Secretas estrangeiras ajudam a recrutar quadros em Portugal

Da contratação para empresas às áreas política e militar, foi registada grande atividade de espionagem no país

Quadros qualificados de empresas e universidades são alvo de olheiros de secretas estrangeiras, que apoiam os seus países a recrutá-los em Portugal, aproveitando o ambiente de crise económica. Facto destacado no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), que regista uma intensa atividade de espionagem estrangeira no nosso país. Atinge vários setores de atividade e "representa uma ameaça real à segurança interna e aos interesses nacionais".

De acordo com "análise", da responsabilidade dos serviços de informações, "o ambiente de concorrência económica favorece a exploração de vulnerabilidades socioeconómicas, com vista à transferência de conhecimento e de recursos humanos qualificados para empresas estrangeiras, processos que contam, em alguns casos, com o apoio prévio dos serviços de informações desses países na deteção de oportunidades", é escrito no RASI. "Não menos preocupantes são as consequências da espionagem económica para o tecido empresarial português e para as instituições de investigação científica produtoras de conhecimento com elevado potencial económico, num contexto em que a economia portuguesa está muito dependente, entre outros fatores, da captação de novos mercados de consumo e da incorporação de inovação em produtos e serviços", é assinalado.

Contactado pelo DN, o presidente da Confederação Empresarial e Portugal, António Saraiva, desconhece esta dinâmica. "Não tenho report de alguma situação dessas. Mas admito que as instituições que eventualmente tenham sido alvo não reportem o caso exceto às autoridades. É um tema da intimidade das entidades e entendo que não façam publicidade dele. Dos nossos associados ninguém reportou nada", declarou.

Foram detetadas células jihadistas de apoio logístico e recrutamento

O cenário da espionagem estendeu-se também às áreas política e militar, onde um incremento é, pela primeira vez, sublinhado num documento oficial desta natureza. "No ano de 2015, embora o risco de espionagem na área da ciência e tecnologia se tenha mantido significativo, foi notório o aumento da ameaça de espionagem nas áreas política e militar, essencialmente pela necessidade crescente de informação que antecipe as linhas estratégicas do governo português no seio das organizações internacionais que Portugal integra, em especial na UE, na OTAN e na CPLP", refere o RASI.

O general Loureiro dos Santos, especialista em estratégia e ex--vice-chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, interpreta esta avaliação como "podendo ser um sinal de que foram detetadas fugas de informação, possivelmente obtidas por pessoas interessadas de outros países, sobre as posições que Portugal vai tomar em determinados organismos internacionais. O objetivo será antecipar essas posições e, caso seja necessário, preparar uma contestação".

O terrorismo jihadista constitui, como seria de esperar, uma "preocupação acrescida" para as autoridades, em particular a "atração que a jihad síria exerce sobre os extremistas europeus, entre os quais se incluem cidadãos portugueses ou de origem portuguesa, em função da facilidade de acesso a este teatro, por contraposição a palcos de conflito anteriores e da eficiente máquina propagandística do Grupo Estado Islâmico".

Desde 2013, é escrito no relatório, "que tem vindo a ser acompanhado um grupo de indivíduos de nacionalidade portuguesa, e lusodescendentes, que se encontra atualmente na Síria, ligados ao Grupo Estado Islâmico". Os resultados obtidos pelos serviços de informações "têm permitido rastrear cidadãos nacionais que se deslocam para palcos de jihad com o fito de se afiliarem ao Grupo Estado Islâmico, ou à Al-Qaida, e detetar células relacionadas com o recrutamento de jihadistas ou com a promoção de apoio logístico a grupos terroristas transnacionais".

O RASI regista oito crimes de "organizações terroristas e terrorismo internacional", todos inquéritos relacionados com o jihadismo. Com Carlos Ferro

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