Saltar o muro para ver as raparigas

No âmbito da iniciativa Professor do Ano, o DN convida todas as semanas uma personalidade a recordar os seus tempos de escola. Hoje, o juiz Eurico Reis recorda as épocas das escolas separadas por género, em que os rapazes eram educados para serem "homenzinhos". E revela os acasos que o levaram até à carreira de magistrado.

Quais são as primeiras memórias que tem da escola?

São de quando entrei para o primeiro ano, na escola junto de minha casa. Passei de um ambiente familiar protegido para uma escola que tinha crianças não só do meu bairro mas também de outras partes dos Olivais. Eu era um bocado menino da mamã e foi uma experiência diferente e interessante. E aí o papel da minha professora foi muito importante, porque soube incentivar a socialização.

Do que é que se recorda dela?

É engraçado porque nunca consegui perceber bem que idade tinha. A um rapaz de seis anos parecia velha, mas não seria mais velha do que a minha avó. Era uma senhora muito maternal, solteirona. As coisas eram completamente diferentes na altura. A professora primária era vista pelo Estado Novo como uma figura marcante e por isso faziam--se exigências terríveis, até do ponto de vista do casamento. O resultado era que muitas acabavam por ficar solteiras. Mas a professora primária é de facto uma porta importantíssima para a socialização, para a formação de hábitos de trabalho. Na altura, como as escolas de rapazes e raparigas eram separadas, o padrão em relação aos rapazes era que tínhamos de ser homenzinhos, até se fomentava alguma agressividade, e ela era o contraponto a isso.

Quando é que teve colegas raparigas?

Só na faculdade. Até 1974 a política era escolas separadas por género, sendo que cada liceu para rapazes tinha o seu correspondente liceu para raparigas. No caso do Padre António Vieira eram o Rainha Dona Leonor, mais liberal, e o Filipa de Lencastre, mais conservador. Aqueles cafés ali na zona da Av. de Roma é que lucravam com isso, porque era ali que convivíamos. Era uma hipocrisia. Lembro-me de que na primária tínhamos um muro a separar as escolas e entretínhamo-nos a saltar o muro para o lado das meninas, só pelo desafio. Depois éramos apanhados e levávamos umas reguadas.

Como é que foi parar à carreira de juiz?

Não havia nenhuma tradição familiar, o meu pai era funcionário público e a minha mãe doméstica, só quando se divorciaram começou a trabalhar. Ambos tinham a quarta classe. Na escola tive a vantagem de passar por situações um bocado imprevistas, fui sempre apanhando os anos de reformas. Na altura, os de direita iam para Direito e os de esquerda para Economia. Eu era de esquerda, era muito fácil ser de esquerda - havia a Guerra Colonial e a estupidez do regime, que era completamente idiota. Depois dá-se o 25 de Abril e todas aquelas convulsões. Confesso que apesar de ser de esquerda, na altura, nunca fui muito adepto da anarquia e lembro-me de falar com a minha professora de História e de ela me ter aconselhado a seguir Direito. E assim foi. Quando cheguei ao quinto ano o CEJ tinha sido criado há pouco tempo e pareceu-me que se adaptava ao meu perfil . Trinta e um anos depois cá estou. É interessante como, para uma pessoa que gosta de ordem, nunca fiz grandes planos. O acaso tem uma importância muito grande na vida.

Como vê o papel dos professores na sociedade?

A nossa sociedade trata os professores de forma atroz e estamos a pagar todos os erros cometidos no passado. Nem toda a gente pode ser professor, há certas características que são essenciais, mas é preciso dignificar a profissão porque sem bons professores não há qualquer hipótese de futuro.

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