CDS. Em pista própria segue, sem ambições de liderança, Sérgio Sousa Pinto, que foi da direção de Costa mas saiu por discordar dos acordos de esquerda. Nunca apareceu na campanha de Belém e só lhe declarou apoio a dois dias das eleições.

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