Santana ao ataque vira "trapalhadas" de 2004 contra Rio

Candidatos à liderança do PSD enfrentaram-se pela primeira vez. Os ataques pessoais e o passado dominaram grande parte do debate na RTP.

O primeiro frente-a-frente entre os dois candidatos à liderança do PSD até começou calmo e com alguma sintonia na rejeição das polémicas alterações à lei do financiamento dos partidos políticos. Mas após este aperitivo de cortesia abriram-se as hostilidades.

Ainda o debate ia no início, quando Pedro Santana Lopes saiu ao caminho de Rui Rio. Queria um pedido de desculpas pelas palavras do adversário, que em entrevista ao DN, há três semanas, afirmou que o opositor está agora a fazer "as mesmas trapalhadas que fazia em 2004", quando foi primeiro-ministro. Rio ripostou- "as trapalhadas efetivamente existiram" - e defendeu a decisão tomada pelo então presidente da República, Jorge Sampaio, que dissolveu a Assembleia da República: "Havia naturalmente razões e tu sabes isso perfeitamente".

Santana vem preparado para esta discussão e dispara: "Então, foste meu vice-presidente e nunca me disseste isso?!". Nem em público, nem em privado, acusa. Já numa posição defensiva, Rio argumenta que não quis criar mais complicações nem ao partido nem ao país. Mas Santana não lhe dá tréguas e continua a exigir que Rio aponte as "trapalhadas", ao mesmo tempo que questiona a lealdade de opositor para com o partido, acusando o adversário de ter estado ao lado de Pacheco Pereira e da Associação 25 de Abril contra o governo liderado por Pedro Passos Coelho.

António Costa também foi chamado à conversa, com Santana Lopes a argumentar que Rio pouco critica o primeiro-ministro - " Passas o tempo a dizer mal de mim"- e a lembrar a assinatura conjunta (por Rio e Costa) de uma carta dirigida ao então líder do executivo, Pedro Passos Coelho. "Tu e o António Costa são o Dupont e Dupond", atira. Não ficou sem resposta, com o ex-presidente da câmara do Porto a dizer que não deve nada ao líder do PS, e que ao contrário de Santana (reconduzido no cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia) nunca foi nomeado para nada pelo primeiro-ministro.

Mas Rui Rio esteve quase sempre a correr atrás do prejuízo na primeira parte do debate na RTP. Mas nunca desarmou da ideia de que se Santana Lopes ganhar a liderança do partido e concorrer a primeiro-ministro em 2019 "todas as fragilidades, todas essas histórias, voltam ao de cima". Aliás, foi esta a ideia que quis transmitir nos minutos finais em que se dirigiu diretamente aos mais de 70 mil militantes que vão votar nas diretas daqui a uma semana, a 13 de janeiro. "O objetivo do líder do PSD é ser primeiro-ministro, por isso os militantes devem procurar escolher o que tem melhores condições para o ser", afirmou Rui Rio. E continuou: "Pedro Santana Lopes já teve uma experiência governativa que correu muito mal, se for eleito, todas essas fragilidades virão ao de cima. Por isso, escolher quem tem melhores capacidades de vencer António Costa é dar um passo em frente, e escolher o outro é dar um passo atrás. Acho que vamos dar um passo em frente"

O ex-autarca do Porto também quis demonstrar que Santana teve um momento em que poderia ter traído o partido, quando admitiu criar um Partido Social Liberal (com as mesmas iniciais do seu nome). "Quiseste um partido contra o PSD", atirou Rui Rio.

Ambos digladiaram notícias publicadas em jornais para provarem a troca de acusações, mas na resposta Santana acusou Riu Rio de "esconder" apoiantes, entre os quais Pacheco Pereira, uma das vozes mais críticas contra o governo liderado por Pedro Passos Coelho.

Estes ataques mútuos dominaram grande parte do frente-a-frente e marcaram o tom com que Rui rio e Santana Lopes se defrontaram. Só quando o pivot do debate, Vítor Gonçalves, virou o debate para os temas macro é que os dois candidatos à liderança do PSD distenderam.

As propostas para a governação do país foram notoriamente o momento de viragem. Durante alguns minutos Rui Rio e Santana Lopes, com algumas nuances, começaram a concordar com várias ideias. "Somos companheiros de partido", argumentou Santana Lopes, num registo muito mais doce.

Rui Rio defendeu um "governo completamente diferente" para o país, capaz de fazer as reformas que a "frente de esquerda" é incapaz. "Temos de desenhar um modelo de crescimento completamente diferente", defendeu Rio. E elencou as suas apostas: políticas amigas das exportações; do investimento e da poupança, com diminuição de carga fiscal para as empresas. Fez ainda a defesa do défice zero. Santana foi atrás da descida do IRC para as empresas e mostrou-se seguro nos indicadores económicos. "Precisamos como de pão para a boca de investimento que crie emprego", disse. Ambos defenderam a descentralização do Estado.

Sobre a corrupção no Estado, Rui Rio quer ir mais longe no seu combate, enquanto Santana Lopes garantiu que a legislação portuguesa já dá os meios necessários para que esse combate seja efetivo, sem querer pronunciar-se sobre a possibilidade de renovação do mandato da procuradora-geral da República. Rui Rio escusou-se igualmente a avaliar Joana Marques Vidal, mas fez uma apreciação negativa do trabalho do Ministério Público. "Não vejo a eficácia que devia ter, o recato que devia existir".

Quanto a coligações, os dois candidatos concordaram na ideia de que o PSD deve ir sozinho às legislativas de 2019 - mas, um e outro, sem fechar completamente a porta. O CDS será o parceiro preferencial no cenário de uma coligação pós -eleições. Já acordos de Bloco Central com o PS são uma impossibilidade para Santana Lopes. Rio diz não ver nenhuma circunstância extraordinária que o pudesse justificar, mas também foi acrescentando que não se pode dizer jamais (em francês na expressão popularizada pelo ex-ministro Mário Lino), porque tal como aconteceu com o resgate de 2011, pode haver situações, no interesse nacional, que o justifiquem.

Os minutos finais do debate na RTP , em que Rio e Santana falaram diretamente aos militantes foram uma espécie de condensação de todo o frente-a-frente. Santana Lopes a falar ao coração do partido, a qual prometeu "engrandecer", e Rui Rio a olhar para o país. O candidato tentou passar a ideia de que é o melhor colocado para ser candidato a primeiro-ministro. Rio e Santana vão enfrentar-se ainda duas vezes antes das eleições diretas de dia 13.

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