Secretas sugerem livros e cursos sobre espionagem

A nova secretária-geral está a apostar numa nova imagens dos serviços dos cidadãos, com um site cheio de "novidades" e "maior transparência nas respetivas atividades"

Não há que enganar sobre as "novidades" do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), Basta aceder ao site e clicar em "novidades": sugestões bibliográficas, cursos académicos, cultura de informações e até as notícias publicadas no último ano, sem qualquer censura. Objetivo? "O cumprimento do desígnio constitucional de transparência que impende sobre os serviços públicos o que, na ótica do Sistema, se promove através do conhecimento. É nossa intenção fazê-lo com uma mensagem cada vez mais CCC: clara, concisa e concreta - aquela que queremos seja a marca do SIRP", explicou ao DN fonte oficial do SIRP.

Graça Mira Gomes, a embaixadora que lidera o SIRP desde novembro passado não perdeu tempo a fazer cumprir um dos desejos que expressou no seu discurso de tomada de posse, de aproximar mais os serviços do cidadãos através do melhor conhecimento sobre as suas atividades. "Muitas vezes o público em geral refere-se aos Serviços de Informações como sendo "as secretas". Não creio contudo que devamos ser secretos na nossa relação com o cidadão para explicar de uma forma transparente a relevância das missões atribuídas ao SIS e ao SIED e a sua contribuição para a estabilidade da nossa democracia. Deveremos, isso sim, ser discretos na atuação", assinalou na altura.

À cabeça da lista de livros sugeridos está a obra "Contextos de Segurança: análises e perspetivas", coordenado pelo economista António Rebelo de Sousa (irmão do Presidente da República), publicado pelo Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), sobre terrorismo do daesh, o controlo das fronteiras e a infiltração de operacionais radicais. "Intelligence e Segurança Interna, do superintendente da PSP, Luís Fiães Fernandes, é outro livro recomendado, assim como o ensaio do catalão António Diaz Fernandez, doutorado no Kings College, sobre "Conceptos fundamentales de inteligencia" e até um guia sobre como se tornar um espião do MI5, as secretas do Reino Unido, entre outras quase 90 publicações de autores portugueses e estrangeiros.

São sugeridos dois cursos académicos - "Informações em Democracia" e "Gestão de Informações e Segurança" - para quem quer "conhecer" melhor esta área, com a chancela do SIRP e em parceria com o Instituto de Defesa Nacional, a Escola Naval, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e o ISEG/Nova.

Na página oficial do SIRP estão também divulgados os artigos que a comunicação social publicou no último ano, com destaque para o caso do espião do SIS Carvalhão Gil que está a ser julgado pelos crimes de espionagem, violação de segredo de Estado e corrupção. No entanto, adiantou o SIRP em resposta ao DN, estas publicações vão ser suspensas por não estarem a ter a "repercussão junto do público do site" que se antevia e não ter trazido "até à data mais-valia" aos "propósitos" dos serviços. Questionado sobre que "propósitos" eram esses, o gabinete da secretária-geral Graça Mira Gomes não respondeu a tempo desta edição.

O SIRP salienta que a ideia destas novidades "foi acalentada e lançada pelo anterior secretário-geral (Júlio Pereira) e mereceu acolhimento por parte da atual secretária-geral que lhe deu continuidade". Numa resposta escrita, fonte oficial do gabinete da embaixadora Mira Gomes, salienta que a ideia das "novidades" foi "tornar o site do SIRP mais user friendly" e que o "público-alvo são todos os que visitam os nossos sites, na medida em que permite a quem acompanha as nossas páginas ter acesso direto aos artigos publicados relativos ao SIRP e às suas diversas componentes. Quanto às referências bibliográficas, publicação de eventos, cursos e seminários, "são food for thought para quem quer conhecer os serviços e as suas missões".

A palavra de ordem que melhor exprime esta nova orientação é "desmistificar": " contrariamente a mitos e preconceitos ainda difundidos por alguma opinião pública menos informada, os Serviços de Informações portugueses não perseguem e não prendem (não são forças policiais nem têm poderes judiciais), não constituem "um Estado dentro do Estado" (não estão acima da Lei) e não são omnipresentes (não ouvem tudo e não estão em todo o lado)", está escrito no site.

