Em Grândola, os novos tempos são de esperança e de política

A Vila Morena olha para o governo de Costa com agrado. As suas gentes consideram o novo poder uma lição de democracia. E encontram na esquerda radical sinais de moderação

Enquanto atende os clientes da papelaria, Vitorino Batista vai dizendo de sua justiça sobre o momento político em Portugal, traduzido na chegada do PS ao governo. "Isto tinha de se dar. Já viu o medo com que as pessoas aí andavam? Muita gente estava a pensar que até a casa perdia com o PSD e CDS. As pessoas calavam-se por medo. Tivemos esse quadro entre muitas famílias aqui na terra", garante o proprietário da Casa Camacho, no centro da mesma Grândola que inspirou Zeca Afonso para a Vila Morena que seria a senha de abril, garantindo que por ali os novos tempos são de "esperança". Uma versão quase transversal por estas paragens onde ainda se encontra alguém da pequena franja da população de direita que receia o "regresso ao passado".

No estabelecimento mais antigo de Grândola, que Vitorino Batista herdou do pai, fala-se de política há mais de um século e em tempos que já lá vão até se abriram portas a conversas contra o regime de Salazar. "Naquela altura era de coragem", sublinha, recordando o familiar republicano, Carlos Camacho, que ficou célebre por desafiar poderes instalados e até ganhou uma rua com o seu nome no concelho. Tal como o seu pai - com o mesmo nome -, que hoje é nome de rua, mas que chegou a ser preso duas vezes pela PIDE por dignidade.

Presidente da câmara diz que é preciso apostar nas políticas sociais

Já a irmã, hoje com 84 anos, também foi detida e sujeita à tortura do sono. "Levou tanta porrada, mas hoje ainda está lúcida", revela o irmão para justificar o estado de "especialmente bem-dispostos" ao ficar a saber que Cavaco Silva iria dar posse ao governo de António Costa. Não é filiado em nenhum partido mas a luta pela igualdade faz que seja indiscutivelmente um homem à esquerda. "Isto é que foi uma lição de democracia que eles levaram, até porque a própria esquerda radical deu um sinal de estar mais moderada e isso é muito positivo", sublinha.

A moer no Grândola de Relvas

O presidente da câmara, António Figueira, que há dois anos conquistou a emblemática autarquia alentejana ao PS pela lista da CDU, também acredita que se voltou a viver um "ambiente de esperança", depois do que apelida de constrangimentos financeiros que marcaram os últimos anos.

"Se for agora feita uma aposta nas políticas sociais é possível inverter a tendência, com reposição de salários e redução de impostos que permitam melhorar a vida das pessoas", diz o edil, defendendo que, afinal, abril de 74 também foi feito para permitir a Assembleia da República escolha o governo. E a esquerda mostrou a sua força", insiste, aguardando que a "igualdade volte a ser possível entre o povo".

Junto à célebre Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se diz que é possível "escutar o coração de abril", tal a quantidade de vezes que por ali se tocou o "sinal" da Revolução dos Cravos com o próprio Zeca Afonso, recorda-se que nunca como na anterior legislatura se havia entoado tantas vezes Grândola Vila Morena. Chegou a cantar-se onde estivesse um governante. Ainda hoje a população de Grândola não perdoou o "tom jocoso", classifica Adelaide Silva, com que um dia o então ministro Miguel Relvas surgiu na televisão a cantar com alguns manifestantes que o contestavam. Até pousa o saco das compras para assumir que "foi balde de água fria para nós. O homem nem a letra sabia".

"Meteram medo ao povo"

Paula Esteves, jovem desempregada há dois anos, ajuda o pai no transporte de fruta. "A população não gostou. Aquilo é um hino, tem um simbolismo próprio e não é para usar todos os dias", diz.

Enquanto descasca ironicamente uma laranja, admite que é capaz de perceber que "as pessoas andavam revoltadas e queriam fazer qualquer coisa", mas já não entende o resultado eleitoral. "Foi preciso a esquerda entender-se para derrubar a direita, quando se pensava que o PSD e o CDS iriam sofrer grande derrota." Um pouco à semelhança do que aconteceu em Grândola, onde o PS conquistou 2668 votos, a CDU 1966, enquanto a coligação Portugal à Frente não foi além dos 1371.

A professora Camila Malhadais, reformada do ensino básico, tem uma explicação. "Conseguiram meter tanto medo ao povo que o levaram a culpabilizar-se pela crise."

Ouvíamos nos cafés as pessoas admitirem que talvez tivessem pedido de mais aos bancos e que teriam gasto muito. Obrigaram-nos a enfiar essa carapuça através da arma do medo, ameaçando com mais cortes, a troika e mais austeridade", justifica esta independente que já integrou as lista da CDU, mas apenas para "fazer número", admitindo que os seus 78 anos só lhe permitem pensar em descanso.

O fantasma do despesismo

Porém, em terra onde não é fácil encontrar alguém assumidamente de direita que queira falar ao DN torna-se difícil fazer contraditório sobre o momento político. Sobra um empresário agrícola que nos pede que lhe chamemos apenas Carlos para dizer que receia "o regresso do despesismo e da gestão ruinosa, que mergulhe outra vez o país na crise", sublinha, testemunhando tempos difíceis na última legislatura sublinhada com a quebra significativa de vendas no negócio que gere. "Chegámos a admitir fechar a porta em 2012", diz, assumindo que este ano se reergueu ao ponto de voltar a contratar trabalhadores.

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