São apenas 171 mas hoje também dão cor ao mapa autárquico

O DN foi ver como é a vida em Roios, a freguesia mais pequena de Portugal continental e que fica na capital do azeite, Vila Flor.

Mais de 9,4 milhões de eleitores escolhem hoje os seus representantes autárquicos em Portugal continental e nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira. Mas em Roios, identificada na Carta Administrativa Oficial Portuguesa como a mais pequena freguesia do continente em 2011, o dia deverá ser tão tranquilo como durante todo o ano. "É um paraíso", garante ao DN António Alexandre Bragança. Este pastor vive há 44 anos em Roios - aldeia que dá nome à freguesia do concelho de Vila Flor e que em 2011 tinha apenas 150 habitantes. Seis anos depois há 171 cidadãos, indica a Comissão Nacional de Eleições, em condições de escolher entre o atual presidente da junta, António Barros (PS), e Leonel Batista (PSD).

De acordo com o Censos de 2011, há quatro freguesias com menos população do que a de Roios e todas situadas na ilha açoriana das Flores: Mosteiro (43), Fajãzinha (76), Caveira (77) e Lajedo (93). Roios pertence ao distrito de Bragança e, em tempos, foi uma rua de Vila Flor, donde dista cerca de três quilómetros. Situada a uma altitude de 450 metros, essa aldeia tem uma área de 15,6 quilómetros quadrados, de acordo com os dados fornecidos pela junta de freguesia - em cuja porta do edifício está a password para os moradores e visitantes poderem ter acesso à internet sem fios.

Um rápido passeio pela aldeia permite constatar que tem as ruas pavimentadas e limpas, saneamento, várias habitações por pintar ou com ar de abandono e postes de iluminação que estão acesos durante toda a noite, contam os poucos moradores que o DN ali encontrou e ouviu há uma semana.

António Bragança afirma que está em Roios "a palmeira mais alta de Bragança". Mais, adianta a sorrir e a fumar, "deve ser a aldeia com mais guardas da GNR" porque ali vive uma dezena (dois reformados). Talvez seja por isso que "aqui não se vê ninguém à boa vida" e, acrescenta com orgulho, se "pode deixar o carro aberto 24 horas sobre 24 horas que não aparece gatunagem". Na boa tradição transmontana, "as pessoas são muito dadas" e, "quando as primeiras coisas surgem" nas hortas - "tudo biológico", enfatiza o pastor - "dividem-se por todos".

"Não é fácil viver aqui, há poucos eleitores", conta Augusto Samorinha, enquanto vai cortando cachos de uvas moscatel com um canivete e atirando os bagos estragados para um balde. Serralheiro de profissão, que "antes fazia portões, grades" e agora "vai fazendo" o que pode nos terrenos deixados pelo pai, este natural de Roios "gosta da aldeia" e da qualidade de vida que lhe oferece. Além disso, assinala o agricultor na casa dos 60 anos, "agora há muita mocidade".

Sebastião Cordeiro Pastor, dono do Café Caçador e que agora vive da agricultura, recorda o tempo em que veio de Luanda com a mulher, Guilhermina. Era 1975 "e faziam-se duas equipas de futebol, solteiros e casados... agora só em agosto é que isso acontece, no resto do ano nem uma equipa" se forma com os habitantes de Roios.

António Bragança confirma que "há rapazes novos", mas fica por se saber se isso corresponde a uma inversão na tendência de decréscimo populacional que a freguesia registou em três décadas sucessivas (1981 a 2011) - o que sucede pela primeira vez em século e meio. Isso é verificável na tabela do Instituto Nacional de Estatística (via Wikipédia) sobre a evolução do número de habitantes em Roios, que começa em 1864 e acompanha a sua progressão em períodos de 10 anos - sendo registada todos os anos uma anomalia no mês de agosto decorrente da presença massiva dos emigrantes em férias.

Em matéria de saúde, "apesar de estarmos desterrados aqui para cima", Sebastião Cordeiro dá uma garantia: "Não tenho medo de ter um problema de saúde." Para isso contribui, além do serviço de urgência em Vila Flor (aberto até às 20.00), a visita regular de uma carrinha de cuidados médicos e a ida semanal de uma enfermeira ao centro de dia, explica. Já no que respeita ao emprego, a dificuldade parece residir no plano das expectativas não realizadas dos mais novos.

António Bragança diz ser "pastor com orgulho desde os 14 anos" e que "não tem feriados nem domingos nem nada". Mas acrescenta que são poucos os jovens a trabalhar na agricultura, estando a quase totalidade nas freguesias vizinhas - como são os casos da mulher, da filha e do genro de Augusto Samorinha, com empregos na sede do concelho.

No Café Caçador, à entrada da aldeia e com vários clientes à hora de almoço na esplanada, Sebastião Cordeiro desabafa: "A nível local olharam sempre mais para os analfabetos... o meu neto, se tivesse dado as habilitações que tem, não entrava" para a cadeia de distribuição onde trabalha há cinco anos (em Vila Flor), a troco do salário mínimo. Com três filhos a viver noutras zonas do país, o comerciante assinala que Edi Neves, licenciado em Arte e Design, "foi o que mais estudou e é o que está pior".

O mérito do neto, na ótica dos avós, é tanto maior quanto "andou anos a meter massa na betoneira" que Sebastião Caçador usava na construção civil e depois "saiu com 18 e 19" da faculdade, comenta Guilhermina Pastor.

Rita Borges diz que em Vila Flor "há emprego e bastante" mas, essencialmente, "em cafés e restaurantes". Enquanto coloca o bebé na parte de trás do carro, a jovem que ali vive há oito anos conta que vai "tendo emprego na agricultura" (leia-se vindimas) em Roios "e num lagar de azeite" na aldeia vizinha de Nabo (o de Roios já não funciona).

Para essa mobilidade de que Rita beneficia ajudam as boas acessibilidades de Roios, onde o Centro de Dia da Santa Casa da Misericórdia de Vila Flor funciona como o principal empregador da freguesia. Além dos serviços públicos e das empresas na sede do concelho, a fábrica da Frize (na freguesia vizinha de Sampaio) e uma empresa de resíduos sólidos constituem outras fontes de magro sustento para os habitantes da freguesia. "É assim a vida dos pobres", remata Sebastião Caçador.

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