Exclusivos

Premium

Primeiro-secretário da Área Metropolitana de Lisboa

Carlos Humberto: "Era preciso uma medida disruptiva que trouxesse mais gente ao transporte coletivo"

O novo passe Navegante abriu aos cidadãos da Área Metropolitana de Lisboa a porta de todos os transportes públicos, revolucionando o sistema de utilização dos mesmos. A medida é aplaudida por todos, mas os operadores não estavam preparados para a revolução e agudizaram-se problemas antigos: sobrelotação, tempos de espera, supressão de serviços, degradação de equipamentos.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Berlim, junto aos Himalaias

Há 30 anos exatos, Berlim deixou de ser uma ilha. Vou hoje contar uma história pessoal desse tempo muralhado e insular, num dos mais estimulantes períodos da minha vida. A primeira cena decorre em dezembro de 1972, no Sanatório das Penhas da Saúde, já em decadência. Com 15 anos acabados de fazer, integro um grupo de jovens que vão treinar na neve abundante da serra da Estrela o que aprenderam na teoria sobre escalada na neve e no gelo. A narrativa de um alpinista alemão, dos anos 1920 e 1930, sobre a dureza das altas montanhas, que tirou a vida a muitos dos seus companheiros, causou-me uma forte impressão. A segunda cena decorre em abril de 1988, nos primeiros dias da minha estada em Berlim, no árduo processo de elaboração de uma tese de doutoramento sobre Kant. Tenho o acesso às bibliotecas da Universidade Livre e um quarto alugado numa zona central, na Motzstrasse. Uma rua parcialmente poupada pela Segunda Guerra Mundial, e onde foram filmadas em 1931 algumas das cenas do filme Emílio e os Detectives, baseado no livro de Erich Kästner (1899-1974).Quase ao lado da "minha" casa, viveu Rudolf Steiner (1861-1925), fundador da antroposofia. Foi o meu amigo, filósofo e ecologista, Frieder Otto Wolf, quem me recomendou à família que me acolhe. A concentração no estudo obriga a levantar-me cedo e a voltar tarde a casa. Contudo, no primeiro fim de semana almoço com os meus anfitriões. Os dois adolescentes da família, o Boris e o Philipp, perguntam-me sobre Portugal. Falo no mar, nas praias, e nas montanhas. Arrábida, Sintra, Estrela... O Philipp, distraidamente, diz-me que o seu avô também gostava de montanhas. Cinco minutos depois, chego à conclusão de que estou na casa da filha e dos netos de Paul Bauer (1896-1990), o autor dos textos que me impressionaram em 1972. Eles ficam surpreendidos por eu saber da sua existência. E eu admirado por ele ainda se encontrar vivo. Paul Bauer foi, provavelmente, o maior alpinista alemão de todos os tempos, e um dos pioneiros das grandes montanhas dos Himalaias acima dos 8000 metros. Contudo, não teria êxito em nenhuma das duas grandes montanhas a que almejou. As expedições que chefiou, em 1929 e 1931, ao pico de 8568 metros do Kanchenjunga (hoje, na fronteira entre a Índia e o Nepal) terminaram em perdas humanas. Do mesmo modo, o Nanga Parbat, com os seus 8112 m, seria objeto de várias expedições germânicas marcadas pela tragédia. Dez mortos na expedição chefiada por Willy Merkl, em 1934, e 16 mortos numa avalancha, na primeira expedição comandada por Paul Bauer a essa montanha paquistanesa em 1937. A valentia dos alpinistas alemães não poderia substituir a tecnologia de apoio à escalada que só os anos 50 trariam. Bauer simboliza, à sua maneira, esse culto germânico da vontade, que tanto pode ser admirável, como já foi terrível para a Alemanha, a Europa e o mundo. Este meu longo encontro e convívio com a família de Paul Bauer, roça o inverosímil. Mas a realidade gosta de troçar do cálculo das probabilidades.